A informação foi divulgada com exclusividade pelo jornalista Matheus Leitão, na revista Veja. Órgãos de inteligência estão investigando uma suspeita de ataque golpista durante as comemorações do próximo Sete de Setembro. E não se trata de blefe com tanques velhos despejando fumaça. Seria um atentado violento planejado pela extrema-direita, contra apoiadores de Bolsonaro, com a intenção de culpar a esquerda e gerar um factoide político que no mínimo reverteria em votos. Ao melhor estilo facada conveniente. Ou ainda, num resultado melhor, imediato e resolutivo, daria o pretexto necessário para a tão desejada – por eles, evidentemente – intervenção militar.

Os radicais avaliam com seriedade fazer vítimas entre apoiadores anônimos, integrantes do seu próprio campo ideológico, que virariam os mártires necessários para o fortalecimento das ideias fascistas. O que não tem nada de inédito. Refrescando algumas memórias, durante a ditadura militar dois oficiais do Exército trancaram por fora as portas do Rio Centro, local onde ocorria show de artistas ligados à oposição, e planejavam jogar uma bomba para causar pânico, correria e mortes. A alegação que fora previamente preparada seria se tratar de ação da “esquerda terrorista”. Apenas por acidente isso não se tornou uma tragédia: a bomba explodiu no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário, que morreu na hora. Ele estava sentado no banco do carona em um Puma, com o artefato no colo.

O motorista do carro que conduziu ambos ao estacionamento, onde aguardavam o momento certo para agir, era o capitão Wilson Luís Chaves Machado, que ficou gravemente ferido. Os dois eram membros do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, o temido DOI-CODI, agindo sob ordem de superiores seus. Esse era o setor encarregado também da tortura e morte de opositores do regime militar. Depois, ao melhor estilo Power Point, que em tempos mais recentes foi usado por Deltan Dallagnol, militares tentaram provar que os terroristas de farda tinham sido vítimas. Machado se recuperou e nunca falou sobre o fato. Seguiu carreira com inúmeras promoções.

Segundo informa Matheus Leão na sua coluna, a suspeita sobre o atentado estar sendo planejado foi confirmada por dois oficiais que trabalham nesses órgãos de inteligência, ambos com longo tempo de serviço prestado ao país, mas sem nenhum viés ideológico. Esse plano tresloucado repetiria em Brasília aquele do Rio de Janeiro, em 1981, tentando resgatar a ideia inverossímil de “salvar o país do comunismo”. As apurações feitas não apontam envolvimento de setores do Exército no atual planejamento, ao contrário do que ocorreu 41 anos atrás, quando esse agia como um órgão terrorista. Isso torna provável que militares sejam também alvo que interesse muito aos extremistas. Sendo eles atingidos junto com parcela do povo aglomerado, isso causaria a revolta perfeita. E potencializaria a possibilidade posterior de adesão das Forças Armadas.

Chama atenção também, se fizermos uma associação de ideias, que Jair Bolsonaro declarou dias atrás que não mais pediria ao povo que fosse para as ruas, depois das comemorações de Sete de Setembro. Traçava ele aquela como sendo a data limite ao seu pedido de apoio, como se dali em diante isso não fosse mais necessário ou se tornasse secundário. Coincidência ou esse ato estaria sendo gestado também dentro do Gabinete do Ódio? Lá dentro é sabido que algo suficientemente forte e urgente precisa ser feito, ou se esvai de vez a esperança da reeleição do atual presidente. O que importa se morrerem alguns inocentes?

Não houve essa preocupação com os quase 700 mil brasileiros que perderam a vida devido à inanição presidencial frente à pandemia. Ninguém por lá chora morte de indígenas, de jovens negros eliminados por policiais militares cooptadao e do aumento dos feminicídios como uma das consequências do estímulo ao armamento da população. E nem mesmo as mortes simbólicas e indiretas, como aquelas causadas pelo desmatamento e queimadas; pelo desmonte da educação e a tentativa de privatizar o SUS; sensibilizam essa gente.

Desse modo, não pode causar espanto um plano como esse que agora está sendo denunciado. Na verdade, seria tornar literal a expressão “boi de piranha”. Sacrifica-se alguns bovinos, propositalmente jogados na correnteza rio acima, para que a parte que interessa do rebanho passe incólume, rio abaixo.

05.08.2022

O corpo do sargento Guilherme Pereira do Rosário no Puma destruído pela bomba que ele levava no colo

O bônus musical de hoje é Bella Ciao, uma canção italiana vista como um hino da resistência e luta contra o fascismo, desde a época em que esse mal assolou aquele país. No clipe a vemos apresentada pelo coro Viva la Vida, em trecho de espetáculo de outubro de 2017. A direção artística foi de Cathy Laude-Bousquet.

Depois temos uma adaptação desta mesma canção, que é conhecida e usada mundialmente, em manifestações ocorridas no Brasil. Neste segundo clipe as vozes são de Deisi Coccaro e Geisa Abreu. Fernando Mattos toca teorba, que é um instrumento de cordas criado na Itália no final do Século XVI. O nome dele na verdade refere a uma variedade de outros instrumentos similares ao alaúde, de braço longo.

 

4 Comentários

  1. Republicou isso em Iso Sendacz – Brasile comentado:
    As denúncias de Matheus Leitão na Veja, repercutidas aqui por Solon Saldanha, de pronto trouxeram à memória o fracassado atentado ao Rio Centro, em 1981, quando a bomba explodiu no colo do terrorista. Episódio bem resgatado na crônica abaixo. Como bônus, o hino antifascista Bella Ciao.

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