O futebol, como modernamente é conhecido, nasceu falando inglês. As regras estabelecidas na Inglaterra, em 1863, mudaram muito pouco. Não se pode dizer o mesmo do mundo, que sofreu alterações profundas no mesmo período. No mínimo, falando em ambos ao mesmo tempo, se pode afirmar que o futebol se expandiu e o mundo encolheu. A expansão veio pela aceitação deste esporte como sendo o preferido em quase a totalidade dos países – hoje ele é poliglota –; o encolhimento deu-se pela aceleração dos meios de transporte e de comunicação.

É bastante fácil entender o jogo de futebol, que também é muito barato e democrático. Fácil porque, como se disse antes, as regras são simples e se alteram pouco; barato porque basta uma bola, seja comprada ou mesmo improvisada com trapos, papel e cordas, além de um campinho qualquer; democrático porque qualquer um pode jogar e se divertir, com as dúvidas sendo resolvidas na hora, por um árbitro ou por consenso entre quem esteja disputando a “pelada”. Uniformes, traves e redes, torcida, estádio e cobertura da mídia, tudo é detalhe não imprescindível. A não ser que se queira falar do profissionalismo, que é outra coisa e que, este sim, veio se alterando bastante – quase tanto quanto este nosso planeta quase esférico.

Franklin Foer é norte-americano. Por isso, num primeiro momento pode parecer que não tenha muito interesse no “esporte bretão”. Na terra dele, o que chamam de futebol não tem nem grande nem pequena área demarcadas, mas sim traços no chão, que marcam as suas 120 “jardas”. E as goleiras, pasmem, são altíssimas e em forma de uma letra H maiúscula. Isso sem contar o maior dos absurdos, que é bola ser oval. Ele é escritor, foi editor da The New Republic, uma revista opinativa de tendência liberal, com sede em Nova Iorque, mas hoje atua na The Atlantic, revista literária e cultural de Boston. Pois ele decidiu, tempos atrás, sair pelo mundo para conhecer e relatar histórias sobre equipes e personagens ligados ao futebol. O do mundo, não o deles – até porque nesse caso nem precisaria viajar.

O resultado foi o interessante Como o Futebol Explica o Mundo – Um olhar inesperado sobre a globalização. O livro aglutina dez relatos diferentes, sobre o que ele encontrou em países distintos, mas girando sempre entorno da bola. Escreveu sobre o Estrela Vermelha, de Belgrado, sua torcida violenta e os conflitos com a polícia e os simpatizantes do Partizan. A rivalidade religiosa entre os católicos do Celtic e os protestantes do Glasgow, na Escócia. A questão judaica e o antigo time do Hakoah, que brilhou na Áustria nos anos 1920. Sobre os hooligans – apelido de torcedores violentíssimos, que agem como sendo milícias – do Chelsea e seu ódio contra quem veste a camisa do Tottenham. Conheceu e contou a história e o comportamento pouco ortodoxo do já falecido “cartola” Eurico Miranda, do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro.

Escreveu também sobre o racismo exarcerbado existente na Ucrânia e a loucura que foi um dos seus times contratar jogador negro vindo da Nigéria. Na Itália, relatou causas e consequências do envolvimento de Milan e Juventus com a política. Falou do separatismo da Catalunha, dando combustível ao Barcelona e à rivalidade com o Real Madrid, na Espanha. Se debruçou sobre a revolução que o futebol de certa forma ajudou a implementar em costumes do Irã. E finalizou em casa mesmo, discorrendo sobre a verdadeira guerra cultural travada para a introdução deste esporte no território dos Estados Unidos.

São 223 páginas de uma leitura que pode ser considerada leve. Mesmo que ela retrate certas situações que não podem orgulhar torcedor de time algum. Pelo menos se trata de uma abordagem não usual. Não se lê nada sobre o jogo em si, as táticas e estatísticas, a história de ídolos e suas vitórias. Tenta é realizar uma radiografia, não do corpo todo, mas de alguns órgãos deste muito vivo futebol e deste muito louco mundo. Não fala de selecionados, mas a seleção de tão distintos temas torna o resultado interessante. Merece a recomendação.

12.06.2020 

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