Um cidadão grego chamado Eratóstenes, no ano de 240 a.C., foi a primeira pessoa que calculou a circunferência da Terra. Para fazer isso ele mediu o ângulo da sombra de relógios solares localizados em duas cidades diferentes. Dessa forma, não apenas reafirmou que nosso planeta era uma quase esfera, como disse ter 46.620 quilômetros uma linha que a contornasse inteira. Errou, mas foi por pouco, considerando a precariedade dos recursos que tinha à disposição. A sofisticada tecnologia atual aponta para 40.075 quilômetros. Vejam que aquele grego era mais inteligente que todos os terraplanistas que assolam o mundo atualmente, em especial nos EUA e no Brasil. Apenas em nosso país, também estimulados pelos movimentos bolsonarista e evangelista, que se confundem em muitos momentos, já seriam cerca de 11 milhões de pessoas jurando ser real essa baboseira. O que ao menos confirma uma nova tese, que poderia perfeitamente ser proposta e defendida: a do pensamento plano.

Além de jurarem que Deus criou a imensidão do universo apenas para que os astros girassem em torno do disco imóvel onde colocou sua criação perfeita, que somos nós, eles agora também aglutinam outra bizarrice ao seu portfólio: o negacionismo. Esse inclusive com a idolatria de uma tal de Naomi Seibt, que é a porta-voz maior da afirmação de que o aquecimento global não passa de uma mentira. Essa alemãzinha de 19 anos, branca, rica e muito eloquente, vem sendo presença constante em eventos ultra conservadores, apenas para dizer que a sueca Greta Thunberg está errada. Ou seja, que o mundo não está ficando mais quente e o gelo dos polos não está derretendo. Os mares estariam avançando sobre as praias, apenas porque a natureza considera uma imoralidade tantas mulheres de biquini. E ursos polares estariam vivendo um inacreditável surto que os leva ao suicídio, jogando-se ao mar e nadando até a exaustão irreversível.

Essas situações apenas comprovam que a ciência está passando por uma fase de descrédito. Pouco importa se ela comprova que tanto o terraplanismo quanto o negacionismo são insustentáveis, enquanto teorias. Porque as fontes confiáveis de informação estão sendo substituídas por uma rede de desinformação proposital. A produção de conhecimento perde importância e a educação, assim como a arte, está sendo jogada no lixo porque, se a ignorância prospera, a dominação se estabelece. Se faz necessário, para a consolidação de um projeto perverso, que os recursos minguem, que as pesquisas não recebam incentivo, que as universidades sejam acusadas de plantar maconha e favorecer sexo nos seus campi, que o salário dos professores continue sendo uma vergonha, que se passe a taxar livros enquanto armas têm comercialização facilitada.

Mas, mesmo sendo algo proposital, que atenda aos interesses destes grupos, porque tantas pessoas, muitas das quais relativamente bem intencionadas e instruídas, aceitam essa imposição irracional sem discutir? A explicação pode estar num fenômeno já observado em estudos realizados por psicólogos e sociólogos. Estas estariam seguindo uma tendência de necessidade de “confirmação”. Elegeriam como confiáveis apenas fontes de informação que tenham argumentos que corroborem seus pontos de vista, sejam eles expressos ou latentes. Não aceitariam nada que contradiga as suas crenças, por mais absurdas que essas sejam. E quando argumentos não alinhados com seu modo de pensar são apresentados, ao invés de haver condução para um exame racional e uma eventual revisão em opiniões formadas, estes servem apenas para fortalecer seu pensamento original. Isso demonstra também o quanto é inútil tentar convencer essas pessoas de qualquer coisa. Porque estão mergulhadas num comportamento de manada, o máximo que a racionalidade consegue ao confrontá-las é o que em inglês chamam de backfire effect – algo como “efeito tiro pela culatra”. Vivemos então a era da pós-verdade, onde o real e o falso convivem e disputam aceitação. Por aqui, no atual momento, com a vitória inconteste do que não é verdadeiro

19.08.2020

A sensibilidade do cartunista, mostrando um problema sério e atual

O bônus de hoje é o clip da música Terra Plana, do mineiro João Daniel Ulhoa. É uma das faixas do álbum Será Que Você Vai Acreditar?, de Fernanda Takai, lançado agora em 2020.

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