O Rio Grande do Sul sempre foi uma espécie de Hyundai, em relação aos outros estados brasileiros: adora se declarar o melhor do mundo, nas propagandas que faz de si mesmo. No seu próprio hino é categórico, quanto a isso, ao declarar “sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”. Uma modéstia realmente exemplar, ao mesmo tempo em que é hábito que só vale para as coisas boas. No conflito histórico contra o Império, a conhecida Revolução Farroupilha – aqui muitos chamam de Guerra dos Farrapos, pois se a independência havia sido declarada a contenda não era interna, mas entre dois países –, se vangloria de ter resistido dez anos contra exército mais numeroso e melhor armado. Algo assim como os 300 de Esparta. Ao mesmo tempo, tenta varrer para baixo do tapete a vergonha da traição em Porongos.

Até recentemente os gaúchos se autoproclamavam como tendo a melhor educação do país e serem os eleitores mais politizados. Pode até ter sido verdade, mas não é mais. O “Celeiro do Brasil” fornecia alimento para todo o território nacional e ainda exportava o excedente. A gente garantia os agricultores, que iam desbravando o país, via oeste catarinense rumo aos estados de Goiás, do Mato Grosso e outros ainda mais longe. Nossa superioridade seria tão antiga que até um fóssil de espécie rara de tiranossauro foi aqui encontrado. Também fossilizados eram os generais que fornecemos para o comando do país, durante a ditadura militar.

O mais lindo pôr do sol que a natureza pode proporcionar aos olhos acontece no Guaíba – rendeu a excelente música Pealo de Sangue, toada de Raul Ellwanger que ficou conhecida como Velho Gaúcho. Não há água mais fria do que a nossa em nenhuma outra praia de mar, nesse país. A cor dela então, essa é única. E aquele ventinho, jogando areia nas canelas da gente, onde mais poderia ser encontrado? Agora, se alguém quiser conhecer vento de fato, desses que gelam até a alma, basta seguir rumo à fronteira para ser apresentado ao Minuano, num inverno qualquer. Não deve ter igual nem na Antártica, nem na Sibéria.

Voltando ao embate militar, o termo “farrapos”, que identificava soldados que nem sequer tinham fardas adequadas, de pejorativo foi também transformado em exemplo de aguerrimento, de bravura, de tenacidade. E quando o inevitável acordo de paz foi firmado, a palavra derrota foi de imediato retirada do dicionário histórico. Tanto que, passado um século do término do conflito, gaúchos passaram a comemorar a data. Ou seja, nos tornamos talvez o único povo do mundo que relembra com orgulho uma guerra que não venceu. Não tenho conhecimento para que minha afirmação traga consigo certeza e precisão técnica, mas me parece algo esquizofrênico.

Claro que, exageros à parte, há muita coisa boa por aqui. Me sinto bem por ter nascido nessa terra. Pertinho da minha cidade natal estão os cânions, com toda a sua exuberância. O clássico Grenal causa com certeza muita inveja. Temos o churrasco, o chimarrão, as relações de verdadeira amizade. O rádio foi inventado por um padre gaúcho, em Porto Alegre: Landell de Moura. Racistas como poucos, ainda assim conseguimos eleger Deise Nunes, a primeira Miss Brasil negra da história. São daqui Alberto Pasqualini, Caio Fernando Abreu, Daiane dos Santos, Eliane Brum, Elis Regina, Érico Veríssimo, Getúlio Vargas, Gisele Bündchen, Iberê Camargo, João Saldanha, José Lutzenberger, Josué Guimarães, Leonel Brizola, Lílian Lemmertz, Luís Carlos Prestes, Mário Quintana, Moacyr Scliar, Olívio Dutra, Radamés Gnattali, Rubem Berta, Sepé Tiarajú, Tabajara Ruas, Thomaz Koch, Tizuka Yamasaki, Walmor Chagas e Yamandu Costa.

Para produzir a lista acima, agi como bom gaúcho: esqueci de propósito alguns nomes. E com certeza cometi o erro involuntário de não ter incluído outros tantos que nela mereceriam estar. Agora, para concluir, já que iniciei o texto citando comerciais de TV, existe um que foi veiculado tempos atrás, apenas na internet, que complementa com louvor aquilo que escrevi aqui. O produto é a cerveja Polar, que tem comercialização se não exclusiva certamente prioritária em nosso território. Acima do Mampituba é uma raridade encontrar. Ou invés de tentar explicar como ele foi feito, prefiro deixar a sugestão que o vejam. Está disponível no Youtube, devendo ser digitado Hino da Polar – A Melhor do Mundo é Daqui. Deixei abaixo também possibilidade de download. Asseguro que vale muito a pena.

21.03.2021

Levando no peito o que a pessoa sente em relação à terra natal

No bônus musical de hoje, áudio em MP3 da música Pealo de Sangue, de Raul Ellwanger, na voz de Maria Lúcia Sampaio. Nessa versão, arranjo semierudito de cordas, de Toneco da Costa.

1 Comentário

  1. Acima do Mampituba, onde me encontro agora, realmente não se encontra Polar. Até a cerveja é polarizada pelo Rio Grande!

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