Um livro instigante, que conduz o leitor em uma viagem pela mente humana, defendendo a tese de que existem duas formas distintas de se pensar. Uma delas seria rápida, intuitiva e emocional; a outra seria lenta, deliberativa e lógica. Essa contribuição está sendo dada pelo psicólogo e economista israelense Daniel Kahneman, que realiza trabalho de pesquisa sobre tomadas de decisão. Uma espécie de “psicologia do julgamento”, na qual estamos de certa forma todos envolvidos, todos os dias, nos dando ou não conta disso.

Atuando na área da psicologia comportamental, Kahneman recebeu o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2002. Isso foi resultado de um trabalho que iniciara ainda na década de 1970, em conjunto com o seu amigo Amos Tversky – que só não dividiu a premiação com ele porque havia falecido antes, em 1996. Desde aquela época, ambos se debruçaram sobre uma percepção diferente da tradicional, no que se refere à teoria econômica padrão. Eles acompanharam casos nos quais algumas preferências intuitivas violavam de forma consistente as regras do que seria uma escolha lógica. E isso num tema onde, teoricamente, é a racionalidade que deveria orientar toda e qualquer decisão. Desse modo, passaram a questionar se o sucesso de um investidor, por exemplo, seria algo aleatório. O que se considera habilidade seria apenas o resultado do acaso e, portanto, uma simples ilusão. Foi a partir desses questionamentos que eles começaram a explorar os limites e as peculiaridades da racionalidade.

Para fazer os estudos que pudessem comprovar ou não sua teoria, Kahneman dividiu a mente, como se nela “habitassem” dois personagens fictícios. Ao ler isso, não pude deixar de lembrar de uma animação da Pixar e da Disney, produzida em 2015: Divertida Mente. Nela o tema da inteligência emocional é abordado de uma forma muito interessante, simples e didática. Conta momento da vida de uma garotinha chamada Riley, mas a partir das ações de alguns moradores internos, que estão em uma “sala de controle”, operando suas reações ao mundo externo. São eles a Alegria, a Tristeza, o Medo, a Raiva e o Nojinho. Todos são importantes e cumprem funções, mas quando há desequilíbrio entre os seus momentos, ação exagerada ou omissão, isso repercute na vida da menina.

O psicólogo israelense propôs dois sistemas. O primeiro seria aquele que precisa tomar decisões rápidas, tendo a peculiaridade de nunca poder ser desligado. Ele é automático, reage de forma imediata a impulsos que são conhecidos. Um exemplo seria a pessoa receber um papel com palavra escrita em um idioma que conheça. Ela identifica na hora o seu significado. Do mesmo modo, se estivesse na folha uma operação matemática bem simples e lhe pedissem o resultado. Um mero dois mais dois, por exemplo. A resposta vem na hora, sem esforço. Se a palavra for em idioma desconhecido, o cérebro tenta buscar associações, mesmo que não consiga; se a operação matemática for mais complexa – algo como 19 vezes 47 –, mesmo a pessoa dominando as quatro operações terá que pensar um pouco, fazer o cálculo. Esse seria o sistema dois.

A partir dessa premissa básica, o autor começa a explorar capacidades, limitações e funções de ambos os mecanismos. O sistema um conecta ideias e acontecimentos frequentes, regulares e comuns. Algo que você já faz sem se dar conta; o que fica internalizado e automatizado. Como agora, enquanto digito esse texto. Faço rápido e sem olhar para as posições de cada letra no teclado. Ou quando a gente está dirigindo um automóvel, que realiza diversas funções sem estar pensando qual deve ser a próxima: dar sinal, olhar no retrovisor, troca de pista, dobrar a esquina, frear ou acelerar. Você vai fazendo isso tudo enquanto pode estar conversando com alguém ao seu lado ou ouvindo música no rádio. Não existe mais aquele esforço e dificuldade, o passo a passo que se dá listando mentalmente as ações, como enquanto se aprende a dirigir ou logo no começo, após termos a carteira de habilitação. 

Enquanto o primeiro sistema funciona conectando ideias ou mesmo acontecimentos corriqueiros, que são repetidos com regularidade no nosso dia a dia, buscando coerência para operar o seu processo associativo, o segundo é acionado quando não são encontradas as respostas automáticas esperadas. Opera quando a melhor história não vem, quando somos retirados do conforto, em momentos nos quais nos falta conhecimento ou informação suficiente. A questão é que saber pouco também nos leva a aceitar uma afirmação falsa como verdadeira, criando ilusões cognitivas e efeitos indesejados.

Segundo o autor, diante dessas circunstâncias, com frequência nós tendemos a utilizar o pensamento causal de maneira indevida. São ignorados alertas como estatísticas e dados relevantes. Acabamos por usar heurísticas simplificadoras, “receitas de bolo”, que terminam com maior facilidade conduzindo a erros.

Kahneman e Tversky criaram o que se pode chamar de “Teoria da Perspectiva”, com o objetivo de entender e explicar as sistemáticas violações da racionalidade na economia, decorrentes das escolhas por opções arriscadas. Segundo eles, os humanos são guiados de modo inconsciente pelo impacto emocional imediato resultante de ganhos e de perdas, muito mais do que pela possibilidade de riqueza e utilidade em âmbito global, no longo prazo. Na Teoria da Utilidade, os pesos de decisões e as probabilidades são iguais. Na Teoria da Perspectiva isso não ocorre, porque situações economicamente equivalentes podem não ser emocionalmente equivalentes.

O interessante nisso tudo é que esse trabalho aponta, ao mesmo tempo, para campos fora do econômico. Quando se entende a forma como todos pensamos e tomamos decisões, sejam quais forem, elas podem passar a ter um percentual muito maior de acertos. Comportamentos tais como o excesso de confiança no momento de escolhas estratégicas; a dificuldade de prever o que vai nos fazer felizes no futuro;  a aversão à perda; e os desafios de identificar corretamente riscos no trabalho e em casa podem ser melhor compreendidos se soubermos como as duas formas de pensar moldam nossos julgamentos. Assim, a jornada que representa essa leitura é relevante, ao nos permitir absorver dicas que podem “disciplinar” nossa intuição, na vida pessoal, sem que se deixe de considerar sua importância. O que, sem sombra de dúvida, é altamente recomendável. Essa é uma obra científica e, portanto, não se trata de um livro de autoajuda. Mas é de autoconhecimento.

24.03.2022

A mente humana e seus mistérios. O pensamento é um deles, que há muito se tenta desvendar.

O bônus de hoje é Felicidade, uma música do gaúcho (e gremista) Lupicínio Rodrigues, na voz de Adriana Calcanhotto.

DICA DE LEITURA

Hoje a dica não poderia ser outra que não o livro que foi tema da crônica. Vale muito mesmo a pena conhecer esse trabalho de Daniel Kahneman, que irá auxiliar o leitor a entender melhor a si. E a ampliar as possibilidades de acerto nas decisões que a vida nos leva a tomar todos os dias.

Basta clicar sobre a capa do livro, que está acima, para ter acesso à possibilidade de aquisição. Se a compra for confirmada através desse link, o blog será comissionado.

6 Comentários

  1. Teu texto não é de autoajuda, mas contribui para olhar pra dentro e refletir sobre nossos processos de pensamento e tomada de decisões. Muito bom.

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