Eu não sei tocar instrumento algum. Sempre tive vontade, mas não posso responsabilizar ninguém por mais essa minha total incapacidade, uma vez que nunca pedi para meus pais, na infância ou na adolescência, que me possibilitassem aprender. E nem assumi esse desejo por conta própria, na maturidade. Então, de música meu entendimento fica no gosto forjado em épocas nas quais eu fazia programação, em duas emissoras de rádio, além do “gostar ou não gostar” em relação ao imenso número que ouvi, em diferentes estilos, ao longo da vida. Agora, se eu tivesse que escolher um instrumento para ainda tentar aprender, seria a gaita de boca.

Sempre me encantou aquele som metálico e instigante, saindo de um objeto tão pequeno que quase se esconde entre as mãos de quem toca. Essa gaita praticamente se incorpora ao instrumentista, não sendo algo enorme e externo. Uma tuba, um violoncelo, uma harpa ou um piano estão todos lá, concorrendo na ocupação do espaço. Um violão, guitarra ou baixo você praticamente pega no colo. A bateria você senta em frente a ela, como se estivesse conversando com uma pessoa amiga – dois italianos, lógico, devido ao movimento dos braços. A gaitinha você beija na boca. Você guarda no bolso. Você finge que é um brinquedo.

Aliás, foi por ter sido considerada a princípio como um brinquedo que o inventor do instrumento não conseguiu que ele emplacasse de imediato para uso em execuções musicais. Isso aconteceu em 1821, em Berlim, quando um jovem relojoeiro alemão de nome Christian Friedrich Ludwig Buschmann aprimorou um conceito que já existia desde a antiguidade na China: o princípio das palhetas livres. O resultado do seu trabalho foi um conjunto de 15 diapasões conectados a uma armação metálica, sendo que todas as notas eram sopradas. Batizada de aura, ela tinha dez centímetros de comprimento. Curioso é que ele estava com apenas 16 anos e seu objetivo era somente estudar a influência das correntes de ar na produção de sons. Aquele antepassado chinês no qual ele deve ter se baseado tinha o nome de sheng e uma história de mais de cinco mil anos. Desta técnica original lá do Oriente terminaram por surgir vários outros instrumentos, todos acionados por foles ou bombas de ar, como o nosso conhecido acordeão – acordeon é um galicismo – ou sanfona.

Poucos anos depois do pioneirismo de Bushmann, um produtor de instrumentos na Bohemia, chamado Richter, aprimorou a aura, que era bastante desajeitada. Fez isso criando uma estrutura de 20 notas, sendo dez delas sopradas e dez aspiradas, com a aparência ficando muito mais próxima das gaitas atuais. Daí em diante houve a sua popularização, com o instrumento sendo usado principalmente em músicas folclóricas, em quase toda a Europa. No final do Século XIX ele cruzou o Atlântico e passou a ser largamente distribuído nos EUA, por ser barato, pequeno e muito fácil de tocar. Por lá foi adotado com força por músicos de country, jazz, folk music e blues. E ganhou espaço posterior até no rock e em algumas músicas clássicas.

A fábrica alemã Hohner ainda hoje é uma das principais, tendo produzido mais de 1.500 modelos diferentes ao longo do tempo. Boa de marketing, a empresa chegou a fazer uma razoável quantidade que vinha com um cordão, para negociar com países da África. Isso porque os africanos não tinham hábito de usar bolsos nas suas roupas e, desse modo, as penduravam no pescoço. Além disso, a empresa fez uma única com todas as peças de metal e palhetas de ouro maciço, que presenteou para o Papa Pio XI. No Brasil, a primeira fábrica foi a Gaitas Alfred Hering, em Blumenau, Santa Catarina. Isso em 1923, mas ela acabou vendida em 1960, para estrangeiros, tendo sido 19 anos depois readquirida por brasileiros.

A gaita de boca, como é chamada em quase todo o Brasil, tem outros nomes. É realejo em estados do nosso Nordeste e ainda em Portugal, onde também é conhecida como gaita de beiços. No restante da Europa, de harmônica. Em alguns outros lugares é simplesmente harmona ou gaita de sopro. Eu nem sei como a chamaria, se tivesse uma. Talvez apenas de sonho. Mas, como sei que demoraria muito para gostar de qualquer som razoável que tirasse dela, melhor seguir ouvindo os tantos talentos que a tocam tão bem.

02.11.2021

No bônus musical de hoje, que outra vez é duplo, primeiro ouvimos Indiara Sfair, com Improvisation in Cm. Curitibana, hoje ela é conhecida internacionalmente pela sua sensibilidade e talento para tocar gaita de boca. Integra a banda de blues brasileira chamada Milk’s n’Blues além de ser compositora.

Depois é a vez da música I Can’t Help Falling In Love With You (Não posso deixar de me apaixonar por você), de Elvis Presley, com uma harmônica cover.

4 Comentários

  1. Sempre inovando em suas crónicas! Inusitado ver e ouvir uma mulher no Brasil tocando gaita – que aliás é como chamam a sanfona em países como Cabo Verde. Faltou trazer um dos grandes músicos, gênio da gaita, conhecido internacionalmente por gravar composições brasileiras como o belga Toots Tillemans…genial!

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