Quero confessar aqui uma dificuldade pessoal minha: não consigo me dar bem com a linguagem acadêmica. Isso pode soar estranho, pois afinal fiz um mestrado por vontade própria, tendo sido obrigado a aceitar muitas das suas características para redigir minha dissertação. Se bem que houve uma certa flexibilidade da minha orientadora e da banca avaliadora, considerando minha formação de origem, na narrativa mais jornalística. Entendo que deve mesmo existir uma normatização um pouco exigente, mas a impressão que me dá quando leio algum desses trabalhos é que o autor foi engessado. Trabalhou com a corda no pescoço não apenas no que se refere ao tempo, que é outro fator de ansiedade. Sofreu, na sensação que me causa, também a pressão da necessidade de ter eloquência, como se apenas através dela pudesse comprovar conhecimento profundo e consistente. 

Me refiro aqui apenas a dissertações e teses nas áreas humanas, que são as que conheço e me interessam. Mas o que noto é que a situação que descrevi acima afasta da vida real boa parte de toda a produção acadêmica, porque se a linguagem é que rege as relações todas entre as pessoas, quem tenta ler ou faz parte dos pares de quem escreveu, ou pode sentir-se habitando outro planeta. Ou seja, o que é produzido na academia, fica na academia, não ganhando o mundo como deveria. Vou dar um pequeno exemplo, com a reprodução aqui de uma frase, sem citar sua origem e autoria: Quando o ausente se revela na perspectiva conferida por seu apelo, surge o prazer de intuir a esbeltez da ideia sobre a sinuosidade da linguagem. Com tanta profundidade, se fosse na água o autor morreria afogado. E o que ele ganha com isso? Certamente não leitores.

Com a palavra, falada ou escrita, o que se pretende é a percepção e a comunicação sobre todas as coisas do mundo, sejam elas concretas ou abstratas, as que existem como objeto material ou as que ocupam o plano das ideias. Mas o código tem que ser entendido por quem está expressando, emitindo, assim como por quem está recebendo o que foi expressado, emitido. Ou seja, o código tem que ser comum. Se alguém falar alemão, árabe ou mandarim comigo, não pode pretender que eu entenda patavinas. Mal habito o território do português.

Mesmo se admitindo a necessidade da linguagem acadêmica cumprir a função de transmitir sempre uma informação objetiva, longe portanto de manifestações poéticas, denotativas ou carregadas de emoção, o singelo exemplo que dei acima mostra que ela está tentando fazer isso de um modo demasiado hermético. Ao menos é o que predomina e, nesses casos, como já coloquei acima, termina falando apenas para os seus. Os escritos ficam lá dentro e não chegam onde todos deveriam chegar, que é na rua, no acesso à sociedade. Se a universidade não gerar um novo conhecimento, pela pesquisa, pela busca da inovação – e não conseguir tornar isso mais acessível –, ela se torna uma espécie de máquina copiadora: forma acadêmicos para o mercado, que irão substituir seus antecessores, que se tornarão professores para então formar novos acadêmicos.

Não estou propondo que se tome de assalto as reitorias, exigindo que ocorram mudanças. Isso o Governo Federal já vem fazendo, com outros objetivos – aliás, mudando tudo para pior. Apenas penso no quanto seria proveitoso academia e pessoas comuns se aproximarem. Para que ocorra um aproveitamento maior do conhecimento gerado; e também para que as pessoas passem a respeitar as instituições pelo que elas são de fato, deixando de vê-las como algo inatingível, distante da sua realidade. Quando eu era estudante no Julinho, me preparando para o vestibular, tinha um colega que primava pela imensa criatividade em tudo o que fazia e dizia – tornou-se um respeitável profissional da publicidade, o meu amigo Luiz Henrique Lourenço Rosa. Lembro que a gente conversava sobre o que nos esperava na graduação e mais adiante. E ele brincava dizendo que já estava desde aquela época preparando sua tese de doutorado. Nunca esqueci do título absurdo que ele já anunciava: A Influência do Paralelepípedo Cor-de-Rosa no Ciclo Menstrual das Borboletas ao Sul de Cleveland.

É importante salientar que não apenas dentro do meio universitário esse tipo de linguagem transita. Tem muito profissional em pedestal, muito palestrante que se faz admirar justamente não sendo entendido. Em certas ocasiões a frase sem sentido algum se torna inquestionável, porque o ouvinte teme, ao contestá-la, estar se declarando um ignorante. Cada um pensa que só ele mesmo não está entendendo nada e a verborragia vazia ganha ares de racional sabedoria. Mas racionalidade não pode ser confundida com pedantismo. Do mesmo modo que a suposta objetividade que devemos ter, nós jornalistas, não pode ser sinônimo de superficialidade. Com certeza teríamos muito a aprender uns com os outros. E, para que as hipotéticas reuniões não aconteçam nem nas salas das pró-reitorias nem nas redações, podem ser marcadas em campo neutro. Quem sabe nos animados bares onde os estudantes sempre dão um jeito de se encontrar? Que seja depois da pandemia. Tenho certeza que os dois lados têm boas recordações desses ambientes e terão grande proveito.

25.03.2021

Temos bônus em duplicidade, hoje. Primeiro a música Trava Língua, do grupo mineiro Tiquequê. Composto por Diana Talit, Ângelo Mundy, Bel Talit e Wem, eles se dedicam a espetáculos infantis. Essa faixa integra seu DVD Tu Toca o Quê?. Depois é a vez do sucesso internacional de John Paul Larkin, Scatman (ski-ba-bop-ba-dop-bop). Ele fora uma criança que enfrentara sérios problemas com a gagueira e, quando adulto, transformou isso num modo de ganhar a vida, uma vez que cantando ela não se manifestava.

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