Uma parte da história de Alan Kardec e do próprio Espiritismo, do qual ele é o codificador, foi contada de uma maneira pouco usual por dois gaúchos. O roteirista e diretor de TV Carlos Ferreira e o ilustrador Rodrigo Rosa entregaram ao público uma edição primorosa deste relato, feita em quadrinhos. A publicação foi de uma editora do grupo paulista Leya, com a coordenação editorial da Barba Negra, lançada em outubro de 2011. Não sei se ainda existem exemplares disponíveis nas livrarias, mas quem não tem a sorte de possuir um perdeu a oportunidade de ter uma obra de arte.

Tudo é feito em preto e branco, mostrando ambientes quase sempre sombrios. Muitos dos quadrinhos sequer têm balões de diálogos, mas a reconstrução da época e das situações é perfeita. Nas 128 páginas de Kardec há o histórico dos primeiros contatos que ele manteve com o fenômeno das “mesas girantes”, sobre o qual lhe contara seu amigo Fortier, em 1854. Mas apenas um ano depois ele deu a devida atenção ao caso, quando conheceu também a psicografia, instrumento que lhe permitiu fazer perguntas e receber respostas dos espíritos, a partir das quais deu forma à doutrina, formatando cada um dos livros basilares.

É importante ressaltar que o trabalho feito por Carlos e Rodrigo não tem a pretensão de ser uma biografia completa e detalhada. Não teria como competir, por exemplo, com os três volumes escritos por Francisco Thiesen e Zêus Wantuil. Mas ele destaca justo o período embrionário, quando Rivail – nome real de Kardec – tem acesso ao conhecimento da realidade do mundo espiritual. O livro tem ainda um glossário e extras, esses formados por esboços dos desenhos e por trechos do roteiro de sua criação. O projeto gráfico é muito bom, com papel e impressão acompanhando toda essa qualidade.

Publicado em abril de 1857, o Livro dos Espíritos marca com sua chegada o nascimento da Doutrina Espírita. Foi o primeiro de cinco publicações distintas que formaram a base dos ensinamentos trazidos à luz pelo trabalho paciente de Kardec. Depois dele vieram O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868). Um sexto volume saiu após a sua morte e foi publicado pela Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 1890. Este está dividido em duas partes, contendo artigos que ele não tivera tempo ou oportunidade de publicar, além de transcrições de comunicações mediúnicas ocorridas em reuniões das quais ele tomou parte. E segue com a temática de ordem filosófica e moral, abordando também música, fotografia e telegrafia do pensamento, entre outros assuntos pertinentes.

Antes de adotar o pseudônimo que o consagrou, Hippolyte Léon Denizard Rivail, educador renomado e discípulo do mestre Pestalozzi, trabalhou muitos anos na instrução das classes mais populares. Lutou pelo direto da mulher à educação – o que não era algo assegurado na época – e por necessárias transformações na estrutura social vigente. Manteve, por exemplo, sociedade com o editor anarquista Maurice Lachâtre, para fundação de um pequeno banco que buscava disponibilizar linhas de crédito para pessoas de baixa renda. E trabalhou na ideia de um sistema que possibilitasse troca de serviços e mercadorias. Entendia que a educação era a única possibilidade real de desenvolvimento para as pessoas e se opunha a preconceitos de gênero e de classe social. Portanto, não foi por acaso a sua “escolha” para ser o canal da revelação de uma doutrina emancipatória. Ele próprio sempre transitou longe do conservadorismo e do autoritarismo. O que mostra que posturas e atitudes como estas deveriam ser buscadas por quem aspira ser real seguidor dos ensinamentos espíritas.

25.05.2020

6 Comentários

  1. Parabéns pela bela e esclarecedora crônica. Boa leitura para os dirigentes espiritas , que são o avesso do Cristo e de seu codificador .

    1. Iara, há diferença profunda entre a doutrina e o movimento. A primeira é vanguardista e esclarecedora. O restante depende dos homens e mulheres, da nossa situação humana com as limitações que ainda enfrentamos. Obrigado pelo elogio. Abraço!

  2. Sem dúvida, um belo exemplo a ser seguido. O pouco que li sobre Kardec, me trouxe ótimos ensinamentos! Homens como Kardec, fazem muita falta neste nosso planeta cada vez mais poluído (poluído, em todos os sentidos). Bom seria, se todos pudessem assimilar mensagens como estas, de Alan Kardec. Parabéns Solon, realmente é um espaço de crônicas, bem eclético. Para quem se interessou pelo livro, assim como eu, deixo um link onde dá pra adquiri-lo por um preço bem em interessante: https://www.estantevirtual.com.br/livros/carlos-ferreira-rodrigo-rosa/kardec/1908945301 – Abraços a todos!!!

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