Na data de hoje na cidade de São Paulo – e apenas lá – se comemora o Dia do Acupunturista. Isso se deve ao fato de ter acontecido na capital paulista, em 23 de março de 1996, o I Congresso de Acupuntura do Brasil. A organização foi da Confederação Nacional de Acupuntura e Terapias Afins (Conat). Mas esse recurso milenar chegou ao nosso país ainda em 1812, com cerca de 300 chineses que foram trazidos para o Brasil por Dom João VI, que pretendia introduzir o cultivo de chá – duas lavouras experimentais foram criadas, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro e na Fazenda Imperial de Santa Cruz, sem o sucesso esperado. Entretanto, esse conhecimento médico veio a ter mesmo um grande incremento foi com a chegada dos japoneses, em 1908. Trata-se de uma prática oriental que busca tratar dores e algumas doenças, fazendo uso de agulhas muito finas e longas, que são introduzidas em pontos específicos da pele dos pacientes, permanecendo nesses locais por alguns minutos.

Eu já fiz uso desse tratamento, com bastante sucesso. Procurei para que fossem amenizadas as dores que sentia na coluna, causadas por uma protusão entre vértebras. O que posso dizer é que, depois da primeira aplicação, tive uma reação muito forte, com sudorese extrema que antecedeu alívio considerável. Nas demais esse problema não mais aconteceu, mas as dores seguiram diminuindo. Outro fato curioso que posso citar é que um dia saí do consultório sem perceber que uma das agulhas usadas não fora retirada. Atravessei a cidade com transporte público, sem me dar conta que estava com uma espécie de antena instalada no alto da cabeça. Quem reparou deve ter estranhado muito, mas ninguém me disse nada no caminho – talvez temendo proximidade com alguém que poderia não estar no seu estado normal. Garanto que não captei nenhum sinal de rádio no trajeto e em casa isso foi resolvido, com a retirada.

A acupuntura é considerada um ramo da tradicional medicina chinesa. Mas o nome que damos para ela aqui no Ocidente vem da aglutinação de duas palavras em Latim: acus, que significa “agulha”; e punctura, que pode ser traduzida como “colocação”. Há registros escritos sobre sua aplicação ainda no ano de 1027 a.C, durante a Dinastia Zhou. Mesmo com toda essa história, seu crescimento na Europa se deu na década de 1930, com o lançamento de dois livros. O primeiro deles, em 1932, do médico e professor universitário Cheng Danan (1898-1957), que fez uso detalhado de referências anatômicas, demonstrando que o mecanismo de ação era real, pela estimulação dos nervos. Apresentou localização exata dos pontos, sempre sem proximidade com vasos sanguíneos, associando cada um dos locais com os trajetos nervosos. Ilustrado com grande número de fotografias e desenhos, mostrava as interligações que se estabeleciam. Isso auxiliou na credibilidade e em vários países o seu estudo foi incorporado aos currículos dos cursos de medicina. A segunda publicação foi feita pelo diplomata e cônsul francês na China. Soulié de Morant havia se interessado pela técnica ao presenciar uso e efeitos positivos, quando ocorreu uma epidemia de cólera naquele país asiático. L’acuponcture chinoise teve várias reedições e foi traduzida para muitos outros idiomas, sendo ainda hoje considerada como uma obra clássica sobre o assunto.

Em 19 de novembro de 2010 a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), declarou a acupuntura como Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade. Ainda assim, segue havendo resistência de boa parte dos nossos médicos, que a entendem como uma pseudociência. Um dos motivos vem do fato dela ter um embasamento filosófico calcado nas crenças do Confucionismo, Taoísmo e Budismo, que enxergam o corpo humano como um organismo ao mesmo tempo único e integrado. Essa visão considera tanto questões internas, de cada órgão e tecido, quanto a sua relação com a natureza. Em ambos os níveis haveria uma harmonia indissociável, sendo necessário ver o indivíduo como um todo antes das doenças que possa estar enfrentando. Essa oposição retardou, mas não impediu que a terapia fosse aos poucos ocupando espaço importante no Brasil. Também por aqui já existem instituições universitárias oferecendo a disciplina e planos de saúde passaram a incluir esse atendimento nas suas listas de profissionais credenciados, realizando pagamento direto ou reembolsável. Ainda antes disso, com maior relevância, o Sistema Único de Saúde (SUS), por meio da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PICS), passou a permitir o trabalho de acupunturistas. Isso foi em 2006 e o volume de atendimentos, desde então, vem aumentando gradualmente. Ou seja, com paciência oriental, a acupuntura se estabeleceu e fincou raízes que estão cada vez mais poderosas.

23.03.2021

No bônus musical de hoje, música chinesa tocada com flauta de bambu. Relaxante, ela é utilizada para momentos de meditação, servindo também de fundo durante aplicações de acupuntura.

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