Um dos tantos absurdos cotidianos que se tem observado nos últimos tempos no Brasil é a mobilização de grupos de pessoas que pedem, nas ruas, a intervenção militar. Primeiro, isso é ilegal. Segundo, revela um total desconhecimento histórico. Assim, a explicação mais racional – se é que alguma racionalidade existe nisso – é creditar a atitude a uma compulsão psicológica: pedem algo que não entendem exatamente o que seja, para aplacar desejos inconscientes, destes que não convêm revelar. Uma idealização, um fetiche – algo que vai além da fantasia, pois atribui ao externo o poder de conceder ou negar o seu prazer. Um prato cheio para profissionais que lidam com saúde mental.

O fetiche pelo fardado vem da associação da imagem com o poder, a autoridade, a potência. Mas ela também é inconteste com a submissão e, em alguns casos, com a dor – tudo muito passível de ser associado à sexualidade. No caso da política, seria como pressupor que o simples uso da farda tornasse o militar mais capaz e competente para tudo. O protetor, o herói, o que conduz para a solução dos problemas reais ou imaginários. A mocinha e o machão manifestantes estão é sequiosos por um colo protetor. Ou por algo mais intenso. Acontece que é muito perigosa a dissociação entre a imagem que têm dos militares e os seus atos reais. Ver todos eles como “reserva moral” da nação, independente do que fizeram ou fazem, é um equívoco que inclusive pela imprensa vem sendo cometido. Cada vez que o presidente cria uma crise – e isso é quase que diário –, em geral por verborragia inconsequente, seja ela proposital ou não, correm repórteres a buscar informações sobre como tal desinteria foi recebida pela “ala” militar. E com isso a mídia realimenta uma confusão de sentimentos na população. No mínimo de medo, entre os que não comungam com essa visão e temem retrocesso; e de reforço na admiração, entre os que suspiram por eles.

Convém lembrar aqui que as sex shop vendem muita roupinha de enfermeira e professora, mas as mais sofisticadas também oferecem fardas estilizadas. E existe boa saída de algemas e chicotinhos. Não foi à toa que a Tiazinha fez tanto sucesso anos atrás, aparecendo na televisão de roupa de couro preta e justa, máscara e com um deles nas mãos. Nos EUA algumas produtoras de filmes pornô são especializadas em sadomasoquismo. Entre quatro paredes o “me bate, me bate” é muito mais comum do que se imagina. Talvez hoje calcinhas verde-amarelas estejam no agrado mais do que as tradicionais vermelhas. E não sei se algum fabricante já está produzindo consolos e plugins com o nome do Mito gravado, mas se ninguém está fazendo estão perdendo dinheiro.

Neném Prancha (1906-1976), que começou como roupeiro e chegou a técnico de futebol – apelidado carinhosamente de filósofo pelo jornalista Armando Nogueira – imortalizou a frase “Se macumba desse certo o campeonato baiano terminaria sempre empatado”. Se o uso da farda desse automático saber, astúcia, inteligência e capacidade estratégica para todos, as guerras também terminariam 0x0, sem vencedores e vencidos. Mas tem quem prefira seguir no pensamento mágico. Entope o Ministério da Saúde de milicos e todos eles, por osmose, se tornam experts em saúde pública, medicina, enfermagem e epidemiologia. As doenças batem em retirada do campo de batalha e o combate é vencido sem baixas. Deste modo, com fardados em todos os cargos importantes do governo, automaticamente o Brasil deixa a relação de países subdesenvolvidos e se torna líder no chamado Primeiro Mundo – foi por isso, essa competência toda, que durante o período da ditadura militar a nossa dívida externa cresceu quase 32 vezes, pulando de US$ 3,294 bilhões para US$ 105,171 bilhões, o que em valores de hoje equivalem a estratosféricos US$ 1,2 trilhão.

Segundo informações de novembro de 2019, apenas outros dez países em todo o mundo aplicam mais recursos nas Forças Armadas do que o Brasil. O orçamento é de US$ 29,3 bilhões – cerca de R$ 123 bilhões. Em comparação com a Argentina, temos quatro vezes mais pessoal, três vezes mais aeronaves, o dobro de veículos terrestres e quase o triplo de embarcações. Isso que eles são os nossos vizinhos melhor armados. Assim, essa estrutura toda tem muito mais razões internas do que externas. Para comparação, também no ano passado foram investidos R$ 122,6 bilhões no SUS. Com nossas fronteiras bem defendidas, podemos morrer felizes aqui dentro. Sem o atendimento necessário na área da saúde, mas emocionados com o verde-oliva das fardas sendo outra vez a cor da moda. E dos sonhos nem mais secretos de alguns.

16.06.2020

8 Comentários

  1. Ainda bem que muitos estão acordando, ainda assim o Brasil parece um hospício a céu aberto, os malucos ganharam espaço.

  2. O povo brasileiro está vivendo o rebote dá desinformação, estratégia do Regime militar. Muito lúcida a tua crônica Sólon. Parabéns

  3. Na tua finíssima ironia, Solon, consolidamos o que dizes depois, aqui em resposta aos comentários: o problema são as reais distorções do que compete e do que não compete às Forças Armadas.

    Lembrei da década de 70 e do uso da tarja U.S. ARMY no bolso das camisas.
    À época, andávamos em fila, e os desfiles em setembro eram de muita farda e … de pesados fardos!
    Na parafernália dos uniformes embandeirados de hoje, quem sabe até Augusto Comte se retorcesse de raiva diante das distorções gravíssimas que resultaram do seu Positivismo.
    🙋🏻‍♀️

    1. A coisa anda tão louca que agora brasileiros patriotas são os que usam bandeiras dos EUA e de Israel nas manifestações. Quem sai na rua com taco de beisebol é protegido pela Polícia Militar e quem pede democracia corre risco de apanhar. Mas vamos em frente, para ver no que vai dar. Abraço!

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