Muitos anos atrás o tema da Campanha da Fraternidade, uma iniciativa anual da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, desenvolvida no período da Quaresma, era “Pão Para Quem Tem Fome”. Para ser mais exato, isso ocorreu em 1985. Portanto, nada menos do que há 36 anos, quando o mundo católico ainda vivia sob o pontificado de João Paulo II. O slogan da campanha aproveitava o tema e complementava a frase com uma espécie de provocação: “Pão para quem tem fome e fome de justiça para quem tem pão”. Esse esforço foi meritório, mas pelo que se viu ao longo de quase quatro décadas, a situação por aqui não parece se resolver, nem com “reza braba”. Parêntesis: essa expressão significa apenas uma oração forte, mas foi dada a ela também uma conotação negativa ao longo do tempo, associando sua presença com rituais de feitiçaria ou com macumba.

A questão da fome no Brasil é recorrente. Não começou agora, mas a atual situação revela um retrocesso. Relatórios oficiais, baseados em pesquisas domiciliares, revelam que no início dos anos 2000 cerca de 9,5% da população vivia sob situação de insegurança alimentar grave. Esse número caiu com uma série de medidas adotadas desde então, chegando a 4,5% em 2013, o menor patamar em toda a nossa história. Ou seja, menos do que a metade com uma década de trabalho sério, buscando a necessária redução. Mas todo esse avanço foi perdido, desde 2016, chegando agora na beirada dos 10%, com o desmonte das políticas públicas que vinham sendo adotadas. Pior é que o número de famílias em vulnerabilidade social segue crescendo, o que aponta para uma tendência de ainda maior agravamento de algo que já está crítico.

Viralizou nesta segunda-feira um vídeo feito em Fortaleza, mostrando pessoas que praticamente atacam um caminhão de lixo, quando ele para, com o objetivo de encontrar restos de comida no seu interior. Segundo a pessoa que gravou a cena de dentro do seu carro, um motorista de aplicativo, o fato aconteceu nas proximidades de um bairro nobre da cidade. Ele também relatou que essas mesmas pessoas em passado recente buscavam material para reciclagem, como papelão e vidro. Mas agora seu objetivo não é conseguir as moedas que aqueles produtos rendiam, querendo algo que possa aplacar a sua fome diretamente. Mesmo que esse algo não passe de comida azeda. Dados do Ministério da Cidadania informam que apenas no Ceará cerca de um milhão de pessoas estão vivendo na pobreza extrema, com uma renda mensal aproximada de R$ 89,00. No país todo esse número ultrapassa os 19 milhões de pessoas.

É verdade que o problema da fome no Brasil é estrutural e tem raízes históricas. O processo de construção da nossa sociedade perpassou muitas formas de exploração e desigualdade, tornando a pobreza uma realidade necessária para a manutenção da sua elite. Esse fenômeno é muito mais antigo do que a pandemia, que o está agravando. A covid também tem sido uma oportuna desculpa para a inoperância da área econômica, que tem trabalhado apenas para ampliar a concentração de renda. No Brasil, onde falta saneamento, moradia e condições dignas de transporte, o governo tem destruído os sistemas de saúde e educação, com os constantes ataques contra suas bases e com a redução de investimentos ao mínimo. Assim, toda a estrutura social está colapsando, com a fome sendo a mais cruel das evidências.

Em meio a tudo isso, permanece sendo fácil ouvir entrevistas de neoliberais insistindo que “não se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar”. Como se o pescador tivesse tempo para aprender, antes de morrer de fome. Mesmo que inegavelmente ações complementares devam ser implementadas, o primeiro ato tem que ser de amparo, de garantia da manutenção da vida. E isso, diante da ausência quase absoluta do Estado, tem sido feito apenas e corajosamente por uma parcela da população que ainda se preocupa com o próximo. Mas a sobrevivência dos mais carentes não pode ser atendida apenas pela caridade alheia. O cidadão pobre tem que ser visto como um cidadão, não como um miserável. Ele, como todos os demais, precisa ser respeitado.

Miserável é quem não enxerga esses invisíveis pelas ruas da cidade. Quem tem como ao menos mitigar o problema, com o simples uso de sua caneta, e nada faz. Quem desconhece ou finge desconhecer que, no Brasil, a alimentação entrou no rol dos direitos fundamentais ao ser inserida no artigo sexto da Constituição Federal. O direito humano à alimentação adequada fala em estar livre da fome e ter acesso a nutrientes corretos. Se a primeira parte for atendida já teremos um avanço significativo, como o que se ensaiou alcançar em passado recente. Para o agro ser mesmo pop, seus celeiros precisam ser esvaziados nos pratos de todos os brasileiros. Não basta mais servir apenas para engrossar as contas bancárias de alguns poucos que vendem essa produção para o exterior. Os dólares que entram não pagam as vidas que aqui são sacrificadas. A vergonha e a dor da fome não têm preço.

19.10.2021

O bônus de hoje tem flagrante, poesia e música. Abro com o vídeo que mostra pessoas catando comida do lixo, em Fortaleza. Imagens que, com certeza, poderiam ter sido captadas em diversas outras cidades de nosso país. – Depois é a vez de Solano Trindade, com a poesia Tem Gente Com Fome, acompanhado pela música incidental Walk on By (Isaac Hayes) – E fechamos com clip de Comida, dos Titãs.

5 Comentários

  1. Eu leio suas postagens com o interesse de sempre … e vejo a situação de milhões de pessoas refletida como um reflexo do que existe em meu país. A extrema direita com apátridas que convergem com os estrangeiros; os peixes só são capturados por eles. Suas políticas sempre foram de acumular riqueza para, como você diz, “a elite dominante”. E assim será, enquanto os próprios invisíveis não se manifestarem pacificamente com quem, como nós, luta por uma sociedade mais justa e igualitária. Uma saudação cordial.

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    1. Em termos de história, a Argentina tem similaridades com o Brasil. Meu país e o teu foram colônias e até hoje são vistos assim, com a diferença que agora nosso maior problema não está mais centrado na Espanha ou em Portugal. São outros que exploram nossas riquezas e nossa gente, em geral contando com o auxílio das elites locais. Mas isso há de mudar algum dia, com superação dessa subserviência. Pobreza e fome ainda vão ficar em nosso passado. Saudações!

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    2. Excelente texto ! É necessário agirmos, não só pressionando os governantes e as elites financeiras para atuarem sobre o problema, mas tbm apoiarmos instituições que minimizam esta situação ajudando a quem tem fome. A fome não espera! Abraço!

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  2. “Mas a sobrevivência dos mais carentes não pode ser atendida apenas pela caridade alheia. O cidadão pobre tem que ser visto como um cidadão, não como um miserável. Ele, como todos os demais, precisa ser respeitado.” Belíssimo texto, refletindo esta triste e lamentável realidade em nosso país. Grande abraço, meu amigo!

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