Dandara foi muito do que não esperavam que mulher alguma fosse, em pleno Século XVII. Uma negra da qual nem se sabe onde nasceu, se em terras brasileiras ou ainda na África, de onde teria sido trazida à força, se a primeira hipótese não for verdadeira. Mas se a origem é indeterminada, determinação foi algo que jamais lhe faltou. Ainda menina, já lutava ao lado de negros como ela, que desafiavam o sistema escravagista que vigorava. Adulta, dividiu com seu companheiro Zumbi o comando do Quilombo dos Palmares, o maior que existiu no Brasil, em seus anos derradeiros. Os primeiros registros que se tem dele são de 1597 e chegou a abrigar mais de 20 mil habitantes. Foi destruído em 1694.

O termo quilombo vem de ochilombo, palavra do idioma Umbundo que significa “lugar de pouso”. Aqui no Brasil foi o nome dado a locais onde se refugiavam negros escravizados que empreendiam fuga, além dos seus descendentes e também alguns brancos. Mas seria equivocado restringir desta forma a sua definição. História e Antropologia há muito destacam que era mais extensa e complexa essa estrutura, que tinha uma dinâmica social própria. Vários se formaram dentro de fazendas decadentes, outros em terras compradas com recursos de alforriados. Depois, não mais se limitaram a pontos rurais, de difícil acesso, havendo inclusive os que se desenvolveram dentro de perímetros urbanos. E continuaram sendo comunidades, mesmo após a liberdade conquistada a duras penas.

Todas as descrições que se encontra de Dandara a apontam como uma heroína. Uma guerreira que dominava técnicas de capoeira e que delas fez uso em várias ocasiões, quando foram travadas inúmeras batalhas para defender Palmares dos ataques sucessivos que recebia. Entretanto, ela também participava da vida cotidiana da comunidade, caçando e se dedicando à agricultura, por exemplo. Para sua subsistência, mantinham plantações de mandioca, feijão, milho, batata-doce, cana-de-açúcar e banana. Mas era nos momentos em que se fazia necessário estabelecer estratégias de resistência que ela se destacava, graças à inteligência e à lucidez que sempre demonstrou.

O líder anterior em Palmares era Ganga-Zumba, tio de Zumbi. Mas ele assinou um tratado de paz com o governo, em 1678, que terminou dividindo o grupo. Pelo documento os negros recebiam permissão para comercializar, garantindo também a libertação de palmarinos presos em confrontos anteriores. O governo ainda aceitava como livres todos os nascidos naquele quilombo, mas exigia em troca que fossem entregues daquele momento em diante todos os que buscassem refúgio no local. Ou seja, reconheciam sua existência mas impediam a continuidade do trabalho de incentivo à libertação dos demais negros, bem como o seu acolhimento. Dandara foi decisiva na não aceitação da proposta, tendo incentivado Zumbi a também rebelar-se contra o absurdo. Na luta pelo poder, desencadeada entre os dois grupos, Ganga-Zumba acabou morto por um dos descontentes com a traição ao ideal libertário.

O Brasil foi o país do mundo que recebeu o maior fluxo de escravos da história. Não por acaso foi onde se concentrou o maior esforço entre os fugidos no sentido de organizar resistência. Por isso a existência de tantos quilombos. Mas nenhum deles foi mais emblemático e duradouro do que Palmares, localizado na então Capitania de Pernambuco e que começou a ser estabelecido no final do século XVI. O local exato era a Serra da Barriga, escolhida por ser região de difícil acesso e vegetação muito densa, que hoje faz parte do território de Alagoas. Sofreu ao longo dos anos inúmeros ataques, sem que os agressores lograssem êxito na sua destruição. Inclusive os holandeses, que haviam invadido parte do nordeste brasileiro, tentaram fazer isso, mas foram também derrotados.

A ofensiva final e vitoriosa contra os negros foi em fevereiro de 1694. O bandeirante paulista Domingos Jorge Velho, contratado a peso de ouro, formou uma milícia de seis mil homens fortemente armados e dobrou a resistência de Palmares, que tinha duas vezes mais bravura, mas um sexto do armamento. O grupo liderado por Dandara caiu, entretanto ela jamais se renderia. Assim, seu corpo voou voluntariamente do alto de uma pedreira, mergulhando no abismo e na escuridão para não voltar à inaceitável condição de escravizada. A alma, que sempre fora livre, se livrava do peso da matéria. E ela entrava de vez na história, com a altivez de quem jamais fora de fato subjugada. Mas Dandara já tinha antes o tamanho da lenda em que se transformou depois do gesto extremo. Conquistou isso pela postura revolucionária e pela coragem com que dedicou toda sua vida à libertação dos negros escravizados.

11.10.2020

Dandara, altiva e corajosa mulher e guerreira

Adendo: Sem Dandara, Zumbi conseguiu sobreviver alguns meses na mata, sendo caçado feito animal. Em 20 de novembro do mesmo ano acabou morto e decapitado. Sua cabeça foi exposta no Paço Central do Recife. Texto da época justifica o ato dizendo que fora feito “para satisfazer os ofendidos e justamente queixosos e, acima de tudo, para atemorizar os negros que achavam que ele era imortal”. Atualmente, a data de sua morte é considerada como o Dia da Consciência Negra.

No bônus de hoje a música Dandara, da N’zambi, uma banda de reggae de Recife. Integra o álbum Kaya, Mas Se Oriente!, lançado em 2012. O grupo apresenta essa canção como sendo inspirada na líder negra, mas também como um manifesto contra a violência que é cometida contra as mulheres em geral.

N’zambi é o nome dado pelo povo bantu, de Angola, ao Deus Supremo que teria criado todos os orixás, os espíritos e os planetas, além dos demais astros existentes no Universo.

2 Comentários

    1. No primeiro parágrafo do texto estava o ano certo: 1694. No último, por erro de digitação, saiu 1894. Agradeço pela observação atenta e pertinente, que permitiu ser corrigido, Amauri. Abraço!

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