A LAVAGEM CEREBRAL ALGORÍTMICA

Nós somos cobaias, sim. Mas não de Deus, como no título e na letra de uma canção de Cazuza. Estamos servindo para ensaio e colocação em prática de um experimento perverso, que infelizmente já comprovou aos seus idealizadores que funciona a contento. A bem da verdade isso não está acontecendo apenas em nosso país, mas aqui ele conseguiu, por uma série de fatores, atingir requintes de crueldade e enorme sucesso. Talvez mesmo o seu ápice, até agora. Com ele o Brasil foi dividido por uma dose crescente de ódio, que surgiu de modo artificial e que criou corpo a ponto de agora parecer irreversível.

O principal instrumento utilizado para que esse objetivo fosse atingido foram os algoritmos. E o que são eles? Numa conceituação que parte da matemática e da ciência da computação, trata-se de uma sequência de ações executáveis que buscam solucionar problemas. Mas que podem também causar muitos outros. Me deixem explicar: eles realizam de modo automático uma série de procedimentos com absoluta precisão, sendo padronizados, eficientíssimos e jamais ambíguos. Desencadeados por programações de computador, acumulam milhares de dados a cada segundo e conseguem determinar quais comportamentos viriam a seguir. São eles os responsáveis, por exemplo, pelo disparo de anúncios que são dirigidos especialmente para cada pessoa, baseados no seu gosto pessoal ou nas pesquisas que faz na internet. Os algoritmos confirmam o que você deseja, seus comportamentos, suas aspirações, passando a repetir isso. O que reforça todas essas tendências, com retroalimentação.

Você vê um anúncio de um par de tênis, por exemplo. Eles determinam de imediato que tempo você deu atenção a ele, se procurou pelo preço, pela cor, pelo modelo. E você passa a receber ofertas que atendem essa busca anterior. Num site, revista ou jornal eletrônico, eles registram o que você costuma ler e, depois disso, são capazes de fazer capas que são personalizadas, trazendo como chamadas principais aquilo que você quer encontrar em termos de conteúdo. Ou seja, uma mesma revista, se for pesquisada no mesmo momento por pessoas diferentes, em celulares ou computadores distintos, terá destaques que não serão iguais. Sendo impressas, jamais conseguiriam ter diversas capas, mas eletronicamente elas praticamente não têm limite, podendo em tese ser uma distinta para cada leitor em potencial. Com isso, a chance de ser ela lida por muitos dos previamente interessados cresce exponencialmente.

Há suspeitas inclusive de captação não autorizada de som nos celulares, que também poderiam depois realizar a mesma “condução coercitiva” para conteúdos direcionados. Os televisores mais novos disponíveis no mercado perguntam a você, no momento em que pela primeira vez são ligados, se podem fazer uso de “dados de audiência para pesquisa e aprimoramento da programação”. Querem isso, também, de forma automática e sem ter que pagar pelo serviço de institutos de pesquisa. Ficam sabendo o momento em que o aparelho foi ligado e quanto tempo permaneceu em cada canal. Mas, muito mais importante é conseguirem fornecer publicidade mais efetiva, o que aumenta a receita das empresas. Na internet o resultado da ação dos algoritmos consegue ser tão preciso que se torna possível, por exemplo, fornecer o mesmo produto por preços diferentes, considerando o potencial financeiro do comprador.

Esse recurso, como coloquei acima, nasceu com propósitos ligados à publicidade e à comunicação. Mas foi, logo depois, apropriado por outros interesses bem diversos, entre os quais mais fortemente os políticos. Quem primeiro se deu conta do enorme potencial que isso trazia foram grupos de extrema-direita. E testes começaram a ser desencadeados no mundo todo, para confirmação da sua força. Ficou ainda muito mais fácil aplicar essa técnica com o crescimento das mídias sociais. Então eventos como a Primavera Árabe, em vários países; o Brexit, no Reino Unido; e a eleição de Donald Trump, nos EUA, foram alguns nos quais fizeram uso em larga escala de um “convencimento eleitoral”. Aqui no Brasil a primeira experiência se deu com os movimentos de 2013, quando do surgimento de manifestações de rua que pareciam ter nascido de geração espontânea. Na verdade, não foram: elas tinham pais que estavam por perto, mas nas sombras. E depois o mesmo método foi aplicado com sucesso na eleição de Bolsonaro, em 2018.

Os algoritmos se tornaram o relógio do hipnotizador. E os produtos que são ofertados podem ser intangíveis: vender ideias, comportamentos e mesmo pessoas, ao invés de eletrodomésticos, roupas e calçados. Isso é feito com a repetição constante de narrativas, ao mesmo tempo em que as que são contrárias são bloqueadas. É o que acontece hoje no Brasil, em especial entre os votantes de Bolsonaro, mas não apenas entre eles. Todos e quaisquer conteúdos, sem exceção, que chegam até essas pessoas, sejam reais ou potenciais, verdades ou fake news, são elogiosos em relação ao “mito” e destacam as supostas realizações do seu governo; ou então criticam duramente Lula e toda pessoa, organização ou pensamento que esteja no campo contrário. Mais levemente, porque começaram depois a ter contato com esse recurso, também acontece entre as esquerdas: elogios para seus candidatos, críticas para os opositores. Então, ambos os grupos passam a viver em realidades paralelas, dissociadas do que de fato está acontecendo no país e com consequências para suas próprias vidas.

Em função disso, estamos vivenciando hoje a existência de dois lados irreconciliáveis. Não se trata de polarização, como alguns acreditam e defendem, porque para tanto teriam que existir dois lados simetricamente opostos e não é isso que ocorre na prática. Apesar de que, para dar certo o projeto, também essa ideia precisou e precisa ser incutida. Para que se estabeleça a personificação da luta do bem contra o mal, do nós contra eles. Assim, apesar de Lula jamais ter sido comunista, se fez necessário afirmar o contrário à exaustão. Até que a narrativa virasse fato incontestável entre os que recebem apenas ela. E de tal forma que nenhum direitista para e pensa em algo muito simples: com o PT tendo estado 14 anos no poder, porque então não foi antes adotado o comunismo em nosso país? A luta real se dá entre uma extrema-direita e um centro-esquerda, não entre extremos, portanto. Mas inegavelmente ela ocorre no imaginário, com cada lado não conseguindo e nem desejando ver o que existe no outro.

Mais do que uma bolha, um espaço fechado, ainda existe a seleção interna de conteúdos. Isso é feito da mesma maneira que fazem com anúncios. Deste modo, o grupo de evangélicos recebe conteúdos associando seu candidato com a pauta de costumes; ao pessoal do agronegócio mandam temas econômicos; quem está ligado à segurança também tem assuntos específicos, e assim por diante. E não são duas ou três: na maior parte das vezes são dezenas de mensagens em um único dia, tendo elas um desencadeamento lógico proposital. Exaltam o que consideram importante e, logo depois, postam algo do adversário que o associe a um posicionamento oposto. Por exemplo, a posição religiosa contra o aborto seguida de uma informação, verdadeira ou não, que mostra seus opositores defendendo abertamente a prática.

Agora eu vou fingir que sou intelectual, citando o pensador e filósofo austríaco naturalizado britânico, Ludwig Wittgenstein (1889-1951). Partindo de uma concepção realista do mundo, ele chega a uma posição idealista devido à priorização do pensamento aos fatos, do sujeito ao objeto. O que se pensa sobre algo ou alguém se torna mais importante do que este algo e esse alguém. O fato em si é sempre menor do que a narrativa. Acrescento que essa narrativa pode e até deve ter como base um pensamento criado não do esforço argumentativo, mas da aceitação da verdade posta. Ele chega completo, embrulhado para presente, nada importando se está correto. A precisão afirmada não precisa e nem deve ser comprovada. Ela se basta. Isso está consubstanciado, por exemplo, na afirmação de Deltan Dallagnol, no famoso momento do PowerPoint de acusação contra Lula: “não tenho provas, mas tenho convicção”. Isso poderia ser considerado um marco da pós-verdade.

A situação fica tão absurda que as pessoas passam a não acreditar que seja verdadeira nem uma imagem, nem a palavra da própria pessoa, se desmentindo. Se Bolsonaro matar uma criança em frente às câmeras de televisão, com transmissão ao vivo para todo o país, seus seguidores negarão o fato. Vão dizer que é montagem. Se ele então tomar a palavra e confessar a autoria do ato, dirão que foi necessária a morte e que ela não configura nenhum crime. Que aquele era uma espécie “Bebê de Rosemary”. Quem não entende essa referência, dê uma busca no Google, mas eu posso antecipar dizendo que seria algo como um filho legítimo do “Cramulhão”, da recente telenovela Pantanal. Ou seja, que ele agiu para salvar a pátria de um mal maior.

Repetindo: WhatsApp, Telegram, Twitter, Instagram, FaceBook e Youtube, todos têm capacidade de relativizar os fatos. Passou a ser mais importante o que é contado, não o que seja verdadeiro. Deste modo, os números se apequenaram – menos os das audiências, que aumentam e muito o tempo todo –, as realizações perderam importância, a forma de pensar e de agir não tem o mesmo valor. Não há mais comparação entre propostas e entre feitos reais. Foi o que se viu durante a disputa eleitoral e provavelmente se continuará vendo nos próximos anos. A contenda se dá ao nível de relatos, fantasiosos ou não. E na sua recorrência. Repetir, repetir e repetir o que se quer seja visto como uma verdade. Agora nos tornamos ratos de Skinner (*), também cobaias.

Um trecho da música que citei na abertura deste texto: “Se você quer saber como eu me sinto/ Vá a um laboratório ou um labirinto/ Seja atropelado por esse trem da morte/ Vá ver as cobaias de Deus/ Andando na rua pedindo perdão/ Vá a uma igreja qualquer/ Pois lá se desfazem em sermão/ Me sinto uma cobaia, um rato enorme”. Estamos sendo todos nós imensos ratos. Mas está na hora de sairmos da gaiola, de fugirmos dos experimentos e retomarmos nossas vidas. Mas, como nos afastarmos do poder invisível dos algoritmos, que parecem ter vindo para ficar no meio de nós?

10.11.2022

(*) Burrhus Frederic Skinner foi um psicólogo behaviorista, filósofo e professor em Harvard entre os anos de 1958 e 1974. Ele considerava que o livre arbítrio é uma ilusão e que toda ação humana depende das consequências advindas de ações anteriores. 

Como bônus temos hoje Titãs, com a música É Preciso Saber Viver.

UMA DENÚNCIA MUITO GRAVE

A informação foi divulgada com exclusividade pelo jornalista Matheus Leitão, na revista Veja. Órgãos de inteligência estão investigando uma suspeita de ataque golpista durante as comemorações do próximo Sete de Setembro. E não se trata de blefe com tanques velhos despejando fumaça. Seria um atentado violento planejado pela extrema-direita, contra apoiadores de Bolsonaro, com a intenção de culpar a esquerda e gerar um factoide político que no mínimo reverteria em votos. Ao melhor estilo facada conveniente. Ou ainda, num resultado melhor, imediato e resolutivo, daria o pretexto necessário para a tão desejada – por eles, evidentemente – intervenção militar.

Os radicais avaliam com seriedade fazer vítimas entre apoiadores anônimos, integrantes do seu próprio campo ideológico, que virariam os mártires necessários para o fortalecimento das ideias fascistas. O que não tem nada de inédito. Refrescando algumas memórias, durante a ditadura militar dois oficiais do Exército trancaram por fora as portas do Rio Centro, local onde ocorria show de artistas ligados à oposição, e planejavam jogar uma bomba para causar pânico, correria e mortes. A alegação que fora previamente preparada seria se tratar de ação da “esquerda terrorista”. Apenas por acidente isso não se tornou uma tragédia: a bomba explodiu no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário, que morreu na hora. Ele estava sentado no banco do carona em um Puma, com o artefato no colo.

O motorista do carro que conduziu ambos ao estacionamento, onde aguardavam o momento certo para agir, era o capitão Wilson Luís Chaves Machado, que ficou gravemente ferido. Os dois eram membros do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, o temido DOI-CODI, agindo sob ordem de superiores seus. Esse era o setor encarregado também da tortura e morte de opositores do regime militar. Depois, ao melhor estilo Power Point, que em tempos mais recentes foi usado por Deltan Dallagnol, militares tentaram provar que os terroristas de farda tinham sido vítimas. Machado se recuperou e nunca falou sobre o fato. Seguiu carreira com inúmeras promoções.

Segundo informa Matheus Leão na sua coluna, a suspeita sobre o atentado estar sendo planejado foi confirmada por dois oficiais que trabalham nesses órgãos de inteligência, ambos com longo tempo de serviço prestado ao país, mas sem nenhum viés ideológico. Esse plano tresloucado repetiria em Brasília aquele do Rio de Janeiro, em 1981, tentando resgatar a ideia inverossímil de “salvar o país do comunismo”. As apurações feitas não apontam envolvimento de setores do Exército no atual planejamento, ao contrário do que ocorreu 41 anos atrás, quando esse agia como um órgão terrorista. Isso torna provável que militares sejam também alvo que interesse muito aos extremistas. Sendo eles atingidos junto com parcela do povo aglomerado, isso causaria a revolta perfeita. E potencializaria a possibilidade posterior de adesão das Forças Armadas.

Chama atenção também, se fizermos uma associação de ideias, que Jair Bolsonaro declarou dias atrás que não mais pediria ao povo que fosse para as ruas, depois das comemorações de Sete de Setembro. Traçava ele aquela como sendo a data limite ao seu pedido de apoio, como se dali em diante isso não fosse mais necessário ou se tornasse secundário. Coincidência ou esse ato estaria sendo gestado também dentro do Gabinete do Ódio? Lá dentro é sabido que algo suficientemente forte e urgente precisa ser feito, ou se esvai de vez a esperança da reeleição do atual presidente. O que importa se morrerem alguns inocentes?

Não houve essa preocupação com os quase 700 mil brasileiros que perderam a vida devido à inanição presidencial frente à pandemia. Ninguém por lá chora morte de indígenas, de jovens negros eliminados por policiais militares cooptadao e do aumento dos feminicídios como uma das consequências do estímulo ao armamento da população. E nem mesmo as mortes simbólicas e indiretas, como aquelas causadas pelo desmatamento e queimadas; pelo desmonte da educação e a tentativa de privatizar o SUS; sensibilizam essa gente.

Desse modo, não pode causar espanto um plano como esse que agora está sendo denunciado. Na verdade, seria tornar literal a expressão “boi de piranha”. Sacrifica-se alguns bovinos, propositalmente jogados na correnteza rio acima, para que a parte que interessa do rebanho passe incólume, rio abaixo.

05.08.2022

O corpo do sargento Guilherme Pereira do Rosário no Puma destruído pela bomba que ele levava no colo

O bônus musical de hoje é Bella Ciao, uma canção italiana vista como um hino da resistência e luta contra o fascismo, desde a época em que esse mal assolou aquele país. No clipe a vemos apresentada pelo coro Viva la Vida, em trecho de espetáculo de outubro de 2017. A direção artística foi de Cathy Laude-Bousquet.

Depois temos uma adaptação desta mesma canção, que é conhecida e usada mundialmente, em manifestações ocorridas no Brasil. Neste segundo clipe as vozes são de Deisi Coccaro e Geisa Abreu. Fernando Mattos toca teorba, que é um instrumento de cordas criado na Itália no final do Século XVI. O nome dele na verdade refere a uma variedade de outros instrumentos similares ao alaúde, de braço longo.