O tenente-coronel Paul Tibbets provavelmente tenha sido o homem que sozinho, em toda a história, tenha tirado a vida do maior número de pessoas. Ele era o piloto do avião B-29 da Força Aérea dos EUA, apelidado de Enola Gay, que conduziu e disparou a cerca de 31 mil pés sobre a cidade japonesa de Hiroshima, uma bomba atômica. Jamais antes daquela manhã da segunda-feira, 06 de agosto de 1945, esse tipo de arma havia sido utilizado – a apenas uma vez mais foi depois: três dias mais tarde, sobre Nagasaki, outra cidade japonesa e com iguais consequências trágicas. O “presente”, chamado de Litlle Boy (Menininho) apesar de pesar 4,4 toneladas, explodiu 600 metros acima do solo, como era previsto. Seus 65 kg de urânio enriquecido (U-235) iniciaram então uma devastadora reação em cadeia, reduzindo a localidade a cinzas.

Ao ruído ensurdecedor seguiu-se a formação de um cogumelo de cores amarela e laranja, que cresceu como uma flor gigantesca brotando do solo – alcançou cerca de 16 quilômetros de altura. E uma onda de choque e de fogo de milhares de graus centígrados foi se propagando sem ser detida por nada. Em instantes, 80 mil pessoas estavam mortas. Número igual de feridos, quase todos em carne viva devido à radiação, foram morrendo nos dias seguintes, dobrando o número das vítimas iniciais. Sobreviventes que estavam vários quilômetros distantes do epicentro da explosão passaram a desenvolver enfermidades, como câncer, tendo um sem número deles também ficado surdos e cegos. Seguiu-se um desastre ambiental, com a destruição da cobertura vegetal e chuva ácida contaminando plantações, lagos e rios.

O poeta carioca Vinícius de Moraes, no ano seguinte ao ocorrido em Hiroshima, foi responsável por uma segunda flor ser lançada sobre a cidade. A região ainda sofria os efeitos colaterais do ataque e seguia perdendo pessoas, mas as palavras lavradas em português choravam com ela seus mortos e tentavam dividir dores e emoções. Trabalhado como um origami, delicado como se fosse feito em papel washi – tão fino como a pele humana –, o poema consegue também ser muito forte. Trata-se de um apelo para que não se esqueça nunca mais o que houve e se guarde também na memória o tamanho da estupidez do ato. Um pedido para que se pense nas vítimas, nas mulheres e seus filhos. Até porque o alvo não foi militar e sim a população civil. Ele é feito um grito, mas repleto de silêncios.

Marcus Vinícius de Moraes nasceu e morreu na cidade do Rio de Janeiro (1913-1980). Além de poeta ele foi compositor, cantor, dramaturgo e jornalista. Também seguiu carreira diplomática, na qual ingressou por concurso e chegou a ser vice-cônsul do Brasil em Los Angeles, tendo também trabalhado em Paris e Roma. Em 1968 foi compulsoriamente aposentado pela ditadura militar, que acionou contra ele o AI-5. Sua produção em geral lírica foi notabilizada pelos sonetos. Tom Jobim o chamava carinhosamente de “poetinha”. Mas o diminutivo nunca o retirou da relação dos maiores, em nosso país. Era boêmio, apreciador de um bom uísque e fumante. Na música, teve parceiros como João Gilberto, Chico Buarque, Toquinho e Baden Powell, entre outros – foram 31 álbuns lançados de 1956 até 2015, os últimos obviamente póstumos. Na literatura, escreveu quatro peças teatrais e teve 20 livros de poesia.

A terceira flor foi consequência da segunda. O guitarrista Gerson Conrad musicou o poema de Vinícius, em 1973. Isso deu uma visibilidade muito maior ao texto original, tendo se tornado uma das faixas mais tocadas do primeiro álbum gravado pelos Secos & Molhados. Gerson era um dos três integrantes do grupo, que se tornou um fenômeno musical na época. Os outros eram João Ricardo (violão, harmônica e vocais) e Ney Matogrosso (vocais). Na voz deste último o poema ecoou nos ouvidos e reavivou a memória das pessoas. A expressão da barbárie voltava com força, mas paradoxalmente com suavidade e doçura.

14.06.2020

No link abaixo, apresentação ao vivo com Ney Matogrosso cantando Rosa de Hiroshima.

6 Comentários

  1. Representa bem o poder maléfico que domina o mundo…a capa de mocinho ainda engana muita gente, mas as atrocidades não podem ser escondidas.

  2. Sobre a história da bomba atômica e suas consequências, nem vou comentar, tudo que eu disser será pouco pelo tamanho do estrago. O poema de Vinícius de Moraes trata de uma das maiores tragédias que este mundo já presenciou. Sobre a música com Secos e Molhados que é muitíssimo bem interpretada pelo Ney Matogrosso, que ela continue tocando sempre, para que um registro triste como este, jamais caia no esquecimento. Belo texto! Abraços, meu amigo..

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