O jornalista maltês Joe Sacco tem uma forma muito própria de levar seus relatos aos leitores. Ele faz imersões nos locais sobre os quais deseja escrever e, depois disso, apresenta a reportagem não apenas em forma de texto, mas com ilustrações. Essas não são fotografias, mas desenhos que retratam a realidade numa história em quadrinhos onde não existem heróis, mas pessoas simples que vivem no seu cotidiano aquilo que o profissional busca mostrar. O tema é sempre sério, os dados coletados são precisos e o seu talento em usar papel e nanquim materializa tudo numa obra que merece não apenas ser lida, como também guardada. Tenho alguns desses álbuns, cinco no total.

Dois dos livros são sobre o conflito entre palestinos e israelenses: Palestina Uma Nação Ocupada (1996) e Na Faixa de Gaza (2010). Com o primeiro ele ganhou o prêmio do American Book Award, além de enorme prestígio. Outros dois descrevem guerras ocorridas quando da dissolução da Iugoslávia: Área de Segurança Gorazde (2000) e Uma História de Sarajevo (2003), outra vez sendo ele premiado com o primeiro desses títulos, ao receber distinção oferecida pela Fundação Guggenheim. O quinto que possuo é Derrotista (2003), que foge dessas experiências mais extremas e aborda questões pessoais, algumas autobiográficas. São histórias curtas e sarcásticas, viagens que fez pela Europa, sua vida como bibliotecário e uma banda de rock que teve. Mas o trabalho de Sacco resultou em outras publicações, que infelizmente não consegui adquirir até agora. Como o pioneiro Yahoo, ainda de 1988. Ou ainda o comics chamado Stones, que foi publicado inicialmente na revista Zero Zero.

Falando de Palestina: Uma Nação Ocupada, não há a pretensão de ser esse um relato definitivo sobre esta desavença histórica. Ele é apenas um recorte, uma página a mais a respeito de um tema que seguirá tendo muitos aspectos para serem explorados. Mas é um modo diferente de entrar no entendimento do assunto, mesmo que sem toda a profundidade que ele sempre irá merecer. A tensão entre palestinos e israelenses parece ser eterna. Ou ao menos teve uma razão para começo, mas ninguém ousa arriscar que venha a ter um fim, mesmo que se torça para isso acontecer. Ela vai muito além dos já suficientes impasses de cunho religioso e territorial, envolvendo ainda a própria identidade nacional dos cidadãos dos dois lados. Sacco tenta contar como cada um desses lados vê essa situação, tendo circulado em ambos os territórios, para entender essa relação turbulenta. Precursor do jornalismo em quadrinhos, também difere seu trabalho o fato dele próprio se inserir no relato. Ele não está invisível nas histórias: ao contrário, faz questão de mostrar que está presente nelas e nas regiões ocupadas, frequentando casas e estabelecimentos, vendo os fatos, colocando também suas opiniões e idiossincrasias.

O trabalho jornalístico nesse caso é como o de alguém que recolhe todos os retalhos possíveis e com eles faz uma colcha. São pedaços de histórias que se entrelaçam; são desenhos que se seguem, costurando a narrativa em cada quadrinho. A arte de Sacco leva os seus leitores diretamente a vários depoimentos dados por aqueles que vivem os dramas diários na região. Mostra uma nação ocupada, mas com a honestidade de procurar entender motivações. Há sinceridade maior do que na imensa maioria das coberturas feitas até hoje pelos grandes meios de comunicação. E agora, quando outra vez o ódio mútuo e as agressões explodem, mostrando que os momentos de paz são apenas intervalos entre as conflagrações, se faz necessário ler – ou reler, no meu caso – algo que tenta iluminar causas e prevenir consequências. Tudo em preto e branco, exceto a capa. Como convêm.

20.05.2021

Capa do livro de Joe Sacco que lhe valeu o prêmio do American Book Award

Hoje o bônus é duplo. Primeiro, uma música do Pink Floyd. Song for Palestine (Canção para a Palestina) foi composta por Roger Waters, dando uma nova versão para We Must Overcome (Devemos Superar). Sua motivação para isso foi a presença de cerca de 1.500 homens e mulheres de 42 países, que em 2010 tentaram sem sucesso, a partir do Egito, se juntarem ao movimento Marcha da Liberdade em Gaza. Depois temos jovens palestinos apresentando a dabke, uma dança folclórica do Líbano, da Síria e da Palestina. Fazem isso próximo à divisa com Israel.

1 Comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s