Merece muito ser assistido um documentário que é a minha recomendação de hoje. Falo de A Negação do Brasil, que faz uma viagem histórica pelas telenovelas brasileiras do passado. Mas o seu centro não é descrever o que foi ao ar em que época, mas sim fazer uma análise dos papéis que eram atribuídos nelas para os atores negros. O diretor é Joel Zito Araújo e ele conta com depoimentos de Ruth de Souza, Milton Gonçalves e Zezé Motta, entre outros, além de se basear na própria memória e em pesquisas que foram feitas sobre o assunto. Aponta com rigor o quanto foram sempre estereotipados os personagens a eles destinados, mas também faz um manifesto em favor de uma necessária incorporação de imagem positiva dos negros. A obra foi produzida no ano 2000 e 20 anos depois pouco mudou. Ela dura 91 minutos e tem cópias disponíveis em DVD. Do Youtube, consta ter sido retirada recentemente, atendendo solicitação da Rede Globo, mas vale procurar assim mesmo.

A primeira novela brasileira foi Sua Vida Me Pertence, teve apenas 15 capítulos e foi ao ar entre dezembro de 1951 e fevereiro de 1952, na TV Tupi, de São Paulo, sendo escrita e dirigida por Walter Foster. Mas a que de fato inaugurou repercussão e grande audiência foi O Direito de Nascer, uma adaptação de sucesso do escritor cubano Félix Caignet. Essa foi ao ar outra vez pela Tupi, mas também pela TV Rio, entre dezembro de 1964 e agosto de 1965, com um total de 160 capítulos de 30 minutos cada um. A redação era de Thalma de Oliveira e Teixeira Filho, com direção de Lima Duarte, Henrique Martins e José Parisi. Um fato realmente surpreendente foi que a protagonista era uma negra, a Mamãe Dolores, vivida por Isaura Bruno. Era uma mulher sofrida, abusada, que enfrentou dificuldades terríveis ao longo da vida. A cena final, na qual ela revela a identidade do pai de seu filho, foi tão marcante que acabou repetida em apresentações ao vivo, em teatros e ginásios Brasil afora. A fama meteórica de Isadora não lhe rendeu nada. Morreu alguns anos depois, pobre e vendendo doces nas ruas de São Paulo.

Este é o ponto de partida do documentário, que aponta para o fato de negras e negros só terem feito, desde então e por décadas, papéis secundários, normalmente de empregadas domésticas, jagunços, guarda-costas e motoristas. Presenças totalmente estereotipadas. A Cabana do Pai Tomás (de julho 1969 a fevereiro de 1970), com Ruth de Souza, foi a primeira grande produção da Globo. Mas enfrentou uma sequência de polêmicas. A principal era evidente que viesse a acontecer: escolheram um galã branco da época, Sérgio Cardoso, para fazer o papel-título. Ou seja, pintavam seu rosto de negro, colocavam rolhas nas suas narinas para que ficassem “abatatadas” e introduziam algodão na sua boca, para alterar o modo de falar. Tudo soando absurdamente falso, ao invés de simplesmente o papel ter sido dado a um ator negro. Durante a sequência dos capítulos, pressionada por uma opinião pública majoritariamente conservadora e racista, a direção “rebaixou” o nome da sua companheira na trama, negra que teve nomes de atrizes brancas em papéis menores colocados antes do seu. Para terminar, a novela foi encurtada para fugir dos poucos protestos, surpreendentemente liderados por um ator branco: o também escritor, diretor e jornalista Plínio Marcos.

Seis anos mais tarde (1976) Lucélia Santos, uma atriz branca, fez Escrava Isaura na Rede Globo. A novela se resumiu a um relato oficial, com a narrativa do ponto de vista dos brancos, “bonzinhos” que libertam os escravos por pena do seu sofrimento demasiado. Em Roque Santeiro a viúva Porcina, coerentemente, não fica nem com o mocinho (José Wilker) nem com o capataz negro (Toni Tornado): Regina Duarte foge é com o vilão da história, o Sinhozinho Malta (Lima Duarte) – acho até que o diretor geral Paulo Ubiratan foi um visionário, nesse detalhe. Mesmo com os três finais tendo sido gravados, um deles sequer foi vazado para a imprensa e a dúvida final sempre foi apresentada como apenas entre os dois restantes. A emissora não teve coragem de sequer cogitar que o negro se desse bem, mantendo ao final o seu papel de coadjuvante.

Em todas as novelas criança negra sempre é o moleque de rua, o desamparado, aquele que demanda pena e atendimento. Sendo adolescente é trombadinha ou viciado. As criadas negras na melhor das hipóteses são cômicas, sendo em geral alcoviteiras, maliciosas, preguiçosas e mentirosas. E os homens negros são pau mandado, cometem crimes, assumem culpas, sendo sempre descartáveis. As poucas vezes que não foi assim, confirmaram a regra vigente como exceções. A verdade é que em pleno Século 21, as telenovelas no Brasil ainda não conseguem atender à questão da diversidade racial existente entre nós. Se as produções buscam mesmo aquilo que em geral as emissoras prometem, que é ser um retrato da realidade, falham ao não mostrar alguns detalhes de como o país e seu povo são de fato. Escondem um Brasil racista, para que o Brasil todo não o veja e se envergonhe.

24.07.2020

A presença dos negros nas telenovelas brasileiras

8 Comentários

  1. Solon, parabéns por abordar este tema! Lamentavelmente, é verdade! E hoje em dia não está tão diferente! Geralmente protagonistas de novelas tem que ter beleza e boa aparência, com raras exceções! Nos noticiários, também tivemos poucos apresentadores negros! Hoje temos a Maju e alguns outros poucos! Grade abraço, meu amigo!

  2. Solon, tenho acompanhado teu blog na medida de tantos post q recebo. Muito bom te ler!!!! Gosto muito!!!! Obg por me proporcionar inform de qualidade!!!

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