O ex-presidente dos EUA, Ronald Reagan, republicano como o recém defenestrado Donald Trump, demonstrou todo o cuidado, conhecimento e apreço que eles costumam ter para com a América Latina durante jantar em Brasília, numa rara viagem que mandatários daquele país fizeram ao sul, em muitas décadas. Era dezembro de 1982 e ele estava sendo recepcionado pelo general João Baptista Figueiredo, que ocupava a presidência no rodízio estabelecido no período da ditadura militar. O visitante propôs um brinde, em determinado momento, saudando o “povo boliviano”. Alertado por assessores, tentou disfarçar dizendo que se enganara, citando os habitantes do país que seria sua próxima parada na viagem – aliás, a única que fez ao continente em dois mandatos. Não resolveu e terminou agravando o constrangimento, uma vez que iria daqui direto para a Colômbia. A Bolívia sequer estava em seu roteiro.

Hoje em dia, para os brasileiros mais antenados, seria um alento essa gafe. A Bolívia acaba de dar um grande exemplo de mobilização popular, recolocando a condução do país nas mãos de quem por direito pode e deve exercer o comando. Seu povo deveria ser imitado pelo nosso, que tem fama de pacato, mas na verdade tem é sido omisso, diante dos absurdos cometidos recentemente contra sua própria história, gente, cultura e patrimônio.

Em outubro do ano passado, o presidente boliviano Evo Morales, de esquerda, foi reeleito em primeiro turno para um segundo mandato. Mas o candidato por ele derrotado, Carlos Mesa, se recusou a aceitar o resultado – qualquer semelhança não é mera coincidência. Negando que tivesse ocorrido fraude, o governo concordou que uma auditoria fosse feita. Após esse processo, a própria oposição queimou urnas impossibilitando uma análise séria e confiável. Mesmo aceitando que um segundo turno viesse a ser realizado, o governo reeleito não conseguiu apaziguar os ânimos. Grupos paramilitares começaram a provocar confrontos nas ruas, resultando num primeiro momento em três mortes e centenas de feridos. Houve então marcha de 200 mil mulheres contra o autoritarismo e pedindo respeito à vontade manifestada no pleito. Diante do enorme risco de um derramamento de sangue, o presidente Morales se afasta voluntariamente e obtém asilo político na Argentina. Entretanto, isso não se mostrou suficiente para acalmar a violência dos golpistas, que continuaram fazendo vítimas nas ruas e incendiando o clima político no país.

Um dos exemplos mais gritantes dos excessos inaceitáveis ocorreu com Patrícia Arce Guzman, prefeita de Vinto, na região de Cochabamba. Ela foi espancada por milicianos da extrema direita. Na ocasião teve os cabelos cortados à força, pintaram seu corpo de vermelho, tiraram seus calçados e a obrigaram a caminhar descalça pelas ruas durante quatro horas, até ser resgatada pela polícia. Essa foi apenas uma das humilhações e atrocidades cometidas pelos golpistas. Agora, cerca de um ano depois, ela foi eleita senadora da república com expressiva votação. Melhor resposta impossível. Aliás, pela primeira vez na história do vizinho país as mulheres serão maioria na Câmara Alta (Senado) com 20 das 36 cadeiras sendo delas, o que equivale a 55,6%. Na Câmara Baixa (Assembleia) a ocupação também foi expressiva: conquistaram 62 das 130, ou 47,7%.

Quem governou a Bolívia nesse último ano foi a interina Jeanine Áñez, que nomeou um gabinete conservador ao mesmo tempo em que fazia a promessa de pacificar o país. O que fez foi romper relações com Cuba e Venezuela, adotar medidas favoráveis ao agronegócio, ampliar impostos, usar dinheiro público para pagar dívidas de grandes empresas, autorizar transgênicos de forma indiscriminada e aumentar em 18 vezes os gastos com armamentos. Era seu hábito usar a Bíblia em eventos públicos, como forma de reafirmar seu cristianismo. Mas se notabilizava, também, por manifestações racistas contra grupos indígenas, que são etnia majoritária no país. As eleições de agora só aconteceram por imposição da Assembleia Nacional, pressionada pelo povo. O ex-ministro de Evo Morales, Luis Arce, alcançou quase o dobro de votos do segundo colocado, o persistente Carlos Mesa (55,2% contra 28,9%). E cerca de 8% a mais do que o número que havia garantido antes a reeleição do antigo presidente. O Brasil foi o último dos países do continente a aceitar a vitória do povo boliviano, sendo também o único que não mandou representantes para a posse do eleito. O que não tem nada de estranho.

10.11.2020

O povo boliviano comemorou a vitória de Luis Arce nas urnas e a retomada da democracia

No bônus musical de hoje, o grupo Tarancón canta A Mi Palomita, do folclore boliviano. Essa banda é brasileira, tendo sido criada em 1972. Ao longo de mais de duas décadas gravou 11 álbuns, sempre divulgando a diversidade de ritmos e canções latino-americanas.

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