O TEMPO NEM SEMPRE FAZ BEM

Envelhecer não é fácil, podem acreditar. Eu que o diga. Se não todos os dias, asseguro que vez por outra essa percepção me atinge e afeta. Em geral são implacáveis coisas como os espelhos e as lembranças, essas quando estão recheadas de saudade. Você se dá conta do que não está mais conseguindo fazer, de que nem todo mundo que você ama continua do seu lado, de que seus anos futuros com certeza serão muito menores em número do que aqueles que já passaram. E isso tudo dói. Com a dor maior sendo produto da nossa absoluta impotência diante da passagem do tempo.

Agora, existem pessoas que conseguem envelhecer muito melhor do que outras. Há algumas até que, quando atingem idades mais avançadas, se tornam versões melhores de si mesmas. Entretanto, como tudo na vida, também temos aquelas que quando envelhecem você tem a impressão que são outras, no sentido de que desdizem tudo aquilo que sempre disseram, negam tudo aquilo em que sempre acreditaram. São esses dois tipos os lados opostos de uma moeda, completamente antagônicos. E temos a terceira via – algo que nas eleições não tivemos –, que são aquelas do meio termo, sendo o que sempre foram. Isso, dependendo do ponto de vista do qual se observa, pode ser ótimo ou péssimo. Acho que estou nesse último grupo, mesmo mantendo uma leve esperança de ainda ter como integrar o primeiro.

Há quem diga que envelhecer é uma arte. Nunca soube tocar nenhum instrumento; não pinto nem parede, muito menos quadros – se bem que nunca tentei –; só interpreto bem o papel de Solon, uma vez que faço isso há décadas; dançando sou um desastre absoluto; e tenho tentado escrever, até agora sem sucesso que garanta subsistência. Deste modo, música, pintura, teatro e dança estou fora; literatura, talvez ainda ocorra um milagre. Mas esse tal de envelhecimento, não há escola de arte que nos ensine. Tenho me apegado apenas à ideia de que a criatividade independe da idade cronológica; que, contrariando todas as evidências anteriores, o cérebro, uma vez mantido ativo, pode seguir caminho oposto ao restante do corpo, não decaindo como se vai o restante da nossa estrutura física.

José Saramago despontou como escritor apenas aos 60 anos, quando lançou Memorial do Convento, em 1982. Passados 16 anos, em 1998, ganhou o Nobel de Literatura. Charles Darwin foi um tanto mais precoce, uma vez que seu A Origem das Espécies veio em 1859, aos 50 anos. Clarice Lispector escrevia desde quando tinha 23, mas sua obra mais famosa chegou aos 56: A Hora da Estrela, publicada em 1977. Victor Hugo foi outro, que publicava desde os 29 anos, mas Os Miseráveis, a sua obra prima, foi levada ao público quando ele tinha 60. J.R.R. Tolkien modernizou a literatura de fantasia ao lançar a trilogia O Senhor dos Anéis, entre 1954 e 1955, quando tinha 62 anos.

Leonardo Da Vinci concluiu a Mona Lisa com 54 anos e Michelangelo terminou O Juízo Final aos 66. A obra Ponte Sobre Uma Lagoa de Lírios de Água foi feita por Monet, com 59 anos de idade, enquanto Pablo Picasso nos premiou com Guernica, aos 56. Cito aqui apenas quatro grandes mestres e suas obras-primas. Existem centenas de outros exemplos. Aos 80 anos Jessica Tandy ganhou o Oscar de Melhor Atriz por seu papel em Driving Miss Daisy, enquanto entre os homens Christopher Plummer tinha 82 quando foi agraciado com a premiação do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, por Beginners. No Brasil, Fernanda Montenegro parece representar com ainda maior perfeição, conforme o tempo passa.

Cássia Kiss, em 1989, foi a primeira mulher a aparecer com seios à mostra na história da televisão brasileira, ao estrelar uma campanha surpreendente e de absoluto sucesso, sobre a prevenção ao câncer de mama. Ela ensinava a fazer o autoexame, mostrando ao vivo como deveria ser feito. Em 1997 admitiu, juntamente com outras famosas e algumas anônimas, em capa da revista Veja, que já havia feito aborto. Ao longo da vida foi hippie, fumou maconha e construiu uma carreira sólida como uma das melhores atrizes brasileiras. Seria normal o abandono desses dois primeiros hábitos, mas ela foi muito além disso. Durante anos se disse espírita – o que não a absolveria de nada – e agora, mais recentemente, aderiu a um catolicismo radical, virando ainda uma defensora ferrenha da extrema-direita. A ponto de fazer discursos homofóbicos e ir se ajoelhar no meio da rua, para rezar ao lado de manifestantes anti-democráticos, pedindo a volta da ditadura, entre outras barbaridades.

Há pessoas que de fato envelhecem como um bom vinho, melhorando. Outras têm como destino virar vinagre. Aliás, esse produto, quando feito a partir do vinho, resulta de se acrescentar um agente microbiano que faz com que sofra um processo de oxidação. Agora me caiu a ficha: talvez a introdução de determinadas ideias faça com que cérebros despreparados também se oxidem. Arte e convívio com pessoas inteligentes podem ser os antídotos necessários.

06.11.2022

O bônus musical duplo de hoje tem primeiro Envelhecer, com Arnaldo Antunes; depois trazendo Paciência, de Lenine.

UMA DENÚNCIA MUITO GRAVE

A informação foi divulgada com exclusividade pelo jornalista Matheus Leitão, na revista Veja. Órgãos de inteligência estão investigando uma suspeita de ataque golpista durante as comemorações do próximo Sete de Setembro. E não se trata de blefe com tanques velhos despejando fumaça. Seria um atentado violento planejado pela extrema-direita, contra apoiadores de Bolsonaro, com a intenção de culpar a esquerda e gerar um factoide político que no mínimo reverteria em votos. Ao melhor estilo facada conveniente. Ou ainda, num resultado melhor, imediato e resolutivo, daria o pretexto necessário para a tão desejada – por eles, evidentemente – intervenção militar.

Os radicais avaliam com seriedade fazer vítimas entre apoiadores anônimos, integrantes do seu próprio campo ideológico, que virariam os mártires necessários para o fortalecimento das ideias fascistas. O que não tem nada de inédito. Refrescando algumas memórias, durante a ditadura militar dois oficiais do Exército trancaram por fora as portas do Rio Centro, local onde ocorria show de artistas ligados à oposição, e planejavam jogar uma bomba para causar pânico, correria e mortes. A alegação que fora previamente preparada seria se tratar de ação da “esquerda terrorista”. Apenas por acidente isso não se tornou uma tragédia: a bomba explodiu no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário, que morreu na hora. Ele estava sentado no banco do carona em um Puma, com o artefato no colo.

O motorista do carro que conduziu ambos ao estacionamento, onde aguardavam o momento certo para agir, era o capitão Wilson Luís Chaves Machado, que ficou gravemente ferido. Os dois eram membros do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, o temido DOI-CODI, agindo sob ordem de superiores seus. Esse era o setor encarregado também da tortura e morte de opositores do regime militar. Depois, ao melhor estilo Power Point, que em tempos mais recentes foi usado por Deltan Dallagnol, militares tentaram provar que os terroristas de farda tinham sido vítimas. Machado se recuperou e nunca falou sobre o fato. Seguiu carreira com inúmeras promoções.

Segundo informa Matheus Leão na sua coluna, a suspeita sobre o atentado estar sendo planejado foi confirmada por dois oficiais que trabalham nesses órgãos de inteligência, ambos com longo tempo de serviço prestado ao país, mas sem nenhum viés ideológico. Esse plano tresloucado repetiria em Brasília aquele do Rio de Janeiro, em 1981, tentando resgatar a ideia inverossímil de “salvar o país do comunismo”. As apurações feitas não apontam envolvimento de setores do Exército no atual planejamento, ao contrário do que ocorreu 41 anos atrás, quando esse agia como um órgão terrorista. Isso torna provável que militares sejam também alvo que interesse muito aos extremistas. Sendo eles atingidos junto com parcela do povo aglomerado, isso causaria a revolta perfeita. E potencializaria a possibilidade posterior de adesão das Forças Armadas.

Chama atenção também, se fizermos uma associação de ideias, que Jair Bolsonaro declarou dias atrás que não mais pediria ao povo que fosse para as ruas, depois das comemorações de Sete de Setembro. Traçava ele aquela como sendo a data limite ao seu pedido de apoio, como se dali em diante isso não fosse mais necessário ou se tornasse secundário. Coincidência ou esse ato estaria sendo gestado também dentro do Gabinete do Ódio? Lá dentro é sabido que algo suficientemente forte e urgente precisa ser feito, ou se esvai de vez a esperança da reeleição do atual presidente. O que importa se morrerem alguns inocentes?

Não houve essa preocupação com os quase 700 mil brasileiros que perderam a vida devido à inanição presidencial frente à pandemia. Ninguém por lá chora morte de indígenas, de jovens negros eliminados por policiais militares cooptadao e do aumento dos feminicídios como uma das consequências do estímulo ao armamento da população. E nem mesmo as mortes simbólicas e indiretas, como aquelas causadas pelo desmatamento e queimadas; pelo desmonte da educação e a tentativa de privatizar o SUS; sensibilizam essa gente.

Desse modo, não pode causar espanto um plano como esse que agora está sendo denunciado. Na verdade, seria tornar literal a expressão “boi de piranha”. Sacrifica-se alguns bovinos, propositalmente jogados na correnteza rio acima, para que a parte que interessa do rebanho passe incólume, rio abaixo.

05.08.2022

O corpo do sargento Guilherme Pereira do Rosário no Puma destruído pela bomba que ele levava no colo

O bônus musical de hoje é Bella Ciao, uma canção italiana vista como um hino da resistência e luta contra o fascismo, desde a época em que esse mal assolou aquele país. No clipe a vemos apresentada pelo coro Viva la Vida, em trecho de espetáculo de outubro de 2017. A direção artística foi de Cathy Laude-Bousquet.

Depois temos uma adaptação desta mesma canção, que é conhecida e usada mundialmente, em manifestações ocorridas no Brasil. Neste segundo clipe as vozes são de Deisi Coccaro e Geisa Abreu. Fernando Mattos toca teorba, que é um instrumento de cordas criado na Itália no final do Século XVI. O nome dele na verdade refere a uma variedade de outros instrumentos similares ao alaúde, de braço longo.