Bolo de Casamento é um curta de animação produzido na Alemanha, em 2013, que pode ser enquadrado como romance ou como comédia. Mas, ao mesmo tempo, retrata o drama que é viver a dois. A autora e diretora é Viola Baier, tendo a produção sido feita nos estúdios Filmakademie Baden-Wurttemberg. Nos seus oito minutos e meio de duração, temos uma boa ideia das dificuldades de adaptação pelas quais muitos passam, quando deixam a vida de solteiro e precisam aprender coisas nem sempre simples, como compartilhar espaços e pontos de vista. A ideia como isso é apresentado denota criatividade, uma vez que o conflito se estabelece ainda dentro da caixa onde está sendo levado o bolo que foi produzido para a cerimônia de casamento.

Um relacionamento exige atenção e dedicação constantes. Exige muita paciência e renúncia, um aprender na marra que o “nós” precisa sempre prevalecer sobre o”eu”. E há encruzilhadas constantes. A decisão sobre ter ou não um filho ou mesmo um bicho de estimação, a disputa pela posse do controle remoto da televisão e as frequentemente difíceis questões financeiras. É comparar, confundir, relevar, misturar gostos e necessidades na culinária, no esporte, na política, na moda, no viver. Onde passar as férias; com qual dos ramos das duas famílias originais mais conviver; a superação de antipatias e de inconveniências de amigos e parentes que viraram comuns; questões que são profissionais e muitas vezes invadem o privado. Onde morar, como arrumar a casa e a pouco valorizada necessidade de tempo para si, de solidão e recolhimento que não contrariam a intimidade. Casar com alguém é tornar-se maior ao mesmo tempo em que alguma parte nossa também se anula. Não tem como fugir. É melhorar abrindo mão, é tornar-se outro fazendo todo o possível para não deixar de ser o que sempre se foi. Simplificando: é algo complexo, muito complexo.

Uma das seis histórias curtas do espetacular filme argentino Relatos Selvagens, que concorreu ao Oscar em 2014, relata a descoberta de uma traição, com o conhecimento dessa verdade dolorosa ocorrendo durante a festa de casamento. A mulher recém oficializada como esposa se enfurece de tal forma que destrói o salão onde ocorre a cerimônia. Há lavagem geral de roupa suja, ameaças de morte e até mesmo uma nova e surpreendente traição, que acontece lá mesmo. Na verdade, todo aquele filme é sobre descontrole, que sempre é muito maior quando acompanhado de paixão. O diretor Damián Szifron foi muito feliz ao apresentar uma série de situações nas quais se ultrapassa o limite tênue que existe entre a civilização e a barbárie, entre as declarações de amor eterno e o ódio. O episódio do casamento, que não por acaso é o último, conta com Erica Rivas em atuação muito elogiada. Ela lembra inclusive aquelas mulheres sempre bem retratadas por outro diretor genial, Pedro Almodóvar, trazendo uma receita extrema de romance com drama, muita tensão e suspense.

Na maravilhosa animação citada, a mancha de vinho tinto no vestido da noiva simboliza aquilo que fica marcado, que não sai mais. A mágoa não resolvida na hora, o assunto importante que não deveria ser deixado para depois, se esperando um suposto esquecimento que no fundo a gente sabe que jamais virá. Sintetizando, o segredo de um casamento feliz permanece sendo um segredo. Mas uma boa pista pode estar em longas e desarmadas conversas. Aquelas que parecem curtas para quem delas participa, mesmo sendo na realidade intermináveis. Porque ambos falam e ambos escutam – de modo alternado, lógico –, de tal modo que o tempo passa diferente. Tem casais que são eloquentes até nos seus silêncios. E sabem silenciar nos momentos adequados. Então, se uma aposta pode ser feita, eu diria que todas as fichas devem ser jogadas naquilo que se chama diálogo. Se isso não resolve tudo, o restante a gente deixa para a sorte, o acaso que pode até jogar contra, muitas vezes. Mas que também é parceiro a iluminar boas relações, a partir de boas escolhas.

07.03.2021

O bônus de hoje não é musical. Acessando o link abaixo você pode assistir o curta-metragem de animação Bolo de Casamento, na íntegra. Reserve alguns minutos do seu tempo para isso, porque realmente vale muito a pena.

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