O britânico Charles Spencer Chaplin foi um dos homens mais conhecidos e admirados do mundo do cinema. É difícil quem não tenha visto ao menos um dos seus 13 longas-metragens e 65 curtas, em boa parte dos quais representava o lendário personagem que no Brasil ficou conhecido como Carlitos – na Europa era Charlot –, um quase mendigo que sobrevivia graças à esperteza e um tanto de sorte. Chaplin foi um revolucionário na história do cinema. Quase a totalidade de sua produção foi em fitas mudas e em preto e branco. Mas a sua capacidade de emocionar, a aparente simplicidade dos seus filmes – na realidade fruto de um grande perfeccionismo, que o fazia repetir à exaustão cada take, quando achava necessário – e o domínio da técnica disponível o elevaram a um nível difícil de ser alcançado por outros cineastas.

Ninguém soube usar tão bem a expressão corporal e a mímica, elementos que ganhavam importância especial no cinema mudo. Slides com falas pontuais eram intercalados em algumas poucas cenas, nas quais poderia ficar qualquer dúvida sobre o que se passava, apesar da representação ser quase sempre suficiente. Sua carreira esteve dividida entre o velho mundo e os EUA. Ela começou quando ele ainda era criança, com participações teatrais no Reino Unido, durando até seus 88 anos. Costumava não apenas atuar e dirigir, mas também escrevia, produzia e financiava seus próprios filmes. E em 1919 foi um dos fundadores da United Artists. Na vida pessoal, esteve envolvido em situações no mínimo controversas: além da incerteza quanto a ter ou não ascendência judaica, causou polêmica por não ter lutado na primeira guerra mundial e casou-se quatro vezes, aos 28, 35, 47 e 54 anos, sempre com mulheres muito mais jovens do que ele – adolescentes mesmo –, algo moralmente questionável e até mesmo criminoso em outras épocas ou locais.  

Apesar de boa parte da crítica especializada apontar Em Busca do Ouro (1925) como sendo o seu melhor filme, ouso indicar outros quatro para quem quiser ter uma boa ideia do talento de Chaplin. Nos que aponto, ele passeia por questões sociais, critica os excessos capitalistas e denuncia o fascismo. O primeiro é O Garoto (1921). Uma mãe desesperada abandona criança em limousine, esperando que a mesma tenha vida melhor do que a sua. Mas o veículo é roubado e o menino termina numa lata de lixo, onde é encontrado por Carlitos, que cuida dele e o cria com muito carinho. O segundo é Luzes da Cidade (1931). Outra história comovente, com o vagabundo se apaixonando por uma florista cega. Ele a ajuda com dinheiro que recebe de um milionário bêbado, que o recompensa por lhe ter salvo a vida – a mulher imagina que os recursos são dele mesmo. Quando ela volta a enxergar, ele se afasta envergonhado pela sua real condição.

Em Tempos Modernos (1936) se vê o homem coisificado, transformado em máquina produtiva. Empregado em uma fábrica, o protagonista passa por muitos percalços tentando se adaptar numa absurda linha de produção. Entre passagens pela prisão, conhece uma menina órfã com quem passa a lidar com as dificuldades da vida. O último dos recomendados é O Grande Ditador (1940). Este filme já tem áudio e conta a história de um barbeiro judeu que fica anos num hospital e não acompanha a ascensão de um ditador fascista, de quem é sósia. Ao estilo de O Príncipe e o Mendigo (um clássico escrito em 1881 por Mark Twain), acaba por acidente confundido e ficando no lugar do enlouquecido Hynkel – uma sátira de Hitler. E o discurso que faz para as tropas e a população do país, no final da narrativa, são icônicos.

Em 1992 Richard Attenborough dirigiu Chaplin, um filme sobre a vida dele, tendo conseguido três indicações para o Oscar – Melhor Ator, Melhor Direção de Arte e Melhor Trilha Sonora. Nos papéis principais estavam Robert Downey Jr. e Geraldine Chaplin, sua filha na vida real – ele teve seis no total –, que interpretava a própria avó. Charles Chaplin morreu dormindo, ao sofrer derrame cerebral, no dia de Natal de 1977. Foi na Suíça, tendo havido apenas um pequeno funeral privativo, como era seu desejo. Foi enterrado no cemitério comunal, mas não há como acreditar em sua morte cada vez que se vê Carlitos, com seu chapéu e bengala tradicionais, caminhando daquele modo peculiar, nas telas do cinema ou na televisão.

04.06.2020

O bônus de hoje é o discurso feito pelo sósia do fascista em O Grande Ditador. Som original, mas com legendas em português.

4 Comentários

  1. Difícil acrescentar alguma coisa após ler estre belo texto. Além de tudo, um gênio na arte de interpretar, especialmente em uma época carente de tecnologia, onde você tinha que se fazer entender, sem poder falar! E graças ao talento de Chaplin, a indústria cinematográfica (sétima arte), aprendeu, evoluiu e felizmente continua nos presenteando com grandes produções! Valeu pelo texto, amigo! OBS: Já fui operador de máquinas no CINE LUX, de Nova Prata (no período de 1974 a 1976).

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