Existe uma lenda de idade duvidosa – a maioria das fontes que encontrei apontam para o Século 18 –, que narra um improvável encontro entre a Verdade e a Mentira. Muito ardilosa, a Mentira começa uma conversa elogiando a beleza do dia. A Verdade olha para o azul do céu e tem que concordar. Realmente o dia estava radiante, a temperatura adequada, cores e odores primaveris. Sabe-se lá porque, elas seguem juntas por uma parte do caminho, apesar da diferença entre ambas ser de tal forma gritante que não pareceria haver motivos nem para isso, nem para qualquer diálogo. Próximo de uma fonte de água límpida, a Mentira molha os pés e relata estar deliciosa a água. Ainda desconfiada, a Verdade faz o mesmo e tem outra vez que concordar. A Mentira se despe e joga-se na água, convidando a outra a fazer o mesmo. Mais à vontade, a Verdade a segue e mergulha. É quando a Mentira, de surpresa, sai da água veste a roupa da Verdade e foge levando também a sua. Não resta outra saída para a Verdade além do que seguir despida seu caminho, constrangida. E o mundo moralista passa a preferir acreditar na Mentira vestida de Verdade, do que na Verdade nua. Pronto: expliquei porque tanta gente adora uma Fake News.

Se questionarmos as pessoas sobre qual sua preferência entre a verdade e a mentira, com certeza a primeira alternativa ganhará com enorme facilidade. É quase uma covardia e nem se precisa de instituto de pesquisa, avaliar margem de erro e coisas assim. Mas na prática nem sempre isso se confirma. Não há quem não deslize vez por outra e se saia com uma inverdade. É claro que se pode apoiar naquela máxima de que a verdade é relativa – e ela realmente é. Mas a negação da realidade só tem defesa se é feita por razões psicológicas ou de humanidade. O alcoolista que nega sua condição não por maldade, mas por defesa contra algo que não consegue enfrentar sem ajuda, seria um exemplo do primeiro caso. E a mentira piedosa, a ocultação temporária de algo que, se revelado naquele instante, causaria maior dor ou mal para outra pessoa, do segundo. O real estado de saúde de alguém, por exemplo. Tem que ser considerada ainda uma terceira situação: a fuga de verdades inconvenientes, que em alguns momentos acomete as pessoas. Mas a mentira que busca levar vantagem, que engana, que subtrai bens, liberdade e interfere na opinião e na consciência alheias, essa não é apenas um deslize moral como também configura ilegalidade.

Fake News é o nome dado para notícias falsas que são propositalmente publicadas como se fossem verdadeiras. Há um objetivo claro por trás dessa iniciativa, que é criminosa: legitimar um ponto de vista favorável aos interesses de quem a origina e dispara – a propagação depois, em tempos de redes sociais, é como fogo em vegetação seca em dia de vento. Ou seja, tirar vantagem da desinformação, que pode ser atribuindo qualidades e circunstâncias boas para si ou os seus; ou defeitos e circunstâncias ruins para adversários ou concorrentes. Uma das técnicas que asseguram a rápida disseminação é apelar para o emocional. As pessoas não têm tempo, interesse ou formação para questionar o que leem e repassam, potencializando o desastre por elas causado.

Apenas um entre tantos exemplos das consequências danosas – e muitas vezes irreversíveis – que isso pode causar aconteceu no Guarujá, cidade litorânea paulista. Uma mulher grávida de 33 anos de idade foi linchada por dezenas de moradores, após a divulgação de uma notícia falsa nas redes sociais afirmando que ela sequestrava crianças para rituais de magia negra. Não lhe deram qualquer chance de explicação ou defesa, com o espancamento cessando apenas bom tempo após a morte cruel. O fato se deu em 2018, mesmo ano em que houve linchamento moral de pessoas e instituições do nosso país, com objetivo eleitoral que também acabou sendo alcançado.

Uma série de sete reportagens feitas pelo jornal Correio Braziliense sobre esse tema, com o título Memórias de Mercenários, ganhou o VII Prêmio República, oferecido pelo Ministério Público Federal. Ela ajuda a desvendar a estrutura profissional que hoje existe para a produção das fake news, em especial para atingir objetivos políticos. Há uma enorme sofisticação no trabalho destes criminosos, que contam com assessoria especializada e recursos financeiros vultuosos, o que pode colocar em risco a democracia. Enfim, seja por desastres individuais ou coletivos, essa é uma prática vergonhosa que deve ser combatida com o rigor da lei. Mas também com a prudência das pessoas, que precisam observar com atenção quem está vestindo a roupa da Verdade, não se deixando enganar.

08.07.2020

14 Comentários

  1. Excelente texto, amigo. É preciso muita atenção neste momento delicado para toda a humanidade. Grande abraço!

  2. Excelente texto…profundo e revelador.
    Eu não conhecia está versão “historica” da verdade e da mentira.
    Gostei muito…!!!

  3. muito bom o texto, querido Solon!
    Apropriadíssimo para nosso presente e muito instrutivo para que tenhamos, quem sabe (oxalá!), um futuro mais sadio e em paz.
    Grande abraço!

  4. Uma pena que esta prática tem se disseminado, especialmente por causa da internet e das redes sociais, onde todos pensam que podem tudo. Lamentável!!!!!!!!!!!! Belo registro meu irmão! Grande abraço…

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