Mesmo havendo sérias e bem fundamentadas dúvidas sobre a real capacidade de Jair Messias Bolsonaro realizar a interpretação de textos que porventura lesse, surge agora a informação de que um livro, escrito e jamais publicado, tem servido de referência para boa parte de suas atitudes, enquanto permanece presidente da República. Trata-se de uma obra escrita nos estertores da ditadura militar que perdurou no Brasil por 21 anos, entre 1964 e 1985. Quando da sua desarticulação, muitos textos surgiram trazendo uma série de revelações e denúncias contra as ações dos militares, o que fez com que o discurso predominante passasse a ser dos setores antes reprimidos, no entender deles. E sua reação foi determinar a redação de uma narrativa que fizesse um contraponto a isso. Esse documento, que nunca chegou a ser publicado na íntegra, existe e está à disposição da parte do grupo fardado que tem dado sustentação ao atual governo.

Na época este projeto, que foi concluído com o aval do então Ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, já quando José Sarney era o presidente da República, recebeu o nome de Orvil. Era a palavra “livro” escrita ao contrário, justo para significar que contariam uma história ao inverso das verdades inconvenientes que não paravam de vir à tona. Em especial o livro Brasil Nunca Mais os incomodava profundamente. Essa verdadeira “bíblia” sobre a tortura praticada por elementos da Forças Armadas contra cidadãos brasileiros foi resultado de um grande esforço desenvolvido clandestinamente, entre 1979 e 1985. Ele foi coordenado em conjunto pelo arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor Jaime Wright. Ou seja, por uma improvável equipe que unia católicos, judeus e presbiterianos, que produziu um documento relevante para o entendimento desta parte da história do Brasil.

O Orvil é ainda hoje visto como secreto, tem quase mil páginas e apenas 15 cópias. Parte do seu conteúdo vazou pela primeira vez na internet, no ano 2000. Pouco depois o assunto foi alvo de boas reportagens investigativas, por jornalistas que tiveram oportunidade de acessar os originais. Há detalhamento sobre a participação de estudantes universitários e secundaristas em ações de resistência, bem como providências que eram tomadas para minimizar isso. Também sobre a censura e perseguição a professores, artistas e intelectuais. Quem se opunha à violência oficial e ao cerceamento das liberdades é apresentado não como opositor ao regime, mas como inimigo da democracia, comunista, elemento subversivo. Além das prisões, tortura e morte, outras armas são indicadas como relevantes nos relatos de seu combate. A intimidação, a ameaça – para incutir medo –, a difamação, tudo servia e deveria ser continuamente aplicado. Infiltrar elementos nos grupos de ideologia diversa era outra prática recorrente relatada como necessária e normal. O “tiro no pé” é dado em trechos da publicação, nos quais admitem ações antes negadas pela oficialidade, incluindo detalhes sobre mortes de pelo menos duas dúzias de militantes até hoje tidos apenas como “desaparecidos”.

O livro é a busca da legitimação da violência de estado. Explica que contra um inimigo externo ela pode e deve ser aplicada, inclusive internamente. O grande problema reside em determinar quem e em que circunstâncias tem o direito e o dever de identificar esse risco. Porque não raras vezes ele é apenas imaginário, enquanto a dor que a reação causa é sempre real. Agora o coronavírus é comunista, assim como a Globo e a Folha de São Paulo. Os médicos cubanos, que foram expulsos e fazem falta, eram um comando avançado, com treinamento militar. Hoje estão vendo comunistas escondidos na areia da praia de Copacabana. Na pré-escola dos nossos filhos. Talvez na goiabeira, conversando com Jesus. E quando o delírio usa faixa presidencial, fica realmente difícil acreditar que vamos sair dessa sem perdas que ainda iremos lamentar.

08.06.2020

A caricatura de Bolsonaro foi feita pelo pernambucano André Bethlem, que está radicado no Rio de Janeiro. Foi selecionada e exibida no Salão Internacional de Humor de Piracicaba, em 2017.

4 Comentários

  1. Não me surpreende que este tipo de livro seja a bíblia do atual presidente. Surpreendente, como disseste, é que ele consiga ler algo.
    Excelente texto, Sólon!

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