COMO EU CONHECI O MEDO

Final de uma tarde fria mas não tanto, inverno quase terminando, na cidade serrana de Nova Prata, no Rio Grande do Sul. Morávamos no terceiro e último andar de um prédio na área central, apartamento grande, de três quartos e com uma sala de dois ambientes: mais perto da entrada da cozinha, com mesa de jantar e armários; no outro extremo, sofás e televisão. Esse segundo lado era todo aberto para uma sacada, com portas de correr de estrutura metálica e vidros inteiros. Bem na frente havia um belo ipê-amarelo que, quando florido, iluminava ainda mais os nossos dias. Como o sol batia direto, uma imprescindível cortina abria para ambos os lados, se acumulando nos cantos. A sacada, assim como sobre o tapete da sala, eram lugares prediletos da minha filha. Esparramava brinquedos, cantarolava, via televisão. E tinha ainda o costume de ficar bom tempo agarrada na grade, que tinha uma estrutura vertical, com várias hastes metálicas presas em dois apoios horizontais, mais largos, que percorriam a área de ponta a ponta. Era alta o suficiente para não oferecer risco para a menina. Naquele dia ela estava lá, aproveitando os últimos minutos antes que fosse levada para dentro, por causa da temperatura.

A mãe dela no consultório, eu voltara mais cedo do jornal e cuidava da menina, que ainda não tinha dois anos. Nos revezávamos nessa deliciosa função. Uma caneca com maçãs secas estava no fogão, com água e um pouco de açúcar. Bom beber isso, que não é chá nem suco, mas quentinho revigora e alimenta. O clima favorece. Toca o telefone e vou atender. Ele fica sobre uma mesinha, entre a cortina e um dos sofás. Sento, falo uns poucos minutos, encerro a conversa e vou ver se está na hora de desligar o fogo. No caminho, olho para trás e vejo minha filha, que antes estava fora do meu ângulo de visão. Ela está pendurada para fora da sacada, um pezinho no ar, outro ainda em “solo firme”; uma mãozinha no ar, outra agarrada na grade; olhando para baixo.

Um medo enorme me invadiu e eu gelei na hora, até os ossos. Vontade imensa de gritar o nome dela; de externar todo o meu súbito desespero. Mas não fiz isso, felizmente. Meu bom senso ou um anjo da guarda bem atento – o que é muito mais provável – foi o que me manteve em silêncio. A boca ficou seca e eu ouvia meu coração bater nas têmporas. Nesse estado absurdo, eu só conseguia enxergar ela enquanto caminhava na sua direção. Meu Deus, como ficava longe aquela sacada! Mas cheguei lá, afinal. E agarrei a menina com tanta força que poderia ter levantado facilmente um adulto. Nem sei como foi, mas peguei a roupa, o braço, tudo o que encontrei pela frente e puxei para dentro. Só então comecei a tremer. Não pelo que acontecera, mas pelo que poderia ter acontecido. Eu morreria junto, de dor, de tristeza, de culpa. Por que aqueles três minutos de desatenção? Como eu não me dera conta antes que um dos vãos era maior do que os outros?

Um casaco em cada um de nós e rua. Qualquer lugar mais perto do chão, mais longe da sacada. Tentar me acalmar, mover as pernas para que se recuperassem, parando de tremer. Ainda estavam na calçada as mulheres que, falando alto, daquele jeito típico de descendentes de italianos, haviam chamado a atenção dela. A Bibiana segue comigo feliz como sempre, saltitante, indiferente pela falta de noção do perigo. Vamos buscar a mãe, conto aflito o que tinha acontecido e, na volta para casa, lembro um pequeno detalhe: eu não desligara o fogão. O passo mais apressado nos devolve a um apartamento tomado de fumaça, com um recipiente contorcido e incandescente, devido ao calor da chama, e as frutas carbonizadas dentro.

Eu teria colocado tudo fora, não apenas a caneca com as maçãs, que foram direto para o lixo: jogava cada um dos móveis, das roupas e o que mais fosse, lá de cima. De preferência avisando antes, para não pegar ninguém desprevenido lá embaixo. Mas minha filha não! Minha filha nunca! Para ela toda a proteção e carinho, sempre. A Bibiana de algum modo havia percebido que poderia, com cuidado e de perfil, fugir do espaço limitado para outro maior e com ângulo mais favorável para sua curiosidade ser satisfeita. Nada muito estranho para quem, antes de ter aprendido a andar, costumava arrastar uma cadeira, subir nela e passar para cima da mesa, onde engatinhava sem temor algum.

Redes de proteção ainda não eram comuns na época. Fiz uma amarra com arame naquele maldito vão maior, depois de ter medido todos eles umas cinco vezes, para ter certeza de que não precisariam da mesma solução. E coloquei um vaso grande e pesado, com flores, na frente dele. Por um triz não decidi também colocar um cadeado na porta de acesso à sacada. Cheguei a pensar em uma mudança, para uma casa ou apartamento térreo. Hoje tudo é apenas uma lembrança. Quase um conto de terror, mas este com final feliz.

03.09.2021

No bônus de hoje, a bela música Não Esqueça, composta por Nico Nicolaiewky, na voz de Fernanda Takai. Ela é uma das faixas do álbum Será Que Você Vai Acreditar?, lançado em maio de 2020 por essa cantora nascida no Amapá. Nico (1957-2014) foi um compositor gaúcho, um dos fundadores do Musical Saracura e que fez dupla com Hique Gomes no histórico Tangos & Tragédias.

PÃ E O PÂNICO

Na mitologia da Grécia antiga Pã (em grego Πάν) era o nome dado ao deus dos bosques e dos campos, que estava com os pastores e seus rebanhos. Seria uma criatura a habitar grutas e vagar pelos vales e montanhas, onde praticava a caça e dançava com as ninfas. Filho de Hermes, o deus mensageiro – aquele que tem asas nos tornozelos –, ao nascer ele teria assustado sua própria mãe, uma filha de Dríope. Isso porque veio ao mundo com um aspecto grotesco, animalesco mesmo. A representação de Pã o mostra com orelhas longas, chifres e pernas de bode, pele enrugada, um rosto disforme e cabelo bastante desgrenhado. Convenhamos, isso sem dúvida deveria ser suficiente para assustar qualquer um que estivesse desprevenido. E mesmo a mais amorosa das mães. De interessante era o fato de, em sua trajetória posterior, estar sempre acompanhado de uma flauta, que tocava com maestria.

Mesmo quem não conhece esse mito, deve saber o que seja pânico. A palavra é proveniente de Panikós, em grego, sendo referente justo ao deus Pã, esse amante da música. Como ele “assombrava” os lugares que visitava, com aparições repentinas e ruídos inexplicáveis, fazia com que as pessoas tivessem medo. E esse, quando extremo, até hoje se qualifica como pânico. O que, nos dias atuais, não está mais ligado a noites sombrias, mas tem muitas outras razões de ser e aparecer. Agora tememos a perda de controle sobre os acontecimentos ou pessoas; sobre coisas, atos e decisões que podem vir a afetar nossas vidas; sobre nossa própria existência física. Mesmo considerando que esse desejo de controle pode vir a ser traduzido também como uma psicopatologia, a imprevisibilidade e a insegurança afetam a vida moderna como nunca aconteceu antes. E os efeitos disso podem ser traduzidos como um transtorno mental.

Pessoas afetadas pelo Transtorno do Pânico (TP) têm sintomas fortes de desconforto físico e psicológico. E a situação pode ser deflagrada por riscos meramente imaginários, não havendo necessidade de tratar-se de um perigo real. Isso afeta sua vida social, relações familiares e emprego. Abala autoestima, convicções e inclusive a fé. Medo de enlouquecer ou de morrer, ansiedade, taquicardia, falta de ar, náuseas, tremores, tontura e até desmaios podem acontecer. Não são raras a sudorese, calafrios e vertigem. Estimativas apontam para a existência de pelo menos seis milhões de brasileiros atingidos por esse problema, sendo que muitas vezes o diagnóstico só termina sendo alcançado após consultas com diferentes especialistas. E não é nada improvável que a pandemia tenha contribuído para ampliar muito esse número.

Muitos médicos costumam dizer que sua causa é apenas um desequilíbrio químico dos neurotransmissores serotonina e noradrenalina. São essas duas substâncias apontadas como as responsáveis por influenciar nosso humor e excitação física. Portanto é evidente que o problema reside nelas, mas a razão dele ser desencadeado em geral são situações de estresse ou algum trauma psicológico. Assim, convém que paralelo à medicação que possa se tornar necessária, essencial é o acompanhamento psicológico.  Também é relevante examinar as estatísticas levantadas, que mostram 70% dos casos ocorrendo entre os 20 e 35 anos de idade; com 71% do total de pacientes sendo mulheres.  Pode ser um indício do que a estrutura social vigente e suas cobranças induzem ser esse o “público alvo”. Porque é uma faixa etária na qual se exige que a vida esteja mais do que encaminhada, conduzida para uma posição de “bem sucedido”; e devido à pressão ainda maior que é exercida sobre as mulheres e seus múltiplos e simultâneos papéis.

Uma questão que precisa ser superada é a resistência advinda do mero preconceito. Ninguém tem vergonha de dizer que precisou ir a uma consulta com cardiologista ou pneumologista, por exemplo. Mas não são poucas as pessoas que se envergonham e escondem uma eventual necessidade de procurar auxílio psicológico ou psiquiátrico. Nosso cérebro é um órgão tanto quanto são coração e pulmões, talvez com a característica de uma ainda maior complexidade. Precisa ser respeitado e atendido do mesmo modo. E aspectos emocionais – isso já está mais do que comprovado – podem ser mais devastadores que a maioria das doenças de origem meramente física, orgânica. Assim, conhecer a história pessoal e o contexto ou cenário onde essas pessoas viveram e vivem é indispensável para entendimento do problema e busca de solução, algo que jamais deve ser resumido a uma prescrição medicamentosa.

O Transtorno do Pânico é apenas um dos tantos males que podem vir a atingir qualquer um de nós. Outros podem igualmente conduzir a sensações e comportamentos limitantes ou, no mínimo, desagradáveis. Portanto, considerar a possibilidade de buscar apoio psicológico para enfrentar o problema, reorganizar a vida e retomar com saúde o seu cotidiano, precisa ser visto como a atitude correta  e saudável a ser tomada.

24.08.2021

No bônus de hoje, a música Medo do Medo, da rapper portuguesa Capicua, em parceria com João Ruas. Cantam os integrantes de Os Paralamas do Sucesso, sendo essa uma das faixas provocativas que compõem seu álbum Sinais do Sim, lançado em 2017.