Andei revendo o documentário Chega de Fiu Fiu, direção conjunta de Amanda Kamanchek Lemos e Fernanda Frazão. Ele foi produzido em 2014, após campanha de arrecadação de fundos. Na época, integrava um projeto homônimo, criado pela organização Think Olga. Neste trabalho as diretoras mostram o dia a dia de três mulheres, apontando a violência de gênero que está incorporada ao espaço público urbano, como se isso fosse natural. São elas Raquel Carvalho, homossexual e negra que reside em Salvador; Teresa Chaves, que é heterossexual, branca e professora de história em São Paulo; além de Rosa Luz, uma transexual moradora do Distrito Federal. Esse painel múltiplo é fator importante para o resultado do documentário, que questiona se as cidades foram ou não feitas também para as mulheres. Considerando o que cada uma viveu e contou, sete anos depois, se alguma coisa mudou com certeza foi pouca.

É interessante e necessário o registro de que o documentário, além de totalmente independente, teve mulheres não apenas ocupando o lugar de direção. Muitas das demais funções técnicas também foram ocupadas por elas, como Juliana Lemes na produção executiva; Camila Biau na direção de produção e assistência de direção; além de Cibele Appes na montagem. As convidadas especiais foram Djamila Ribeiro, Juliana de Faria, Luciana Hansen, Margareth Rago e Niceia Freire. Apenas a direção de fotografia ficou com Lucas Kakuda, da Brodagem Filmes, que foi parceira no projeto.

Um dos recursos utilizados no documentário é o de câmeras escondidas, que permitem flagrantes. E as diretoras procuraram também respostas, não apenas se limitando a expor o problema. Para tanto, há depoimentos de fontes diversas, além do uso ilustrativo de manchetes de jornais. Desta forma, o trabalho traz uma análise mais profunda, a busca do entendimento das estruturas e do comportamento cotidiano constitutivos do problema evidente. O que o torna um importante grito contra a banalização da violência, bem como contra a inaceitável precariedade no cumprimento das leis existentes, relativas à assédio sexual.

A verdade é que o próprio desenvolvimento das cidades, que foram se expandindo pelo êxodo rural e pelo crescimento demográfico, as tornou uma espécie de laboratório, onde fica evidente o papel dos ratos. Com as mulheres ocupando lugares que antes eram exclusividade masculina, no trabalho e nas estruturas sociais, foi deslocado para esses pontos o assédio de sempre, que apenas ganhou uma máscara diferente. Nos ônibus, trens e metrôs, nas praças e vias públicas, nos shoppings, em fábricas e escritórios, em estádios, clubes e salas de espetáculo, muitos pensamentos retrógrados continuaram e continuam se manifestando.

Podemos lembrar, por exemplo, que em 2017 um homem simplesmente ejaculou numa passageira, em pleno ônibus, na cidade de São Paulo. Acabou preso, pela ação dos demais passageiros. Mas foi liberado não muito depois, porque o juiz que examinou o caso considerou inexistente a violência flagrante. O magistrado, não por acaso homem, declarou ter havido “apenas” constrangimento. Fez isso sem que ele próprio tivesse constrangimento algum. Por fatos como esse é que o Chega de Fiu Fiu recolhe depoimentos e testemunhos pessoais, além de recorrer a falas de especialistas no assunto, para discutir as questões. E aborda as consagradas gracinhas masculinas proferidas nas ruas, para passantes.

Outra iniciativa das diretoras foi a formação de um círculo de discussão entre homens, quando analisaram minúcias de concepções que são naturalizadas pela cultura social falocêntrica. Um dos exemplos é que eles acreditam que as gracinhas, que entendem como elogios, são na verdade um desejo não confessado de todas as mulheres. O resultado do documentário é bom. Mesmo em alguns momentos resvalando mais em direção ao jornalismo, há boa dose de cinematografia. Ele consegue ser competente, por exemplo, ao ressaltar a imensa precariedade do cumprimento das leis existentes, que foram criadas com o intuito de amparar vítimas de assédio sexual. E ressalta, acima de tudo, a profunda necessidade de um processo de reeducação. Que tem que ser séria, imediata e profunda.

28.11.2021

No bônus de hoje temos a música My Name Isn’t (Meu Nome Não É), com a cantora pop sueca Lova.

Logo após está o trailer oficial do documentário Chega de Fiu Fiu. O filme foi apresentado durante o 1º Festival Internacional de Mulheres no Cinema, ocorrido em 2018, com a mostra competitiva sendo projetada no Cine Sesc e no Espaço Itaú de Cinema de São Paulo, onde alcançou sucesso e excelente repercussão.

1 Comentário

  1. Muito triste verificar que pouca coisa mudou desde este documentário. Confirma a necessidade de continuar a denunciar como o fazes.

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