PERDI MEU CORPO

Um jovem parisiense chamado Naoufel tem sua mão decepada, num acidente de trabalho. E o membro, recolhido a um laboratório, trata de fugir do seu destino e parte numa jornada para reencontrar o restante do corpo a que pertencia. Parece loucura, mas essa ideia resultou em uma animação excelente, que disputou e venceu vários prêmios de cinema. Até porque a história oferece muito mais do que essa abordagem ao melhor estilo do que seja surreal e fantástico, sendo na verdade uma metáfora sobre a busca por sermos inteiros, nossa saga cotidiana contra a incompletude.

O trabalho do diretor Jérémy Clapin foi baseado no romance Happy Hand (Mão Feliz), de Guillaume Laurant, que foi o roteirista de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001). A narrativa se dá em dois níveis distintos e sobrepostos: por um lado, a própria saga da mão na sua busca; por outro, uma série de flashbacks nos quais se acompanha trechos da vida de Naoufel. Mas mesmo esses últimos estão sempre “amarrados” pela presença afetiva da mão decepada, que é essencial, a própria razão da história.

A memória é o centro de tudo. E a mão tem consciência, como se fosse um corpo autônomo, capaz de discernimento e iniciativas, sendo ela a real protagonista e não o seu dono. O rapaz, que também trabalhava como entregador de pizza, conhece e se apaixona por Gabrielle, uma jovem bibliotecária. Esse amor oferece a dose exata de poesia, criando o cenário para o possível encontro/reencontro dos três: a mão e o casal. Portanto, há romance além de mistério e aventura. Mas existem também impotência, tristeza e perplexidade.

As presenças são mostradas de diferentes modos, inclusive desfocadas de propósito em alguns momentos. E até nisso o longa Perdi Meu Corpo (2019) – sim, o título desta crônica é o nome da animação – é instigante e inovador. A tal ponto de ter chamado muita atenção da crítica e do público europeu. O corpo que tinha a mão como parte sua, integrante do seu todo, vinha também tendo muito de si tirado ao longo da vida, desde sempre. Assim, essa é mais uma oportunidade na qual não sente estar inteiro, só que agora ela é literal. Ele não controla a sua própria existência, não consegue ter plenitude de sentimentos, aproveita mal as oportunidades que surgem. Até o amor que sente não consegue oferecer a ele a felicidade que busca.

O tempo todo quem assiste divide com Naoufel as suas angústias. Há um vazio existencial, contra o qual ele luta inutilmente. Existe solidão, uma asfixia emocional. Também dividimos, mas com a mão, percursos e percalços da sua busca. Os ataques que sofre de ratos e de pássaros; a tentativa de chegar a um local onde a chance do reencontro seria muito maior. Esse foi o primeiro longa de Jérémy Clapin, atuando como diretor. Mesmo essa aparente falta de experiência sendo em tese limitadora, ele conseguiu desbancar grandes produções, de estúdios como a Disney, superando concorrentes em premiações. Chegou a ultrapassar em média o público de lançamentos como Frozen II e Toy Story 4. Atualmente está disponível na Netflix. E merece muito ser visto. A não ser que você ainda acredite que animações são para público infantil e devam sempre ser bem açucaradas e ter um final feliz.

08.11.2021

Hoje teremos mais uma vez bônus duplo. Primeiro, o trailer do longa metragem de animação, Perdi Meu Corpo.

Depois, a excelente cantora cearense Lídia Maria apresenta um dos grandes sucessos de um conterrâneo ilustre: o compositor Evaldo Gouveia (1928-2020). Nessa e em outras 27 canções ele teve parceria do amigo capixaba Jair Amorim (1915-1993). A música é Bloco da Solidão.