Página 8 de 8

ANTES DO AMANHECER A ESCURIDÃO AUMENTA

Ouvi inúmeras vezes a afirmação de que o horário no qual as noites são mais escuras é aquele bem próximo do amanhecer. Não sei se isso é verdade. Também não saberia a quem perguntar ou se existe algum instrumento, um “escurômetro”, que possa aferir isso. Mas, vou partir do pressuposto que sim, que isso de fato ocorra, para fundamentar uma análise não muito lógica sobre o resultado do primeiro turno das eleições e para projetar algo para o segundo.

Como tudo na vida, a perspectiva pela qual se olha ou aborda todas as coisas, provoca mudanças significativas no resultado. Aquela coisa do copo meio cheio ou meio vazio. Em termos de disputa pela presidência da República, a que mais chama a atenção e centraliza as discussões, Lula chegou muito perto de confirmar o que algumas pesquisas eleitorais apontavam como plausível, ganhando direto. Não deu. Faltaram poucos votos, percentualmente falando. Algo muito perto de 1,5% – não estou sendo exato porque comecei a escrever antes que a apuração estivesse concluída (quase 99%) – e, assim, o segundo turno está confirmado.

Claro que com isso foi dada uma boa chance ao azar, se bem que jamais até hoje o vencedor dessa primeira volta foi derrotado na segunda. O que não deverá acontecer agora, uma vez que descontar os cerca de 6,14 milhões de votos não será tarefa nada fácil nem mesmo para Bolsonaro e suas “magias”. Haja oração em templo pentecostal; haja fake news sendo produzidas e difundidas pelo Gabinete do Ódio; haja distribuição de benesses com dinheiro público. Isso é mais de um milhão e meio por semana. Mais de 219 mil votos por dia. O que explica a expressão de desalento do mi(n)to, em entrevistas dadas quando do encerramento da cobertura televisiva.

Fato positivo foi que a votação se deu de forma ordeira. Os fanáticos da extrema-direita pareciam estar de focinheira. Poucos que ousaram sair armados de casa no domingo, foram detidos pela polícia. O que não significa muita coisa, porque agora terão mais quatro semanas para se organizar e promover desordens – isso soa como contraditório, na expressão, mas não é na lógica doentia de quem nega a segurança das urnas eletrônicas, sem prova alguma, sem quaisquer evidências em décadas de uso e tem a violência como um dos princípios norteadores. Até porque esta derrota de agora ainda não é definitiva e eles vão se agarrar no fio de esperança e na sobrevida que ganharam. Não irão, evidentemente, entregar o osso sem luta.

Mas, me deixem voltar para a escuridão que aumentou. A gente vê a relação de parlamentares que foram eleitos e se assusta. O próximo Congresso terá uma composição ainda mais sinistra, conservadora e obscura. Chegaram lá, por exemplo, um ex-Ministro da Saúde que combateu a saúde pública e tentou de todas as formas desestimular a vacinação dos brasileiros em plena pandemia; uma ex-Ministra da Agricultura que apoia o uso indiscriminado de veneno nas plantações, contaminando o solo e comprometendo o futuro; uma ex-Ministra dos Direitos Humanos que se lixa para as pessoas e tem alucinações goiabeirescas; um ex-Ministro do Meio Ambiente que esteve envolvido em desmatamento ilegal e contrabando de madeira; e um ex-Ministro da Ciência e Tecnologia que arrasou com a pesquisa e a ciência nacionais.

Se vamos citar nomes diretamente, foram eleitas pessoas do baixíssimo nível de Sérgio Moro, sua digníssima “conja” Rosângela e o parceiro de falcatruas na Lava Jato, Deltan Dallagnol; o astronauta que nunca ousou desmentir ser a terra plana, Marcos Pontes; o vice-presidente Hamilton Mourão, que mora no Rio de Janeiro, flamenguista doente e de fala chiada, chegando ao Senado via Rio Grande do Sul; os indiretamente citados antes, Eduardo Pazuello, Tereza Cristina, Damares Alves e Ricardo Salles. Na lista ainda podem ser incluídos a nulidade do Mário Frias e reconduzidos, como Arthur Lira, Osmar Terra, Magno Malta e Zero-Três. Eu poderia incluir vários outros ainda, mas a contaminação do texto já ultrapassou limites toleráveis.

A escuridão, que já é grande, tende a aumentar. Entretanto, toda noite, por mais tenebrosa, termina sendo vencida pelo raiar do sol. Ontem mesmo minha filha mais uma vez me ensinou como viver. Ela fez um rol com os nomes que se orgulha de ver terem sido eleitos. Pessoas que, com a sua presença, irão qualificar as bancadas, mantendo acesa a esperança. Ou seja, a Bibiana preferiu ver o amanhecer ao invés de se preocupar com a escassez de luz. Ela mora em São Paulo há algum tempo, então listou eleitos de lá, mas sabemos ambos que existe uma boa colheita em muitos Estados.

Guilherme Boulos é professor, filósofo, psicanalista, escritor e ativista; Erika Hilton, que fora a vereadora mais votada na capital paulista em 2020, se tornou a primeira mulher trans eleita deputada federal por aquele Estado – ontem também conseguiu isso a mineira Duda Salabert; a historiadora, professora e ambientalista Marina Silva voltou à evidência, assim como a inquebrantável assistente social Luíza Erundina; a feminista Sâmia Bomfim manteve sua cadeira; e a enfermeira e líder indígena Sônia Guajajara também chegou lá com pioneirismo – com ela também entrou Célia Xakriabá, das Minas Gerais. Coloquei aqui os nomes citados por ordem decrescente dos votos recebidos como sendo o único critério. Terão muito trabalho, mas nunca lhes faltou garra. Basta que se olhe suas trajetórias para que isso seja confirmado.

Voltemos agora ao resultado da votação para presidente. Primeiro, os institutos de pesquisa acertaram os números alcançados por Lula. Mas subestimaram os de Bolsonaro, que foi além do esperado por eles. A razão mais provável pode ser decorrência do fenômeno conhecido como “voto envergonhado”. Enquanto a imensa maioria da esquerda manteve evidente o orgulho em votar no ex-presidente, o atual tem uma parcela significativa de seguidores que parecem constrangidos em admitir isso. Talvez porque no fundo admitam não existir explicação para a própria escolha. Sabem que o escolhido é machista, despreocupado com pobres, negros, índios e mulheres, misógino e pouco trabalha, mas não mudam seu voto. Talvez porque se identifiquem com uma ou mais dessas opiniões e características. Assim, esses negam, quando consultados, mas confirmam nas urnas. As eletrônicas aquelas que a extrema-direita finge serem inconfiáveis. Esse número, que não se pode aferir com exatidão, se soma ao dos fanáticos, que se constituem por fascistas e pentecostais, basicamente.

É inegável que Luiz Inácio Lula da Silva segue sendo o favorito. O que não lhe assegura vitória, como já citei antes, mas ter a matemática ao lado é sempre melhor. Convém lembrar que nas duas vezes anteriores nas quais foi eleito presidente isso também foi alcançado apenas no segundo turno. No primeiro ele recebeu 46,4% dos votos em 2002 e 48,6% em 2006. Desempenhos semelhantes ao de agora (48,43% faltando contagem insignificante). Porém, mais difícil do que confirmar outra vez a vitória será governar. O contingente adversário, paradoxalmente, se agigantou na insignificância dos seus nomes. E no gigantismo da sua evidente falta de escrúpulos. A cabeça da serpente será cortada dia 30, mas isso será insuficiente. Mesmo o tumor sendo agora extirpado, a doença tem metástase seriamente espalhada pelo tecido social. A extrema-direita está como nunca profunda, arraigada e sem qualquer pudor. O tratamento vai ser demorado e doloroso.

03.10.2022

Lula nos braços do povo. Foto retirada do site do Partido dos Trabalhadores

O bônus de hoje oferece dose dupla de Milton Nascimento. Primeiro com sua Maria, Maria e depois com Coração de Estudante. Essa segunda ele compôs em parceria com Wagner Tiso.

Esse blog recomenda que seus leitores conheçam o site da Rede Estação Democracia. Acesso através do link abaixo.

https://red.org.br/

AMANHÃ, O NOSSO FUTURO

A noite de hoje tem tudo para ser longa e o dia de amanhã também. Mas, o maravilhoso é que essas poucas horas poderão outra vez nos oferecer um horizonte, iluminando caminhos com as cores da esperança. Há de estar no fim o tempo da escuridão, no qual a ignorância plantou apenas ódio, rancor e desunião. Agora temos apenas o percurso que separa as nossas casas dos locais de votação, deixando para trás aquilo que nunca deveríamos ter tido pela frente. É hora dos votos convictos sobre ser a reconstrução nacional imperiosa terem junto consigo aqueles outros que muitos chamam de úteis. Eu prefiro chamar de pragmáticos. Ambos precisam se somar na defesa da democracia. Só existe uma alternativa viável, só existe uma saída inteligente e pacífica. Apenas uma via pode nos recolocar na rota do desenvolvimento seguro que já conhecemos antes.

Lula já disse a que veio, nos dois mandatos anteriores que exerceu. Ele provou que tem compromisso com os mais pobres, conseguindo que a ONU tirasse oficialmente o Brasil do Mapa da Fome, para onde voltamos outra vez com Bolsonaro. Em termos de saúde, enfrentou a epidemia de H1N1 comprando vacinas e imunizando 88 milhões de brasileiros em tempo que foi recorde mundial. Lançou o Mais Médicos, a Farmácia Popular – que teve corte de 60% feito por Bolsonaro. Com ele o Saúde da Família passou a atender 61% da população. Lula também reformou 15,6 mil Unidades Básicas de Saúde e criou 449 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).

Quando presidente, Lula triplicou o orçamento do MEC. O número de jovens nas universidades foi de 3,5 para oito milhões; o de escolas técnicas pulou de 140 para 562; 8.664 creches e pré-escolas foram construídas. E a merenda escolar passou a atender 41,3 milhões de estudantes. Com ele foram criados mais de 15 milhões de empregos com carteira assinada e o salário mínimo sempre cresceu acima da inflação, que foi controlada. O desmatamento da Amazônia foi reduzido a menos de um terço; o preço do botijão de gás não subiu nem dez reais, ao longo do seu tempo.

O Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida transformaram a realidade de milhões de pessoas. Foi ele que sancionou o Estatuto da Igualdade Racial, a Lei Maria da Penha e assegurou o direito das pessoas trans terem seu nome social nos documentos. Lula, hoje perseguido por boa parte dos evangélicos pentecostais, foi quem sancionou também a lei que garantiu a liberdade religiosa. Ele promoveu a cultura com uma série de programas que levaram cinema e teatro às periferias, entre outras iniciativas até então inéditas. Lula sempre defendeu a soberania nacional e jamais bateu continência para qualquer bandeira estrangeira.

Esses três parágrafos anteriores não pretendem apresentar um relatório com todas as realizações de Lula na presidência da República. Seriam necessários muitos outros mais. Discorri apenas sobre alguns detalhes dos quais lembrava, sem a preocupação de realizar uma pesquisa que aprofundasse dados. E isso nem é necessário, porque bastam esses poucos exemplos para que a diferença entre ele e Bolsonaro já seja gritante, oceânica, descomunal. Só no primeiro dos itens que eu citei, a questão da fome, as atitudes do atual mandatário foram acabar com o Conselho Nacional de Segurança Alimentar; com os até então existentes estoques regulatórios, que controlavam o preço de alimentos; abandonar a agricultura familiar – que produz 70% do que comemos – destinando recursos para a agroindústria exportadora; e retirar dinheiro da merenda escolar. O resultado foi termos hoje 33 milhões de pessoas passando fome e 61 milhões não conseguindo fazer três refeições por dia.

Bolsonaro é um indigente. E, apesar da obviedade ululante – obrigado, Nelson Rodrigues – dessa afirmação, ainda assim será preciso um certo distanciamento temporal para que se perceba a profundidade do mal que ele representa. Para que nos demos conta de fato do grau de destruição que ele está deixando no seu rastro. Sempre é assim com a História. Por mais atento que se esteja, apenas o tempo e o baixar da poeira revela o que antes, por perto demais dos nossos olhos, foi visto com menor nitidez do que o recomendado.

Ele não é humano, no sentido respeitoso dessa palavra, mas também não é um animal. Nenhuma espécie merece ser ofendida sendo com ele comparada. Se trata de um tipo de vírus, talvez. Agiu em parceria com o da covid, matando, ceifando vidas e sonhos. Rindo da dor alheia e ainda comemorando a chance de permitir os trinta mil mortos que a ditadura, na opinião dele, deveria ter propiciado a mais. Nisso, apenas nisso, ele se superou. Mais da metade dos quase 700 mil brasileiros vitimados pela doença poderiam ter sido salvos, se ele tivesse agido com competência mínima.

Ele também é um covarde que se esconde atrás de um suposto apoio de parte das Forças Armadas; da organização e fornecimento de armas para parceiros milicianos; do uso da fé de incautos como escudo; e também da propagação de mentiras pelas redes sociais. É uma fraude dolorosa que, neste domingo, os brasileiros e as brasileiras que realmente merecem ser chamadas de “pessoas de bem” precisam remover da presidência. Nada de adiar isso para o segundo turno: vamos resolver agora, imediatamente.

Não votar em Lula amanhã é prorrogar a agonia. É dar uma chance ao azar. É permitir mais um mês de negociatas, de farta distribuição dos recursos públicos apenas na tentativa de assegurar a continuidade de um desgoverno que não tem realizações. Que governa para poucos. Que nos envergonha internacionalmente. Vamos honrar nossa história, nossa bandeira. Vamos defender a vida, a dignidade e a paz. Nosso futuro (re)começa amanhã. O Brasil merece e precisa voltar a ser feliz.

01.10.2022

O bônus de hoje é duplo. Primeiro temos Guilherme Arantes com sua Amanhã. Depois é a vez de Hino ao Inominável, com letra de Carlos Rennó e música de Chico Brown e Pedro Luís. É uma canção-protesto com 202 versos, mais o refrão, contra o ódio e a ignorância que estão no poder em nosso país. Foi lançada em 17 de setembro de 2022. Vários artistas participaram da gravação, entre eles Arrigo Barnabé, Bruno Gagliasso, Chico César, Dexter, Leci Brandão, Marina Lima, Paulinho Moska, Wagner Moura e Zélia Duncan.

Esse blog recomenda que seus leitores conheçam o site da Rede Estação Democracia. Acesso através do link abaixo.

https://red.org.br/