O Rio Grande do Sul se notabilizou pela forma como narra sua própria história. Tudo parece grandioso, uma façanha. Até o hino tem essa última palavra, que o atual governo do Estado inclusive passou a usar para indicar suas supostas realizações. A questão é saber se isso tudo decorre apenas de uma autoestima elevada, pela falta de conhecimento quanto aos fatos reais ou em virtude de interesses bem particulares. De qualquer forma, pouco importando qual dessas três possibilidades de resposta é a correta – ou mesmo se a verdade está em outra aqui não considerada –, é inegável que existe uma complexa luta pelo poder simbólico. E ela não é de hoje, podendo ser até considerada como produto do Partenon Literário, fundado em 1868. Mas não se precisa ir tão longe, podendo ser centrada a questão depois do primeiro século passado da Guerra dos Farrapos. Foi daquele momento em diante que se estabeleceu uma soberba inacreditável.

É preciso compreender que, ao contrário do que colocam algumas das narrativas atuais e mais simplistas, o movimento ocorrido em 1835 não implicava necessariamente em uma proposta separatista, de criação de uma república. Apenas por volta de 1940, quanto o tradicionalismo surgiu, após as comemorações do centenário farroupilha, é que a ideia começou a ser difundida. Naquela época estava em voga a discussão da independência de colônias em todo o mundo, com ênfase para as asiáticas e africanas. Então houve um revisionismo, um esforço de dar ao ocorrido cem anos antes aqui no sul do Brasil a ideia de que se tratava também de uma libertação nacional. Para tanto, a história passou a ser contada como se aqui tivesse acontecido algo hegemônico, como se todo o povo gaúcho de então desejasse e lutasse por isso, algo que passa ao largo da verdade. Foi de fato uma guerra civil, mas nela os farrapos eram minoria em seu próprio território. E mesmo esses não eram todos contrários ao Império.

Ou seja, o tradicionalismo, para dar corpo a valores que desejava fossem os seus, busca conceitos universais. E trata os acontecimentos como sendo uma das guerras de libertação nacional, o que não era verdade e que levou a uma visão distorcida da história. Não se pode esquecer que a independência do Brasil tinha acontecido apenas 13 anos antes, quando então surgira a nacionalidade brasileira. O sentimento de libertação existia, sim. Mas em relação à Coroa Portuguesa, com isso dando identidade e pertencimento para os moradores de todas as províncias, com a imensa maioria se orgulhando disso.

Naquela época, aqui no Rio Grande do Sul, o Partido Farroupilha era composto por latifundiários, senhores de escravos. E havia três grupos internos distintos: o dos militares ou autoritários, liderados por Bento Gonçalves; os liberais, dos irmãos Fontoura, que eram monarquistas constitucionalistas; e um grupo minoritário que aventava a alternativa republicana, sem muito convicção e mínima influência. Importante salientar que nenhuma dessas três linhas tinha qualquer proximidade com o povo. Todos os seus componentes eram membros de uma elite econômica e detinham o poder político. E também precisa ser citado que, uma vez deflagrado o conflito, todos os principais adversários dos combatentes farroupilhas foram também caudilhos riograndenses. Destaque entre esses para o mais notável dos estrategistas, que foi Francisco Pedro Buarque de Abreu, o Moringue – o apelido se devia ao formato de sua cabeça –, que era um estancieiro da fronteira. Apenas em 1842, com a vinda de Caxias para a região sul, as tropas imperiais assumiram papel mais relevante. Isso quando as disputas entre os próprios farroupilhas já eram tão intensas que até duelos ocorriam entre seus líderes.

A República Rio-Grandense nunca existiu de fato, como um território contínuo. Ela era fragmentada, geograficamente, sendo verificada apenas onde transitavam as tropas dos caudilhos e quando alguma localidade era tomada. Todas as principais cidades e a infraestrutura já existente, como os portos, sempre estiveram com os imperiais. O número dos rebeldes, segundo estimativas realistas feitas por historiadores, nunca ultrapassou 1,5% da população total da província, que era muito pequena. O primeiro censo demográfico ocorreu apenas em 1872, 27 anos depois do término do conflito farroupilha, apontando para 434.813 habitantes, com 15% deles sendo escravos. Os municípios mais populosos eram Porto Alegre, com 43.998; São Leopoldo, com 30.860; e Cruz Alta, com 30.662 pessoas. Quanto aos negros escravizados, estes se concentravam em especial na região sul, onde trabalhavam nas charqueadas, em condições geralmente precárias. Razão pela qual, aliás, muitos aceitaram lutar em troca de uma libertação posterior, que nunca aconteceu.

Outra coisa repetida, nos livros didáticos dos ensinos Fundamental e Médio, é que a revolta dos sulistas se deu a partir do imposto que era cobrado sobre a produção do charque. Mas não era esse o tributo que preocupava. O que revoltou os grandes proprietários foi a ideia de ser instituída uma taxação sobre a terra, que estava sendo discutida pelo poder central. Fora isso, outra grande disputa que existia era com relação à possibilidade de indicar politicamente os representantes da Regência, para atuação no Rio Grande do Sul. Ou seja, as questões principais da época não eram muito diferentes do que se vê e discute hoje em dia: a posse da terra, a taxação sobre grandes fortunas e a apropriação de recursos do Estado através da ocupação dos cargos diretivos que, como consequência, assegurem acesso privado a recursos que deveriam ser públicos.

De resto, nos tempos atuais, as comemorações se tornaram uma razão de comércio, de mercado. Não por acaso uma grande rede de meios de comunicação vem investindo pesado nisso, ao longo dos últimos anos. Eventos, patrocínios, movimentação turística, com hotelaria e também gastronomia, uma grande indústria que produz desde indumentária até música, vídeos, literatura, séries de televisão, tudo pesa na manutenção das afirmações todas, não importando o quanto possam estar equivocadas. Não mais importa a verdade e sim uma verdade. E se ela tem que ser criada, que seja a maior e mais detalhada possível. Não podemos esquecer que o impagável personagem Analista de Bagé, de Luis Fernando Veríssimo até aceitou ser chamado de megalomaníaco. Desde que fosse o maior megalomaníaco do mundo.

19.09.2022

Bandeira do Rio Grande do Sul

O bônus de hoje é o áudio da música Sabe Moço, de Francisco Alves, na voz de Leopoldo Rassier. Acompanhado do grupo Os Uruchês, ele concorreu com ela na XI Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, em Uruguaiana, no ano de 1981.

Sabe Moço (Francisco Alves), com Leopoldo Rassier

Esse blog recomenda que seus leitores conheçam o site da Rede Estação Democracia. Acesso através do link abaixo.

https://red.org.br/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s