Nas noites de sábado em que fico em casa – considerando o passado recente, todas –, assisto com certa frequência um programa de auditório levado ao ar em TV aberta. Seu apresentador fará 70 anos no próximo mês de junho e tem um auditório sempre repleto de jovens, na sua imensa maioria universitários que comparecem em grupos formados nas próprias instituições. Muitos deles nem eram nascidos quando o programa fez sua estreia nessa emissora – está prestes a completar 20 anos. Seu formato é bastante simples: celebridades convidadas que são entrevistadas por ele e pela plateia, música, uma dose de humor e uma consultora que faz sucesso respondendo sobre assuntos sexuais. O cenário é despojado, sendo basicamente formado por cadeiras que ficam no centro de um palco baixo, com público ao redor, numa espécie de anfiteatro. Músicos distribuídos em mais de um nível de altura, com caminhos ligados por rampas de acesso pelo meio do público. Os câmeras seguido mostram uns aos outros e, mesmo sendo gravada, a atração vende uma ideia de constante improviso e agradável informalidade.

Serginho Groisman é judeu. Sua mãe polonesa e o pai romeno se conheceram no Brasil, tendo ambos fugido da perseguição nazista. Paulistano intelectualmente inquieto, estudou Direito e História, sem concluir nenhum dos dois cursos. Acabou graduado em Jornalismo – levou seis anos para terminar –, enquanto flertava com o desejo de fazer na verdade Cinema. Acabou retornando à mesma faculdade, para ser professor. Nessa época, se tornou produtor em shows de música, tendo trabalhado com grandes nomes do cenário brasileiro. Uma lista realmente enorme e qualificada, que inclui Cartola, Raul Seixas, Gonzaguinha, Elba Ramalho, Jorge Mautner, Hermeto Pascoal, Gilberto Gil, Adoniran Barbosa, Fagner e Caetano Veloso, entre muitos outros. Essa experiência toda e seu carisma fazem muita diferença na condução do programa. E tem permitido que se veja neles duetos e jams (geleias) totalmente improváveis de acontecer em qualquer outro local.

O Altas Horas era levado ao ar por volta de uma da manhã – portanto, já nos domingos –, o que justificava seu slogan inicial: vida inteligente na madrugada. Mesmo assim sempre manteve índices de audiência muito razoáveis, considerando dia e horário. Nos últimos anos, a grade de programação foi mais generosa com o apresentador e seus fãs, trazendo para mais palatáveis 23 horas. Suas gravações são nas tardes de quintas-feiras, sendo na maior parte das vezes conduzidas quase que direto, sem cortes. Serginho entra sem usar nada dos potes de maquiagem que colocam à disposição e, em geral, usando calças e tênis com os quais veio de casa. Vez por outra aproveita as camisas deixadas à disposição no camarim.

O apresentador trabalhou em rádio oito anos antes de começar na televisão. Em termos de telinha, passou por Gazeta, Cultura e SBT antes de chegar na Globo. Em todos os locais, manteve como foco o público jovem que conquistou. E surpreende muita gente o modo como consegue ainda hoje manter essa fidelidade, uma vez que a juventude atual não é quase nada parecida com as de outras décadas. Mas talvez a resposta esteja na manutenção da essência, mesmo com as roupagens tão distintas. Isso ele consegue ver e usar muito bem. Conhece e entende os jovens e nesse aspecto poderia até ser consultor do Ministério da Educação que, por desconhecimento ou incompetência, tem errado desde a formulação de políticas públicas até na simples aplicação de provas do Enem.

Serginho não fala mais do que os entrevistados, nem exagera em elogios gratuitos. Também não usa quadros comprados no exterior, nem faz assistencialismo com recursos dos patrocinadores. Faz é um programa de auditório simples e honesto, onde divide com o público presente e com os convidados o tempo e o protagonismo. Ele conduz, não atropela. O programa tem brilho, ele é discreto com o seu. Deve ter um salário bem menor que estes outros, mas é muito melhor do que eles. Serginho é um pouco o Brasil que se gostaria: respeita a diversidade, tem empatia, sabe ouvir, valoriza a educação e a arte. Os outros são o Brasil possível e o que tentam nos vender. Pai aos 65 anos, ele criou um bordão recente em homenagem ao filho: quando o programa está terminando, avisa carinhoso: “Thomas, tô indo pra casa!”. E nós, que estamos em casa, devemos prestar mais atenção no seu trabalho, independente da nossa idade. Mesmo tendo agora que acompanhar reprises. Certamente ele retornará renovado e mais jovial do que nunca.

07.05.2020

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