Aquela deve ter sido uma das maiores atuações de Maradona, com a camiseta da Seleção Argentina. O jogo era eliminatório e valia uma vaga nas semifinais da Copa do Mundo de 1986. Aos cinco minutos do segundo tempo ele partiu conduzindo a bola na direção da área inglesa, em jogada pessoal. Três adversários não o detiveram. Quase na linha de entrada, tentou tabela com Valdano e um defensor interceptou a bola. Mas pegou mal nela, que acabou alçada na direção de seu goleiro. O camisa dez argentino prosseguiu na corrida e pulou, dividindo. Não alcançou com a cabeça, mas deu um sutil toque com a mão e abriu o placar. O gol irregular foi validado, mesmo diante de protestos, com os sul-americanos saindo na frente. Ao final do confronto, que terminou com vitória da Argentina por 2×1 sobre a Inglaterra – o segundo gol também foi dele, um dos mais lindos de toda a história das Copas –, a pergunta que não poderia deixar de ser feita: – Foi com a mão? E a resposta sublime aos jornalistas e ao mundo: – A mão foi de Deus!

Estava perpetrada uma pequena vingança contra a seleção do país com quem estiveram em guerra até quatro anos antes. O conflito começou quando a Argentina, cansada de esperar pela devolução das Ilhas Malvinas, ocupadas pelos europeus desde 1833, resolveu retomar militarmente a área. Isso interessava à ditadura militar argentina, já ameaçada pela exaustão do povo diante da falta de liberdade e crises econômicas sucessivas. O arquipélago fica bem próximo à província mais meridional do nosso vizinho, chamada oficialmente de Terra do Fogo, Antártida e Ilhas do Atlântico Sul, na região da Patagônia. E dista cerca de 13 mil quilômetros de Londres. A reação britânica foi imediata, com o deslocamento de tropas, o que resultou em confronto armado que durou três meses e meio, custando a vida de 649 argentinos e 255 britânicos, em números estimados, uma vez que jamais houve de parte à parte a confirmação oficial.

Em 2005 foi revelado que a primeira-ministra Margaret Thatcher exigira do presidente francês François Mitterrand que fornecesse os códigos de desativação dos mísseis Exocet que a França havia vendido para a Argentina. Isso os tornaria inoperantes, incapazes de visualizar e atingir os alvos. Ela teria ameaçado que, sem os códigos para defender seus soldados, atacaria no continente sul-americano, usando armas nucleares. Queria reduzir as perdas, que já estavam incomodando a opinião pública em seu país. Os argentinos conseguiram abater 34 aviões inimigos e afundaram oito navios, entre eles dois destróiers e duas fragatas, além de avariar outros 11. Esses são os números oficiais admitidos pela Armada Britânica, que nunca puderam ser confirmados, sendo razoável acreditar que propositalmente diminuídos. Acesso aos documentos oficiais serão permitidos apenas no ano de 2082.

Foi o possível, diante da disparidade de forças. A diferença de equipamentos também era gritante. Os soldados argentinos congelavam, com roupas inapropriadas, enquanto os ingleses tinham fardamentos aquecidos, óculos para visão noturna, armas mais precisas. A autonomia de voo de alguns modelos de aviões argentinos era pequena, permitindo que fizessem exatamente o percurso até o arquipélago, rente ao mar na ida e na volta, para escapar dos radares. Descarregavam seus mísseis e voltavam. Qualquer demora nisso fazia com que não conseguissem mais retornar até a costa: vários caíram no mar, por falta de combustível e não pela pontaria da artilharia antiaérea. Existe relato impressionante de um piloto que foi voando e voltou a nado, merecendo a condecoração recebida.

Maradona foi bicampeão mundial, com sua seleção vencendo a Alemanha por 3×2 na final. Fez cinco gols na competição, ficando um atrás do artilheiro Gary Lineker. A ditadura argentina chegou ao fim e tem, atualmente, menos chance de renascer do que a brasileira. As Malvinas continuam ocupadas pelos britânicos, mas os dois países mantêm relações diplomáticas, mesmo sem muita cordialidade. Margaret Thatcher morreu em 2013, deixando muita saudade aos neoliberais. E provavelmente ao cabelereiro responsável por armar todos os dias aquela estrutura que a deixou famosa, sendo sua marca registrada junto com a incapacidade de sorrir.

11.05.2020

A caricatura foi feita pelo argentino Gonza Rodrigues.

2 Comentários

  1. La mano de Dios! Quem não lembra? Lamentavelmente, a maioria dos torcedores apaixonados pelo seu time, geralmente compactuam com jogadas deste tipo, enaltecendo “LA MANO DE DIOS” e centenas de outras jogadas polêmicas que conhecemos dentro desse esporte. Mas o engraçado é que a mesma jogada, se for do time adversário, aí tem revolta!!! Coisas do futebol, ou melhor, do fanatismo de alguns/muitos torcedores e até dirigentes!!! Sobre guerra, sinceramente, pra mim é uma das coisa mais absurdas que existe/existiu neste planeta! Difícil até fazer um comentário! Dentre tantas coisas menosprezadas neste mundo, esta aí, uma que deve liderar este ranking! Belíssimo texto, mais uma vez, Solon! Parabéns, amigo!!!!!!!!!!!!!!!! Grande abraço!

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