O Ginásio da Brigada Militar, uma estrutura imponente que ocupava a esquina da Av. Ipiranga com a Silva Só, no bairro Santa Cecília, em Porto Alegre, foi construído em 1963 para ser uma das sedes da Universíade – competição multiesportiva com participantes do mundo todo, organizada pela Federação Internacional do Desporto Universitário (FISU), conhecida também como World University Games. Era uma arena com capacidade para sete mil pessoas, demolida recentemente. Este local sediou depois competições de futsal, vôlei e basquete, mas viveu seus tempos áureos, poucos depois de concluído, ao abrigar um evento dominical que se tornou fenômeno na época ao ser transmitido ao vivo pela televisão: o Ringue Doze. O nome era devido ao canal 12, pelo qual se recebia o sinal da TV Gaúcha, atual RBS TV.

Esse era um espetáculo que hoje em dia soaria entre o extravagante e o ridículo, mas que conseguiu atingir um índice de audiência que jamais foi batido, na televisão no Rio Grande do Sul: 93% dos televisores ligados chegaram a estar sintonizados naquele canal e horário, no entardecer dominical. Durante seis anos, entre 1964 e 1969, nenhum outro programa conseguiu chegar sequer perto de gerar tal interesse. A atração era comandada pelo jornalista Éldio Macedo – o primeiro negro à frente de um programa em nosso Estado –, o que lhe rendeu notoriedade e convite para depois seguir carreira no Rio de Janeiro, onde assumiu a direção de esportes na TV Rio e também trabalhou na Rádio Nacional e na Manchete Esportiva.

Ringue é um tablado quadrado que se eleva a cerca de um metro do solo, com postes almofadados nos quatro cantos e fileiras de cordas ligadas a eles, com tensores. Não é igual ao que se vê atualmente nas lutas de UFC, disputadas em octógonos que têm grades rígidas parecendo gaiolas, que dificultam um pouco a visão de quem acompanha as disputas no local. Estes antigos eram como os destinados ao boxe. Mas a pugna apresentada em Porto Alegre nada tinha relação com o pugilismo, chamado de “esporte nobre”. Importante também dizer que essa luta livre de duvidosa seriedade não era exclusividade do sul. Havia disputas semelhantes no centro do país, como o Telecatch Montilla (TV Globo) e Os Reis do Ringue (TV Record), apesar da receptividade no Sul ter sido muito maior. E sua origem vem de ainda mais longe: no México a “lucha libre” é uma tradição de cerca de cem anos, também com simulações encenadas por atletas profissionais, com golpes e resultados previamente combinados. Por lá ganhou mais força ao se organizar como liga, durante os anos 1930.

Naquele estrado, erguido no centro da quadra, o que se via era um festival de golpes e voadoras, em lutas nas quais sempre se sabia quem sairia vitorioso. O elenco de lutadores/atores era dividido entre “mocinhos” e “bandidos”, se enfrentando em vários confrontos por noite, um contra um dou dois contra dois – as conhecidas “australianas”. Normalmente os primeiros apanhavam bastante, antes de uma reação inacreditável que lhes rendia nova vitória para a coleção. A única coisa real que existia, por incrível que pareça, era o sangue. Vez por outra um dos contendores escondia gilete na roupa, com a qual fazia pequenos cortes no supercílio do adversário, o que era previamente combinado e dava um efeito fantástico.

Uma das marcas dos “bandidos”, também chamados de “sujos” pelos aficionados, era a deslealdade. Alguns traziam soqueiras que usavam, com os juízes fazendo que não viam, gerando maior indignação de quem assistia no ginásio ou em casa mesmo. O que pouco adiantava, porque sua derrota estava no script que seria cumprido à risca. O grande herói escolhido como “mocinho” pelos fãs foi, sem dúvida alguma, Ted Boy Marino – era natural da região da Calábria, Itália, mas veio com a família para Buenos Aires, onde foi sapateiro antes de se dedicar à luta livre e morar no Brasil. Mas outros brilharam, dos dois lados, como Fantomas, Aquiles, Homem Montanha, Tigre Paraguaio, Verdugo, Vingador, Cigano e Mongol, entre tantos. Todos protagonistas de uma farsa burlesca e inconsequente. Sem dúvida, chega a dar saudade deste período romântico, de televisão em preto e branco, sem satélite e sem celular, de uma ingenuidade ainda não contaminada e no qual se tinha a certeza que os maus não iriam vencer no fim. Mesmo quando beneficiados por juízes oportunamente cegos.

06.06.2020

Ted Boy Marino (foto) também lutou em programas no Rio de Janeiro e São Paulo. E chegou a integrar o elenco de Os Trapalhões.

10 Comentários

  1. Que bela recordação…o programa da família…grandes pegas entre os parentes…uns defendendo que eram reais..outros que era encenação…mas no fundo, todos se divertiam.

  2. Bela lembrança. Eu era guri, tinha uns 10 anos, e via na casa de vizinhos. Depois a gente passava o resto da semana fazendo “lutinha” e chegando de olho roxo em casa. Na boa.

  3. Só quem viveu aquele tempo para ter noção do que representava. Bela lembrança. A gente assistia em grupo
    e a torcida para os mocinhos era grande

  4. Bah, tempo inesquecível, vivi tudo isso intensamente, me emocionava e sofria com o mocinho, mas no final, tudo terminava bem! Como na minha casa tínhamos uma sala grande e os vizinhos e parentes não tinham televisão, os domingos a noite na minha casa eram agitados. Pelo menos umas 20 pessoas faziam parte dos espectadores que sofriam durante as lutas na sala da minha casa. Mas no final, iam pra casa satisfeitos com o final feliz. Espero até hoje para que alguém tire a máscara do Verdugo, he, he, he… Só faltou uma coisa Solon, citar o patrocinador: Ringue Doze Marinha Magazine! He, he, he. Excelente texto e grande resgate da nossa TV. Muita saudade deste tempo bom! Grande abraço…

  5. Muito fui fã. Nao perdia uma luta. Em uma recente viagem ao México fiz questões assistir a “Lucha Libre” num ginásio enorme e superlotado. O roteiro é o mesmo, mas é de lá a origem desse espetáculo. E o que dizer do limão escondido no calção? E o juiz vendido? O mais fantastico é a nossa ligação infantil com o espetáculo. Como crianças que pedem que contemos pela décima vez a mesma história, cujo final já conhecem, assistimos as lutas que sabemos serem encenações, mas que não nos impedem de torcer. Essa conexão com o mundo infantil e maniqueísta é a origem do fascínio pela luta livre. Ou como eu dizia o “catch as catch can”.

    1. De juiz vendido seguimos tendo experiência. Mas de fato, associar tudo com o mundo maniqueísta é apropriado. Difícil encontrar alguém daquela época que não ficasse fascinado. Abraço, Ricardo!

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