Quem aqui entre nós nunca foi acusado de “fazer arte”, quando éramos pequenos? Os adultos que nos diziam isso, fossem eles pais, tios, avós ou quaisquer outros, estavam com certeza querendo destacar que aquilo que havíamos sido surpreendidos fazendo, era algo errado em relação ao que esperavam de nós, algo diferente da conduta “apropriada”. Vejam que não é por acaso que tal expressão sempre foi corriqueira e aceita. Mesmo que de modo inconsciente, as pessoas percebiam e percebem que arte é o que foge daquilo que é convencional e, portanto, tem o poder de subverter e questionar. Fazer arte é não ser submisso. E essa mesma rebeldia saudável, que tentam domar na nossa infância, de certa forma se repete na criatividade expressada com a música, a literatura, o teatro e as chamadas artes plásticas, quando adultos.

Esta percepção do perigo que ser criativo representa ao status quo faz com que manifestações artísticas sejam muitas vezes consideradas perigosas e, desse modo, necessitem ser silenciadas. A liberdade gesta a arte e a arte exalta a liberdade. Portanto, convém que a asfixia de ambas seja concomitante. E essa é uma tarefa à qual sempre se dedicaram com muito esmero todos os impérios em relação a suas colônias, bem como os regimes de exceção que se instalaram ao longo do tempo. A censura se torna uma das suas mais importantes armas. É o estado sendo o “pai conservador”, que não admite desobediência. A submissão mantém a estrutura correta; a hierarquia é o sinônimo da ordem.

No Brasil colônia era proibida a existência de máquinas impressoras. O primeiro jornal “brasileiro” na verdade era feito no exterior e trazido para nosso país de forma clandestina. Livros são queimados desde a Idade Média e isso segue acontecendo. Recentemente, podem também ter a sua comercialização desestimulada com taxações – o governo Bolsonaro vem tentando isentar de impostos a compra de armas e ampliar aquele que é cobrado das editoras. O talibã, no Afeganistão, dinamitou estátuas milenares, duas imagens de Buda feitas na pedra, uma delas a maior dele em pé, com 53 metros de altura. Hitler tentava se apropriar da história e da identidade dos países que invadia, apanhando tudo o que podia do seu patrimônio artístico e cultural. Os soldados nazistas tinham ordem expressa para recolher pinturas, esculturas, cerâmicas e tesouros religiosos, numa pilhagem vergonhosa. Havia também a tentativa de impor um ideal estético puramente germânico, ao mesmo tempo em que consideravam a arte moderna degenerada. Além das suas conhecidas queimas públicas de livros, em 20 de março de 1939 incendiaram 1.004 pinturas, 3.825 aquarelas, gravuras e desenhos, além de terem destruído inúmeras esculturas, no pátio do Corpo de Bombeiros de Berlim.

Ditaduras militares sempre se mostraram adeptas ferrenhas da censura, como as dos generais Francisco Franco, na Espanha; e Augusto Pinochet, no Chile; além de todos os “cinco estrelas” brasileiros que se revezaram, ao longo de 21 anos. Prenderam, torturaram e exilaram, sempre em função do medo que lhes incutia o talento de vários artistas. No livro Febeapá: Festival de Besteiras que Assola o País, o jornalista Sérgio Porto relatou uma série de situações criadas pelo moralismo primário e pela burrice dos censores, durante a Ditadura Militar no Brasil. Um dos exemplos foi a invasão do Teatro Municipal de São Paulo, em 1965, quando da estreia da peça Electra. Os agentes tinham ordem de prender o autor, que com o texto estaria fomentando subversão contra os valores da família brasileira. Só não conseguiram cumprir a missão que receberam porque o grego Sófocles havia morrido quatro séculos antes do nascimento de Cristo.

Bom é sabermos que nunca esse silenciamento conseguiu de fato calar a arte. No mínimo a semente permanece, esperando outra vez que a luz do sol vença a escuridão de algumas almas. O solo sempre fértil espera com paciência. E mal a liberdade abre uma brecha no muro, brota a arte que é fruto dela, um simples musgo que alarga a fenda. Vem a literatura, que é a verdade melhorada. Aparece a fotografia, que é a realidade muitas vezes inconveniente. Surge o talento dos grafites. Explodem as cores do teatro, da pintura, da moda e do cinema. Novas texturas outra vez tomam conta das paisagens. E o tempo confirma que sempre será o senhor da razão.

04.04.2021

No bônus de hoje o clip oficial da música Eu Vou, de Hot e Oreia, com a participação de Djonga. Os dois primeiros formaram uma dupla de rap brasileira, originada nas Minas Gerais. Seus nomes reais são Mário do Nascimento e Gustavo Aguiar. Depois de gravarem diversas músicas, se separaram em janeiro deste ano. O também mineiro Djonga, nome artístico de Gustavo Pereira Marques, é um rapper, escritor e historiador, muito influente na atualidade. Suas características são as letras com fortes críticas sociais e uma estética agressiva, afiada.

3 Comentários

  1. Muito boa lembrança sobre “fazer artes” em criança. Terrível como toda arte é atacada por governos autoritários, é preciso continuar a lembrar. Dá vontade de chorar, quando lembramos os teatros de P.Alegre deixados cair por si, sem falar em outras ameaças. Continuemos a denunciar.

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