“/À mesa, ao cortar o pão /O operário foi tomado /De uma súbita emoção /Ao constatar assombrado /Que tudo naquela mesa /Garrafa, prato, facão /Era ele quem fazia /Ele, um humilde operário /Um operário em construção. /Olhou em torno: a gamela /Banco, enxerga, caldeirão /Vidro, parede, janela /Casa, cidade, nação! /Tudo, tudo o que existia /Era ele quem os fazia /Ele, um humilde operário /Um operário que sabia /Exercer a profissão.” Este trecho de O Operário em Construção, de Vinícius de Moraes, mostra o instante em que um operário anônimo se dá conta da sua importância. Percebe que das mãos de quem é ninguém surge tudo o que faz a riqueza de todos e constrói o país.

A pandemia que forçou o distanciamento social e fechou temporariamente portas de fábricas e lojas, de certa forma, foi momento semelhante. Basta um tantinho assim de olhos para ver e ouvidos para ouvir e se percebe isso. Se a grande maioria dos patrões tivesse ficado em casa, praticamente em nada se alteraria a produção. Mas se estes patrões fossem para as empresas e os empregados não, nem mesmo o ridículo pibinho do Paulo Guedes se repetiria. Essa situação levou e leva a dois tipos de desespero. O dos menos favorecidos, pessoas que (sobre)vivem na economia informal e em subempregos, sem receita e saída, para ser enfrentado necessita de atenção social e da generosidade alheia. Mas a duras penas, essas pessoas se viram. Na outra ponta, o daqueles que se mantêm sozinhos com o que já amealharam na vida, sem sua mão-de-obra e para quem caridade alguma manteria seu padrão de vida, teve que ser enfrentado com pressão para a reabertura urgente de tudo. Para a volta “à normalidade”. Para que seu mundo de ilusão não seja afetado.

A classe patronal, pouco afeita a manifestações e sem knowhow para organizá-las, recorreu à alternativa fácil da carreata. Sem saírem de dentro de seus carros, boa parte deles importados – não se viram Fuscas nem Brasílias, amarelas ou não –, usando máscaras e com bandeiras brasileiras nas janelas, saíram buzinando pelas ruas ao redor do Parque Moinhos de Vento e gritando “queremos trabalhar”. Nada semelhante aconteceu nos bairros Restinga, Lomba do Pinheiro, Bom Jesus, Humaitá ou Mário Quintana, de onde deveriam vir, em transporte coletivo abarrotado, aqueles que precisariam bater ponto.

A lamentar é a quase certeza de que essa percepção de poder não ficará como herança pós-pandemia. Sem uma educação básica e preocupados com as questões essenciais e primeiras da simples subsistência, a imensa maioria dos trabalhadores voltará à alienação cotidiana. Nem terá percebido que colocou, por algum tempo, a cabeça para fora d’água e assim estava se deparando com uma outra realidade, que desconhecia. Seguindo com essa figura de linguagem, “o que um peixe sabe sobre a água na qual nada a vida inteira?”, perguntou Einstein certa vez, provocativo. O ser humano tem essa tendência de estar (ou ser) mergulhado de tal forma em circunstâncias da vida, em “realidades” reais ou criadas, que a proximidade faz com que as desconheça. A imagem colada no nariz, sem o distanciamento necessário para ser vista pelos olhos.

A alienação dos trabalhadores, ao que tudo indica, prosseguirá nos quatro níveis de sempre. No primeiro, do seu “poder de trabalho”: atuam como, quando e onde é exigido para a execução das tarefas para as quais estão contratados, cabendo apenas aceitar e não propor nada. No segundo, do “produto do seu trabalho”: o que fabricam é vendido visando a obtenção de um lucro do qual eles não participam, ficando apenas com a fração menor chamada salário. No terceiro, “uns dos outros”: são forçados a uma eterna competição por vagas no mercado de trabalho, numa insegurança que mantêm a aceitação do pagamento mínimo pela sua força de trabalho – competição semelhante acontece também entre fábricas distintas, entre regiões, entre países. No quarto, “do ser da espécie”: eles deixam de se reconhecer como indivíduos, perdem a satisfação da atividade, do convívio e uma vez que não existe mais o prazer, resta a obrigação. Trabalhar passa a ser o modo de sobreviver e apenas isso; sendo que o tempo que lhes resta, de família e lazer, deve ser visto como o momento de refazer forças para retornar à obrigação.

Em tempos de Covid-19 fica claro que a preocupação com a saúde do trabalhador se resume à mínima necessária para assegurar que ele volte. A atividade importa, a vida não. Se as perdidas forem de idosos, melhor ainda: não são mais produtivos e sim um peso para a sociedade. Se forem juntos alguns jovens, haverá gente de reserva, desempregada e sedenta por um lugar para chamar de seu nas frentes produtivas. Diante dessa dura realidade, sobram o sonho de uma mudança improvável e sempre futura. Restam o frescor da arte, da música e da natureza levemente menos poluída. E também resta reler Vinícius, por exemplo. Ele, com seu talento, foi sensível ao perceber e abordar isso, em seu primoroso poema, mesmo sem ter sido parte integrante da classe social que descreve.

17.05.2020

No link abaixo, a íntegra do poema de Vinícius de Morais, por Odete Lara

12 Comentários

  1. Muito bom, Solon.
    Imediatamente lembrei da música Construção, do Chico.
    Virei te visitar outras vezes.
    Abç

  2. Poema sempre atual. Trabalhava este poema nas aulas de Língua Portuguesa no EM, com o objetivo de além dos conteúdos de Língua/linguagem/literatura, trabalhar questões políticas e de classe.

  3. À provocativa indagação de Einstein – “o que um peixe sabe sobre a água na qual nada a vida inteira? – podemos acrescentar a afirmação rosiana que diz:

    “Quem menos sabe do sapato é a sola.”

    Um abraço!

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