A TRAGÉDIA ANUNCIADA DE PETRÓPOLIS

Mais uma vez a cidade de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, foi devastada depois de fortes chuvas, com deslizamentos das encostas e o transbordamento de rios. Foi na terça-feira, 15 de fevereiro. Confesso que relutei em escrever sobre isso. Esperei um pouco até por entender que, sendo esse um dos principais assuntos na agenda do jornalismo em nosso país, nos últimos dias, seria apenas repetir o que todos estão lendo e vendo por tantos meios diferentes. Hoje, seis dias depois do fato, mudei de ideia e resolvi comentar. Isso porque as últimas notícias confirmam a descoberta de mais alguns corpos, o que fez com que fosse ultrapassado um recorde histórico na tragédia local, agora com 181 mortes. E ainda estão desaparecidas mais de cem pessoas.

Nesse século, o pior resultado em termos de vítimas naquela cidade tinha sido em 1988, quando 171 vidas foram perdidas. Mas há relatos de inundações desde 1850. O Imperador Dom Pedro II escreveu em seu diário de viagens duas vezes sobre o problema, em 1861 e 1862. Na segunda, em 5 de janeiro daquele ano, deixou as seguintes anotações: “Ontem de noite houve uma grande enchente. Subiu três palmos acima da parte da Rua do Imperador do lado da Renânia; acordou o Câmara (sic), e um homem caiu no canal, devendo a vida a saber nadar e aos socorros que lhe prestaram. Conversei hoje com o engenheiro do distrito; pouco se fez do ano passado para cá. Os estragos que fez a enchente levaram dois meses a reparar, segundo me disse o engenheiro.” Se pouco haviam feito naquela ocasião, muito menos se fez depois. Muito mais graves se tornaram os casos nos séculos seguintes, devido ao avanço da urbanização, boa parte dela feita de forma desordenada, nas áreas de encostas.

De acordo com dados compilados pela Defesa Civil de Petrópolis, de 1966 a 2017, foram registradas 552 vítimas em desastres ambientais anteriores ao deste ano. Em 15 oportunidades diferentes as enchentes e os deslizamentos custaram vidas. Até agora as piores ocasiões tinham sido registradas em 1966, com 80 mortos; 1979, com 87; 1988, com 171; e 2011, com 73. Há fatores de difícil enfrentamento, como o fato de a cidade ficar em uma serra, cerca de 840 metros acima do nível do mar, com um relevo que ajuda no aumento da turbulência do ar, em especial quando passam frentes frias. O ar se eleva muito rapidamente, perdendo temperatura e propiciando chuvas fortes e prolongadas. Também a posição de proximidade com o trópico permite a incidência de uma forte radiação solar que, com a superfície oceânica não muito distante, contribui para um aumento no processo de evaporação, o que favorece o surgimento das nuvens que citei antes.

Entretanto, existem fatores que poderiam ser minimizados, se houvesse vontade política maior. A estimativa da população local estava em 306.678 habitantes, em 2020. Essas pessoas todas se distribuem por uma área onde 20% do território está em áreas avaliadas como de risco alto ou muito alto, segundo o Plano Municipal de Redução de Riscos, divulgado em 2017 pela prefeitura. Naquele ano, já era apontado por um relatório que 27.704 moradias estavam nesses locais, com cerca de 15 mil delas em zonas de extremo perigo. O que foi feito além disso ser informado em um documento oficial? No ano passado a administração municipal reservou mais recursos para investir em publicidade e com as luzes de Natal do que com contenção de encostas. Por que a expansão urbana desenfreada não está sendo impedida? Muito dessa ocupação desordenada se dá com construções sem acompanhamento técnico especializado. Não seria oportuno saber o motivo da fiscalização não ser efetiva? Outras questões relevantes: que recursos vieram do governo Federal e do Estado para que algo concreto fosse feito?

Nosso país é tão surreal que nós temos um Atlas Brasileiro de Desastres Naturais. O problema de Petrópolis, segundo essa publicação, não é uma exclusividade daquela cidade – o que, convenhamos, todos nós sempre soubemos. No ano de 2011, quando 71 petropolitanos perderam a vida, conforme citado acima, foram mais de 900 mortos em toda a serra fluminense, ainda segundo o Atlas. Naquela ocasião em Nova Friburgo se foram 428 pessoas e em Teresópolis outras 387. Mas agora, com o sobrevoo feito por Bolsonaro, acho que tudo ficará melhor. No dia 17 o governo federal informou que mandaria R$ 2,33 milhões para uso em assistência humanitária e limpeza da cidade. O que corresponde a uma fração do total já mobilizado em todo o país, em doações de roupas, remédios, móveis, equipamentos e deslocamento de voluntários, tudo feito pela sociedade civil. Na verdade, se Brasília for tão célere quando vem sendo no combate à pandemia, a próxima enchente chega antes de soluções para a atual. Porque todos nós podemos ter certeza disso, fazendo previsões sem bolas de cristal, cartas de tarô ou vidências mediúnicas: vai acontecer novamente.

22.02.2022

O cenário de guerra ainda esconde dezenas de desaparecidos

O bônus de hoje é Tragédia Anunciada, composição de Allisson Paulo Vieira e Priscilla Rennó Almeida, na voz de Nego Moura (apelido do próprio Allisson).

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