É difícil ouvir essa música sem se emocionar. Composta em 1801, quando seu autor estava com 31 anos, ela foi uma das composições mais populares da sua época. Ele havia terminado alguns trabalhos para os quais fora contratado, quando teve essa inspiração. Para nossa sorte. Falo da Sonata para Piano nº 14 em Dó sustenido menor, Op. 27 nº 2, de Ludwig van Beethoven. Ele a denominou de Quasi una Fantasia, tendo logo depois a dedicado para uma de suas pupilas, a Condessa Giulietta Guicciardi. Por causa disso, por muito tempo os historiadores pensaram ter sido ela a misteriosa “Amada Imortal” – mulher desconhecida a quem teria endereçado uma carta de amor. Mas o nome que imortalizou a música foi outro, dado cinco anos após a morte do autor, pelo crítico musical e poeta alemão Ludwig Rellstab. Em texto de 1832 ele a comparou com um luar sendo refletido no Lago Lucerna, tal seu brilho e suavidade. Foi assim que Mondscheinsonate (Sonata ao Luar) se tornou ainda mais admirada.

Um ano depois de compor Sonata, Beethoven produziu o chamado Testamento de Heiligenstadt, um documento no qual se dirigia ao irmão revelando o devastador impacto que a surdez crescente estava trazendo para sua vida. Ela foi decorrente de quatro anos nos quais ele enfrentou calado a doença conhecida como tinnitus, que produz um zumbido nos ouvidos, de forma intermitente e cada vez mais intenso. Isso impedia, por exemplo, que ele discernisse as notas mais agudas. Ao sofrimento físico somava-se o psicológico, pois ele tinha certeza de que isso iria encerrar sua carreira brilhante, de principal pianista de Viena. Talvez por essa razão seja identificado por muitas pessoas um tom introspectivo e quase fúnebre nessa música, uma vez que seu estado de espírito estava sem dúvida alguma alterado. Eu prefiro admitir a introspecção, mas mantenho a mesma ideia de Rellstab, que identificou nela também um tom de extrema sensibilidade. Pouco importa se a beleza for triste: nos toca do mesmo modo.

São três os movimentos da Sonata ao Luar. Naquela época era comum que eles tivessem uma sequência rápido-lento-rápido. Mas ele tratou de surpreender abrindo de forma muito lenta, quase hipnótica. Essa é a parte mais conhecida de toda a obra e hoje em dia é tocada muitas vezes sem as demais, como sendo única e tendo vida própria. Outra decisão surpreendente dele foi colocar, no início da partitura, uma indicação de “senza surdina”. Ou seja, sem o pedal direito. Pretendia que todo o movimento fosse conduzido com ele abaixado. Isso é impossível de ser feito com os pianos modernos, o que cria dissonâncias que não eram desejadas por ele. Assim, isso serve apenas como parâmetro para o modo de interpretação. O segundo movimento altera tudo, utilizando mudanças rítmicas que a tornam alegre e muito mais leve. E o terceiro, o mais extenso de todos, adquire tom dramático.

Moonlight Sonata, assim mesmo, em inglês, foi incluída inúmeras vezes em trilhas de filmes produzidos nos EUA e na Europa, ao longo dos anos. Isso ajudou a torná-la mais popular, uma vez que assim foi levada ao conhecimento de outro público. Podem ser citados como exemplos Rosa de Luxemburgo (1986), de Margarethe von Trotta; Sid & Nancy (1986), de Alex Cox – esse sobre a vida de Sid Vicious, do The Sex Pistols; Entrevista com o Vampiro (1994), de Neil Jordan; e O Pianista (2002), de Roman Polanski; entre vários outros.

Ludwig van Beethoven (1770-1827) foi um compositor e pianista alemão, sendo reconhecido com um dos pilares da transição entre o classicismo e o romantismo. Ele era notável tanto na linguagem quanto no conteúdo de suas produções musicais. Não por acaso se tornou um dos mais respeitados e influentes na história da música ocidental. Sabe-se que ele nunca teve estudos mais aprofundados, apesar de ter começado a tocar cravo com apenas oito anos de idade, quando foi confiado ao melhor mestre desse instrumento na sua cidade: Christian Gottlob (1748-1798). Ao longo da vida produziu nove sinfonias, pelo menos sete concertos, dezenas de sonatas, algumas missas, aberturas e óperas. Nos deixou aos 56 anos. Pelo menos dois filmes são recomendados para quem deseje conhecer mais detalhes de sua história: Minha Amada Imortal (1994), estrelado por Gary Oldman; e O Segredo de Beethoven (2007), estrelado por Ed Harris. Ambos são relatos da vida do compositor.

20.02.2022

Capa da partitura original de Sonata ao Luar

O bônus musical óbvio de hoje é Sonata ao Luar. Os instrumentistas são a pianista Lola Astanova, do Uzbequistão – ela é conhecida também como uma grande intérprete de composições de Chopin, Rachmaninoff e Liszt, além das transições e performances visuais – e Stjepan Hauser, um violoncelista croata. Depois do clipe, que mostra o primeiro movimento da música famosa, ofereço também áudios separados dos três movimentos que a compõem. (1. Adagio sostenutto – 2. Alegretto – 3. Presto aditato)

Stjepan Hauser e Lola Astanova

A sugestão de leitura de hoje é o livro Como Ouvir e Entender Música, de Aaron Copland. O autor pretende conduzir o ouvinte para uma audição inteligente, na qual deixe de ser um elemento passivo para tornar-se alguém que estabelece um diálogo com a música. Para isso, discute os problemas básicos do ouvinte comum, esclarecendo os elementos (ritmo, melodia, harmonia e timbre), as formas e as estruturas musicais. Esta edição traz acesso a um conteúdo digital exclusivo, com a gravação de cada exemplo. Para ter acesso e decidir pela aquisição da obra, basta clicar sobre a capa acima. Se a compra for feita através desse link, o blog será comissionado.

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