Essa história de “tal pai, tal filho” nem sempre é verdadeira. Acreditem em mim, pois tenho agora uma prova cabal, definitiva. A vida toda preferi seguir aquele outro ditado, que afirma nunca cair o fruto longe do pé, mas eu estava errado, lamentavelmente. Se antes poderia haver até uma suspeita disso não ser real, como de resto correm o mesmo risco todas as verdades definitivas, agora foi escancarado mais esse meu equívoco. Quem manda eu me basear na minha vida familiar, nas minhas experiências pessoais, onde tive a sorte de não causar nem enfrentar tais dissabores?

O jornalista e poeta Oswaldo de Camargo está com 84 anos. Ele é neto de escravos e filho de pais analfabetos. Deve ter tido, ao longo de toda a sua existência, momentos e motivos para ficar feliz e na certa enfrentou muito mais tristezas. Sempre foi um militante do Movimento Negro e agora, finalmente, tem sua trajetória reconhecida na cidade natal. Bragança Paulista, com 170 mil habitantes, no interior de São Paulo, deu seu nome a uma praça. Ao saber disso, não teve como deixar de lembrar da própria infância, que foi sofrida. Perdera pai e mãe tão cedo que, com seis anos de idade, vivia no Preventório Imaculada Conceição, local que recebia e amparava filhos de tuberculosos. Ele admite que, apesar da enorme tragédia familiar, foi esse local que lhe permitiu fugir de uma vida miserável, receber educação e se tornar um escritor. Segundo ele conta, foi lá que escapou de ser mais um entre tantos “herdeiros do analfabetismo”.

Ele agarrou a chance oferecida. Aprendeu a ler e escrever, indo depois muito mais além. Esteve no Seminário Menor Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto. Por lá foi apresentado aos poetas parnasianos. Depois, se apaixonou pela obra de Carlos Drummond de Andrade. Ao sair, foi revisor de O Estado de São Paulo; redator e resenhista literário no antigo Jornal da Tarde. Em 1959, lançou seu primeiro livro, estreando na literatura pela poesia. Um Homem Tenta Ser Anjo veio três anos antes de se tornar debutante na prosa, com O Carro do Êxito. Nesse segundo estava o conto Negro Disfarce, que depois foi transformado por ele em novela e também publicado. Em 1978, Oswaldo fez parte da primeira edição dos Cadernos Negros. Essa foi uma publicação histórica que reuniu jovens estudantes e intelectuais, todos eles negros. Em comum tinham a coragem de empreender uma resistência pacífica contra a ditadura militar.

Ele permaneceu ao longo de décadas sempre fiel aos seus princípios, empenhado numa luta tão inglória quanto justa, pelo reconhecimento dos direitos dos negros, pelo respeito à sua história. Era uma espécie de “elo entre as gerações” que se sucederam no mesmo enfrentamento. Agora em 2021, além da homenagem citada, ele terá algumas de suas obras outra vez publicadas: a Companhia das Letras irá relançar 15 Poemas Negros, de 1961 – esse com prefácio de Florestan Fernandes –; a novela A Descoberta do Frio, de 1979;  e também o já citado O Carro do Êxito. Oswaldo é um homem íntegro, inteiro em todos os sentidos. Alguém com princípios. Casado com dona Florenice, eles tiveram seis filhos.

Um desses filhos chama-se Sérgio Camargo – ele se apresenta assim, sem o “de” – que preside a Fundação Palmares. Essa instituição pública foi criada em 22 de agosto de 1988, pelo Governo Federal, para dar a sustentação possível a tudo o que o Movimento Negro vinha fazendo, ao longo do tempo. Está voltada para a “promoção e preservação de valores culturais, históricos, sociais e econômicos decorrentes da influência negra, na formação da sociedade brasileira”. É o que diz no seu estatuto; não é o que faz Sérgio. Uma das suas tantas proezas foi chamar de “escória maldita” o movimento no qual seu pai milita por décadas. Muito atuante, mas apenas nas redes sociais, bem ao estilo que identifica a imensa maioria dos bolsonaristas, suas postagens são um espetáculo de horrores, ódio e ofensas. Ele nega a existência de racismo no Brasil; ofende a religiosidade de matriz africana; relativiza a escravidão, afirmando que ela foi benéfica para os filhos dos escravos; defende a extinção do Dia da Consciência Negra; contesta a atuação de mulheres negras na política; tudo isso de forma constante, intensa e gratuita.

Sérgio diz que o Movimento Negro é composto por “gente safada, todos de esquerda”; criou a expressão “afromimizentos” para se referir aos membros da comunidade negra que se posicionam contra suas falas e práticas discriminatórias. Pior é que, mais do que simples verborragia irresponsável e ignorante, o presidente da Fundação, que foi escolhido pessoalmente por Bolsonaro, está arrasando com a instituição. Persegue funcionários, destrói acervo, inviabiliza projetos. A diferença entre ele e seu pai é que o rebento irá sair do posto temporário que ocupa para o nada, o esquecimento absoluto que merece. Talvez com uma estadia antes na prisão. E seu pai, este estará imortalizado por tudo o que fez e ainda faz, também na Praça da Poesia Oswaldo de Camargo. Além disso, não se pode culpar a árvore pelo fato de um dos seus frutos ter, depois de caído, rolado para longe, onde apodreceu.

05.09.2021

Oswaldo de Camargo, jornalista e escritor. Foto de Larissa Souza – Ecoa/UOL

No bônus de hoje, Negra Li com a parceria de Rael, na música Raízes. A composição é da própria Negra Li, com Fábio Brazza, Duani e Vulto. Muito especiais os versos “Minha dor é de cativeiro/ A sua é de cotovelo/”.

1 Comentário

  1. Felicitaciones para todo lo que haces, a la fin de ensenar la gente sobre la historia de Brasil! Entiendo portugues, puedo leerlo, porque hablo espanol, rumano y frances, tres idiomas latinos. Saludos desde Bucarest, Rumania!

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