A humanidade sempre foi fascinada pela Lua. Não faço a mínima ideia do que passava pela cabeça de homens das cavernas quando, em alguma noite mais tranquila, de céu limpo e claro, tinham oportunidade de olhar para o alto e ver aquele disco brilhante, tão cheio de mistério. O mais provável é que a vissem como uma deusa que os observava do alto, silenciosa. Aqui de baixo, com o passar dos séculos, olharam para ela tantos enamorados, sacerdotes, poetas, astrônomos e acredito que a totalidade de nós, simples mortais.

A Lua é única, mas tem quatro fases. Eventualmente se esconde, num eclipse. Já foi essencial para a marcação da passagem do tempo, servindo de base para calendário. Sabe-se que influencia as marés. Safras eram orientadas por ela. E, mesmo sem brilho próprio, é o astro noturno que mais encanta e ilumina nosso céu. Não raras vezes, aparece também de dia, como se viesse espiar o Sol, uma vez que esse jamais a visita durante as noites. Pequena diante das estrelas, ela se sobressai pela proximidade e toma conta do centro do palco, deixando todas aquelas como coadjuvantes no firmamento. Para ela, tantos amantes dedicam olhares e suspiros. Os lobos uivam e a crendice jura que humanos especiais – ou seriam amaldiçoados? – sob seu efeito se transformam em fazem o mesmo. Na antiguidade, muitos sacerdotes lhes dedicaram sacrifícios.

O único astro que se pode ver bem da Terra, sem o uso de instrumentos, é a Lua. Muita gente associa a intuição humana com sua presença. Ele é símbolo em iniciações, está ligada à fertilidade feminina e aos fluxos de água em nosso planeta. No hinduísmo representa a renovação cíclica, a transformação. Na China lhe dedicam uma das três grandes festas do ano, que acontece no décimo quinto dia do oitavo mês, em homenagem à deusa Heng-ugo. Estonianos e finlandeses costumam marcar seus casamentos sempre em fases de Lua Nova. Entre os astecas ela era a filha de Tlaloc, o deus das chuvas. Os maias a consideravam padroeira da tecelagem. Os incas diziam ser a esposa do Sol, com quem teria concebido as estrelas. Chamada em árabe de Qamar, ela é mencionada inúmeras vezes no Corão.

A Lua também é símbolo do inconsciente e do sonho. Plutarco, famoso historiador nascido na Beócia, afirmava que “a Lua é a morada dos homens bons depois de sua morte. Levam ali uma vida que não é nem divina, nem feliz, mas isenta de preocupações até a sua segunda morte. Porque o homem deve morrer duas vezes”. Não me peçam para explicar, mas garanto que lhe atribuem essa afirmação. Supostamente o homem já pisou na Lua, tendo lá encontrado apenas poeira e rochas. Uma das tantas teorias da conspiração lembra a incipiente tecnologia em 1969 para afirmar que isso seria impossível na época, não tendo passado de teatro. Se estiveram lá, não informaram ter visto vida – se bem que se habitada por espíritos, não veriam mesmo. Outra alternativa, para vida física, é que essa se concentre na face que nunca é mostrada para nós. Porque tem isso ainda, um mistério a mais: o tempo todo vemos o mesmo lado da Lua. O que serviu para dar nome a um dos melhores álbuns musicais de todos os tempos: The Dark Side of The Moon (A Face Escura da Lua), do inigualável Pink Floyd, lançado em 1973.

O primeiro filme de ficção científica da história foi Viagem à Lua. O francês Georges Méliès o produziu em 1902. Cecília Meireles abre seu poema Horadalua com esses três versos: Tenho fases, como a lua/ Fases de andar escondida/ Fases de vir para a rua. O MPB4 canta A Lua, também descrevendo suas fases e acusando de mentir quem a chama de velha. Vitor Kley e Samuel Rosa, com A Tal Canção Pra Lua, foram indicados para concorrer ao Latin Grammy 2020 como Melhor Canção em Língua Portuguesa. Seria possível citar dezenas de outras músicas, poemas, filmes e até estudos acadêmicos. Tudo isso tendo ela como tema ou como inspiração. Eu próprio, no passado, arrisquei escrever alguma coisa, que se perdeu no tempo e em alguma gaveta. Para a felicidade de todos que foram poupados de conhecer o texto. No mais, meu mais antigo contato com a Lua aconteceu de forma indireta, quando eu era criança. Em tempos de absolutas vacas magras, cortavam meu cabelo sempre na minguante. Era para ele crescer mais devagar e se economizar uma grana com o barbeiro.

02.11.2021

No bônus de hoje uma música de Caetano Veloso, com a letra escrita em inglês. É Shy Moon (Lua Tímida), aqui interpretada por Ritchie.

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