Foi notícia no mundo todo: no terceiro dia deste ano ocorreu a reentrada na atmosfera da Terra de um satélite espião soviético que estava em órbita desde 20 de janeiro de 1983. Não que ele estivesse voltando para casa, mas porque iria despencar rumo ao solo, depois de obsoleto e desativado. E os cálculos ainda possíveis apontavam desde um bom tempo antes que isso ocorreria justo por aqui, na região sul do Brasil. Era o Cosmos 1437, que fora levado para o espaço pelo foguete Vostok-2M, partindo do Cosmódromo de Plesetsk.

Esse não é um fato isolado. Existem milhares de objetos artificiais, que a humanidade colocou no entorno da Terra e que não ficarão lá para sempre. Cedo ou tarde muitos deles retornam e a gente tem que ficar torcendo para que se desintegrem na atmosfera ou caiam sobre os oceanos ou regiões desabitadas. Podemos dizer que isso faz parte, que é apenas uma das consequências da nossa “evolução tecnológica”. Até porque ninguém reclama da existência de satélites na hora de ver televisão, ter acesso à facilidade do GPS ou mesmo às previsões meteorológicas. Claro que eles também são usados para acertar com precisão alvos em guerras; para determinar as riquezas que temos em nosso subsolo, facilitando a compra de áreas nobres a preço de banana; e para bisbilhotar a vida de quem possa interessar.

Na série de álbuns com as histórias em quadrinhos de Asterix, uma obra fantástica criada pelos franceses René Goscinny (texto) e Albert Uderzo (ilustrações), os corajosos habitantes da minúscula aldeia não temem as legiões romanas que os cercam. Eles têm medo apenas de uma única coisa: que o céu lhes caia sobre as cabeças. Fosse na atualidade talvez sua preocupação tivesse um fundo maior de verdade. Se bem que então deveriam se preocupar também com a poluição dos mares, por exemplo, por onde navegam piratas em navios que eles sempre terminam por afundar, em ações secundárias nas mesmas aventuras. E ainda com o ar, que não estaria mais tão puro quanto o das florestas próximas.

O primeiro satélite lançado foi o Sputnik, pelos russos, em 1957. Foi em plena Guerra Fria e a instabilidade política de então foi primordial para que fossem feitos investimentos gigantescos, com a corrida espacial sendo deflagrada, entre norte-americanos e soviéticos. Sem que se considere a chegada à Lua, que passou a ser uma obsessão, como se disputassem uma prova, milhares de satélites foram postos em órbita, desde experimentais até os chamados espiões. Esses últimos ainda existem hoje em dia, mas são mais facilmente identificados, mesmo que se desconheça a real missão da maioria. O grande “avanço” atual, em termos de possibilidades, está na colocação de armamento no espaço. Ou seja, a humanidade segue aprimorando sua enorme capacidade de autodestruição.

Se uma nação qualquer resolve abandonar um satélite que tenha lançado – e dezenas delas têm esses equipamentos, inclusive o Brasil –, seja pelo esgotamento da sua missão ou quaisquer outros motivos, tem duas alternativas, dependendo da altura da órbita do objeto em questão. Se ela for alta, como a geoestacionária, em torno de 36 mil quilômetros, ele fica por lá mesmo. Na verdade, um pouco além, sendo desviado antes para uma espécie de cemitério, que fica próximo do local onde ainda estão os funcionais, mais distante o suficiente para evitar choques futuros. Se ela, a órbita, for das consideradas baixas, girando em torno de 400 quilômetros de distância do solo, há possibilidade de programar um local de reentrada segura, antes dele ser “desligado”. Nesse caso, ele é queimado pela atmosfera e se desintegra, em geral totalmente.

O Cosmos 1437 rasgou os céus de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, depois de 39 anos solto no espaço, e o pouco que restou dele caiu no Atlântico. Sua órbita original era de 600 quilômetros de altura e ele levava apenas 97 minutos para completar uma volta na Terra, numa velocidade aproximada de 27 mil quilômetros por hora. O arrasto atmosférico o desacelerou, provocando a queda gradual que o trouxe de volta. Reentradas sempre acontecem em ângulos mais rasos do que os de asteroides, permitindo visualização mais limpa e por mais tempo. Rochas chegam em ângulos mais retos e com velocidade consideravelmente maior. Nem uns, nem outros nos anunciam boas novas. Mas ambos nos oferecem um espetáculo muito interessante de ser visto.

16.02.2022

Estimativas da NASA apontam para a existência de mais de 750 mil partículas dispersas

O bônus de hoje é duplo. Primeiro temos as imagens da reentrada do Cosmos 1437, nos céus do sul do Brasil. Depois seguimos com o grande espetáculo propiciado por André Rieu, regendo orquestra e coral no Amsterdam Arena. A música é Conquest of Paradise (A Conquista do Paraíso), composta por Vangelis. Originalmente ela foi usada em filme sobre a chegada dos Europeus à América, mas pode indicar também o desejo humano de conquistar o espaço – as fronteiras do passado e as fronteiras do futuro.

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA:

MISSÃO APOLLO – A Incrível História da Corrida à Lua

Para comemorar o 50º aniversário do primeiro pouso na Lua, este livro celebra o esforço e a tenacidade envolvidos no programa espacial estadunidense. A “corrida espacial” entre os EUA e União Soviética começou no momento em que o presidente John Kennedy fez sua declaração histórica de 25 de maio de 1961: “Acredito que este país deveria dedicar-se a atingir, antes do fim da década, o objetivo de levar um homem à Lua e trazê-lo de volta à Terra são e salvo”.

Houve oito missões antes do pouso bem-sucedido da Apollo 11, inclusive a primeira, que foi um desastre na plataforma de lançamento e resultou na perda de três astronautas. O programa continuou com missões não tripuladas por algum tempo, até começarem os ensaios gerais do pouso real. Esse livro relata com detalhes as missões Apollo de 1 a 11. Está repleto de fotografias da espaçonave e dos astronautas; imagens da Terra e da Lua; diagramas técnicos de foguetes, módulos de comando, módulos lunares e do traje espacial da Apollo 11; e planos de voo e de operações da NASA.

Também há quadros especiais sobre eventos e pessoas importantes e tabelas de fatos e números que detalham nome e idade dos astronautas, data e duração dos voos, o que Armstrong comeu em trânsito e onde ver a espaçonave Apollo hoje. Missão Apollo revive a experiência e todo o drama que se desenrolou desde a origem do programa espacial Apollo e as primeiras tentativas de pôr um astronauta americano no espaço até o sucesso do pouso da Apollo 11 na Lua e a comemoração de sua queda no Oceano Pacífico.

Clicar sobre a capa acima. Se o livro for adquirido através desse link, o blog será comissionado.

4 Comentários

    1. Obrigado, Maria! E podemos fazer um acordo: não nos devolvam o presidente Jair Bolsonaro, que está aí na Rússia, e nós aceitamos que caiam por aqui todos os satélites que vocês quiserem.

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  1. O teu relato nos mostra o quanto a humanidade está contaminando o espaço em torno à Terra, além do próprio planeta. E nós levamos nossa vida desconhecendo as ameaças que isso representa. As imagens e a música são fantásticas. Consegues sempre ampliar tuas histórias com elementos visuais e sonoros. Gostei demais.

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