Na cidade em que ela nasceu, San Miguel de Tucumán, foi assinada a declaração de independência da Argentina, dia 9 de julho de 1816. E veio ao mundo no mesmo dia, em 1935 – ontem estaria completando 85 anos. Estas duas coincidências, geográfica e temporal, somadas ao fato de ter crescido enquanto Juan Perón era presidente – e a influente Evita sua primeira dama –, fizeram com que fosse forte a influência nacionalista. Além de tudo, trazia nas veias uma ascendência mesclando sangue europeu com o dos indígenas diaguitas, que falavam a língua cacán e habitavam todo o noroeste do país. Essa segunda circunstância lhe ensinou o respeito à diversidade cultural. Este caldeirão, sua sensibilidade e a voz grave e marcante, tornaram Mercedes Sosa uma das mais brilhantes cantoras da música folclórica latino-americana.

Peronista na infância, nos anos 1960 optou por filiar-se ao Partido Comunista. Em função disso, integrou a lista negra do regime militar que se instalou na Argentina em março de 1976. Foi quando aproveitou para intensificar carreira internacional, com um giro pela Europa e pela África, acompanhada pelo guitarrista peruano Lucho González. Na volta, fizeram apresentações também no Brasil, onde gravaram uma apaixonante versão de Volver a Los Diecisiete, junto com Milton Nascimento. A música é uma das faixas do excelente Geraes, no qual Milton também conta com participações de Chico Buarque e Clementina de Jesus, entre outros. Já em seu país natal, Mercedes acabou presa durante um recital que fazia em La Plata – ela e todo o público presente. Conseguiu sair em 1979 e se exilou, primeiro em Paris e depois na capital espanhola. Durante todo este período seus discos estiveram proibidos, mas os fãs cresciam em todo o mundo e sempre davam um jeito de conseguir gravações de seus trabalhos, interpretações realmente magistrais.

Defensora ferrenha da integração entre os povos latino-americanos, Mercedes tornou-se uma grande intérprete da obra da folclorista, compositora, cantora e ceramista chilena Violeta Parra. Introduziu em seu repertório muitas canções brasileiras, como duas de Milton Nascimento – Cio da Terra e San Vicente. E deu visibilidade ainda maior para a produção dos seus conterrâneos Atahualpa Yupanqui e Maria Elena Walsh. Uma de suas marcas sempre foi a seleção criteriosa de parceiros e canções. Há uma coerência e uma coesão muito fortes, quando se examina a sua trajetória como um todo. Em suas vindas ao Brasil, sempre contou com presenças e participações importantes em seus shows, como Chico Buarque, Beth Carvalho, Caetano Veloso e Gal Costa, todos fazendo questão de destacar o quanto honrados ficavam em cada uma destas oportunidades.

Sua preocupação social e a necessidade de marcar posição política, uma vez que via isso como uma responsabilidade da qual a arte não pode se furtar, a fizeram integrar vários movimentos. Foi assim que foi incluída como uma grande expoente da chamada Nueva Canción. Essa corrente se estabeleceu na Argentina ao reunir músicas de raízes espanholas, andinas, cubanas e africanas, num caldeirão que incluía ideologia de rechaço à dominação de potências estrangeiras, às desigualdades sociais e ao consumismo. Muito profícua em termos de gravações, fez isso sozinha e com outros artistas argentinos, como Antonio Tarragó e Fito Paez. Mas também com expoentes da música internacional, como Andrea Bocelli, Luciano Pavarotti, Joan Baez, Pablo Milanés e a colombiana Shakira.

Mercedes Sosa foi Embaixadora da Boa Vontade da UNESCO para a América Latina e o Caribe. Ganhou três vezes o Grammy Latino de melhor álbum de música folclórica: em 2000, com Misa Criolla; em 2003, com Acústico; e em 2006 com Corazón Libre. Nos deixou em outubro de 2009, aos 74 anos. A agência noticiosa Reuters anunciou sua morte lembrando que ela havia lutado contra ditadores e se tornara, com sua voz, uma gigante da música latino-americana contemporânea. Justo reconhecimento, que pode também ser estendido em virtude da postura e da presença. Foi-se a cantora, restou a lenda.

10.07.2020

Bônus de hoje: Uma gravação histórica de encontro ocorrido em 14 de março de 1987. Mercedes Sosa canta Volver a los 17, da chilena Violeta Parra, acompanhada por Chico Buarque de Hollanda, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gal Costa.

6 Comentários

  1. Gosto de muitas músicas da Mercedes e pra mim esta é uma das minhas preferidas: Volver a los 17. Adoro também a versão espetacular de “Solo le pido a Dios” em que ela canta com Beth Carvalho. Valeu amigo, belo resgate! Abraços…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s