Onze anos atrás, em 2009, um homem negro de 39 anos vai com sua esposa e o filho ao Carrefour de Osasco, São Paulo. Enquanto a mulher faz compras, ele prefere ficar com a criança, no seu carro. Seguranças desconfiam que estava sendo roubada a EcoSport e o espancam sem dar chance de defesa, diante do menino completamente assustado. O documento de propriedade do veículo estava no porta-luvas, mas não houve sequer como mostrar isso aos agressores.

Outubro de 2018, Carrefour de São Bernardo do Campo, São Paulo. Um cliente, deficiente físico, abre uma lata de cerveja dentro da loja. Diante de abordagem do gerente, pediu desculpas e disse que pretendia pagar pelo item ao sair. Foi arrastado por seguranças para um dos banheiros e espancado. Sofreu várias fraturas, passou por cirurgia e ficou com outro problema físico: uma perna mais curta.

Dezembro de 2018, outra vez Carrefour da cidade de Osasco, em São Paulo. Segurança do estabelecimento mata uma cadela a pauladas. O animal de rua tinha idade estimada de cinco anos e era conhecido nas redondezas, não fazendo mal a ninguém. A ordem foi dada pelo gerente da loja, que não queria mais que ela circulasse pelo estacionamento. Importante citar que a cadela nunca havia entrado na loja. Testemunhas viram as agressões. Fotos que a mostravam com as patas traseiras quebradas e toda ensanguentada foram divulgadas nas redes sociais e geraram revolta. A primeira justificativa dada foi que teria ocorrido um atropelamento, o que a polícia conseguiu desmentir. O agressor depois confessou que já tentara eliminar a visita indesejada colocando comida envenenada para ela comer, mas não teve sucesso.

Agosto de 2020, unidade de hipermercado da mesma rede francesa, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Uma auxiliar de cozinha negra sofre injúrias sistemáticas de colega branco e, não suportando mais, denuncia o fato para seus superiores. Em função disso, ela é demitida. Ao buscar pertences para ir embora – celular, carregador, bolsa –, encontra o seu avental com a frase “só para branco usar”. Não é informado se o colega racista e redator sofreu pelo menos uma advertência. Um processo é aberto pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e o fato chega ao conhecimento da GloboNews, que leva a notícia ao público. Depois da enorme repercussão, o grupo Carrefour reconsidera e também demite o homem. Os promotores seguem com a investigação e está sendo pedida indenização por dano moral coletivo e a recontratação da vítima.

Ainda em agosto deste ano, unidade Carrefour em Recife, Pernambuco. Um promotor de vendas do supermercado faleceu enquanto trabalhava. O corpo do cidadão, de 53 anos, foi coberto com guarda-sóis abertos e cercado por caixas de papelão. Isso foi feito para que a loja continuasse em atendimento. Durante quatro horas ele ficou lá, estendido no chão, com os clientes circulando ao seu redor, até a chegada do IML – Instituto Médico Legal.

Novembro de 2020, supermercado Carrefour no bairro Passo D’Areia, na cidade de Porto Alegre. Seguranças agridem a socos e matam um cliente negro de 40 anos que fora fazer compras com sua esposa. Ele teria feito um gesto que uma funcionária entendeu como agressivo. As câmaras internas não mostram isso, mas revelam que ele saiu caminhando calmamente, na companhia dos que o abordaram, em direção à saída. A mulher ficou pagando as compras. Na garagem do prédio, testemunhas registraram com seus celulares ele sendo atingido com uma sequência de socos por um dos agressores, enquanto outro o imobilizava. Ambos eram brancos. Depois, caído ao lado do sangue que marcava o local, foi pressionado contra o chão por longo tempo, com joelhos sobre suas costas. Pediu inutilmente várias vezes que o deixassem respirar, mas acabou morrendo asfixiado. Mais seguranças e funcionários do supermercado estavam junto. Uma mulher inclusive chegou a ameaçar pessoa que fazia gravação das imagens. A polícia, acionada por outros clientes, chegou a tempo de efetuar as prisões em flagrante.

Em todas essas oportunidades o Carrefour divulgou notas oficiais nas quais afirma não concordar com tais comportamentos. Então, fico aqui pensando: como eles são azarados. Tudo aquilo que repudiam termina por acontecer. Imagina se agora seus clientes resolvem também trocar de local onde fazer compras. Como é algo que eles obviamente não desejam, passa a ser muito provável que venha a ocorrer. Vamos ter que ensinar para esses franceses coisas bem brasileiras, que aliás nós herdamos da cultura dos negros escravizados que foram trazidos à força da África. Me refiro a mandingas, benzeduras, arruda e uso de amuletos como proteção, tipo figas e outros que tais. Assim eles poderiam seguir tendo em paz o seu lucro, enquanto nós escaparíamos de alguns espancamentos, deixaríamos animais quietos e manteríamos pessoas negras empregadas e vivas.

21.11.2020

É extremamente difícil pensar em um e escolher bônus musical quando o texto fala da morte de alguém. Qualquer coisa poderia soar como imenso desrespeito. Escolhi mesmo assim colocar porque a vítima da brutalidade era uma pessoa que todos dizem alegre, com facilidade de fazer amigos. Devia então apreciar música. E porque o cantor, deste quase lamento a seguir, é um negro como ele, alguém talentoso como quem me dera. Então, vamos lá: com Gilberto Gil, Não Tenho Medo da Morte, música de sua autoria. Integra o álbum Dois Amigos, Um Século de Música, que é dele com Caetano Veloso.

5 Comentários

  1. Fatos lamentáveis se sucedem..e sempre tem gente com coragem para relativizar esses acontecimento. A tristeza e o desalento só aumentam nesse Brasil verde-anarelo.

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