Exatos 41 anos atrás, em 18 de maio de 1980, a cidade de Gwangju, situada no sudeste da Coreia do Sul e então capital da província de Jeolla Sul, foi palco de um massacre promovido pelo exército daquele país contra estudantes que realizavam manifestação pacífica nas ruas, na qual reivindicavam mais liberdade e pediam democracia. Cumprindo ordens, os soldados os cercaram e abriram fogo com armas letais. Apesar do número total de mortos nunca ter sido informado, estima-se que pelo menos duas centenas de jovens não retornaram para as suas casas. Mesmo diante dessa ação brutal, os protestos continuaram até o dia 27. Nesse período de dez dias e durante mais algum tempo depois, as autoridades censuraram todos os meios de comunicação, na tentativa de vender para o mundo a ideia de ter sido apenas um “pequeno levante perpetrado por comunistas”. Entretanto, essa inverdade durou pouco, apesar da permanência de Chun Doo Hwan, um general de extrema direita que tomara o poder com golpe militar e contra quem ocorria o levante, ter sido garantida até 1988.

Apoiado informalmente pelos EUA, o ditador fez de tudo para destruir as universidades e os sindicatos, restringiu a liberdade de imprensa, atacou políticos de oposição, artistas e pensadores, achatou salários e impôs a lei marcial. Dias antes da manifestação que terminou em tragédia, ele havia determinado a prisão de 26 lideranças que a ele se opunham. Logo após o primeiro conflito, alguns policiais que permitiram a fuga de manifestantes encurralados e também libertaram outros que haviam sido detidos, foram assassinados pelos soldados. Helicópteros dos Estados Unidos, que mantinham e ainda mantêm bases militares na Coréia do Sul, foram usados por homens que dispararam contra os revoltosos. Tanques passaram sobre pessoas caídas. Milhares de presos permaneceram em porões onde foram torturados e alguns deles mortos. Seguiram-se espancamentos e estupros; corpos ficaram jogados nas ruas por dias. Dados posteriores da imprensa internacional apontaram para mais de mil vidas perdidas. Os responsáveis pela barbárie nas ruas foram os “Boinas Negras”, um grupo de elite que era conhecido pela selvageria e violência, uma espécie de milícia particular do ditador que operava dentro das forças armadas regulares.

No ano seguinte, Chun Doo Hwan esteve na Casa Branca, convidado pelo então presidente Ronald Reagan, do Partido Republicano. No seu discurso, o anfitrião elogiou o visitante, a quem chamou de “um homem forte”. Depois que a normalidade democrática foi reconquistada pelo povo sul-coreano, o ditador foi preso, julgado e condenado à morte. Isso ocorreu em 1996, mas ele acabou perdoado pelo governo e seguiu tendo vida confortável. Atualmente existem memoriais que relembram as vítimas e foi instituído o Prêmio Gwangju Para os Direitos Humanos, que é entregue todos os anos a quem se notabilize pela defesa da liberdade e do respeito à vida.

Uma bela obra de Han Kang, premiada autora sul-coreana, transformou esse evento trágico em ficção. Seu livro Atos Humanos é uma demonstração de força poética, sendo a construção de um mosaico de vozes dos afetados pela brutalidade. A autora tem talento e enormes recursos literários, ocupando posição de destaque na sua área. Também há um filme, produzido em 2018, que relata essa história, mesmo que através de um ponto de vista inesperado. O Motorista de Táxi conta a aventura de um profissional contratado por um jornalista para, saindo de Seul, o levar até a cidade onde o processo revoltoso já se iniciava. Superando obstáculos, conseguem chegar antes do dia fatídico. Mas, retornar depois com as fotos e o relato produzido, foi uma realização ainda mais difícil. O diretor é Jang Hoon e existem DVDs à venda.

18.05.2021

Os corpos dos estudantes assassinados ficaram jogados em inúmeros pontos, nas ruas da cidade
A repressão da ditadura militar fez muitos presos, que eram conduzidos para os porões como se fossem animais

No bônus de hoje, uma mostra da música coreana contemporânea. Punch Chanyeol, com a canção Stay With Me (Fica Comigo).

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