Sinceramente, eu acredito que a maior parte dos hábitos que importamos dos EUA só nos causam problemas e alienação. Falo, por exemplo, da fast food que nos torna obesos; de um absurdo Natal com neve; da cultura da violência, retratada em tantos filmes que não funcionam sem acidentes de trânsito e tiroteios; na imposição do aprendizado da língua inglesa; da forçada de barra para que o Halloween seja aqui incorporado; do egoísmo e do individualismo exacerbados; e da invasão da música, boa parte dela de um péssimo gosto. Nesse último item absolvo o jazz, o blues e o rock – quando de qualidade –, se bem que esse último ficou muito mais a cargo dos britânicos que dos yankees. Mesmo assim, sou obrigado a admitir que eles até podem ter, muito eventualmente, um tanto de empatia, adotando alguma iniciativa que pense nos outros e não apenas em si. Vendo pelo ângulo social, algo que fique em desacordo com a frase que eles estampam orgulhosos nas suas notas de dólar, a conhecida God Save America (Deus Salve a América), como se apenas o país deles fosse digno de se dizer americano e o Criador não devesse ter olhos para nenhuma outra nação do mundo além da deles.

Nesse grupo que reputo reduzido de ações positivas, quero me referir ao dia que eles dedicam a “Atos Aleatórios de Bondade”, que foi por lá introduzido em 1995, sendo sempre em fevereiro. Os RAK, iniciais de Random Acts of Kindness, são incentivados ainda por uma minoria, mas parece que estão tomando um porte maior e mais abrangente. Durante 24 horas, quaisquer pessoas que aceitem participar precisam concordar em realizar atos inesperados de bondade, de preferência para estranhos, como forma de retribuição ao que recebem da vida, mesmo sem perceber. É a adoção de um bem ou uma ação altruísta, que deve ser feita sem que se pense nas consequências. Mas, como alguma dose de interesse tinha que aparecer até nisso, estudos mostram que ser um tanto compassivo ajuda não só aos outros como a nós mesmos. Porque ficamos mais felizes e menos propensos a doenças graves, por exemplo. Doenças cardíacas e problemas como pressão arterial se distanciam. Ou seja, se pode afirmar, uma vez que é científico: ser gentil é muito bom. A tal ponto que, nesses momentos, a vida real nos parece muito mais semelhante àquela com a qual sonhamos.

O escritor norte-americano Mark Twain (1835-1910), cujo verdadeiro nome era Samuel Langhorne Clemens, disse certa vez que “a bondade é uma linguagem que os surdos podem ouvir e os cegos podem ver”. E ele estava certo. Pois, como se fosse o estudo de um idioma, as atividades RAK estão sendo incentivadas agora também em salas de aula. Os alunos são convidados a ajudar um colega a terminar um trabalho; incluir em seus grupos algum que esteja solitário; cumprimentar todos os que antes lhes pareciam invisíveis; e evitar o bullying. Fora do ambiente escolar é sugerido que deixem pessoas entrarem na sua frente em filas; que comprem com as suas mesadas alimentos para carentes; procurem velhos amigos que se afastaram por algum motivo; ajudem vizinhos e idosos; incentivem e valorizem a autoestima dos outros; e doem livros, roupas, seu tempo de trabalho ou até mesmo sangue, no caso dos maiores. A grande vantagem é que as escolas potencializam tudo isso, uma vez que nelas se formam hábitos duradouros, que ainda irradiam para as famílias dos estudantes.

No entendimento dos organizadores desse movimento, sentimentos como compaixão, justiça e gratidão são importantes inclusive para a busca do sucesso pessoal, dentro de uma sociedade tão competitiva. Porque dão integridade às pessoas, que aprendem também a valorizar o coletivo. Porque são pilares para a honestidade. E uma lembrança que não somos nada sem o outro, uma vez que todo homem e mulher é um ser social. Pode ser ainda pouco, mas esse é um passo no rumo da cura, numa humanidade que tem adoecido como nunca. Precisamos com urgência importar esses “Atos Aleatórios”, insistindo neles até que esse adjetivo termine substituído por um dos antônimos seus. Como amiudado, assíduo, contínuo, crebro, frequente, insistente, pertinaz, reiterado, repetitivo, seguido, sequente… Um dia a gente aprende que empatia, caridade e solidariedade são saídas seguras contra o egoísmo.

24.02.2022

Fazer o bem nos faz bem

O bônus de hoje é a música Imagine, de John Lennon, num clipe com dezenas de músicos e intérpretes de várias partes do mundo. Participam Katy Perry, Sonu Nigam, Daniela Mercury, Priyanka Chopra e muitos outros, além de corais e pessoas comuns. Esta foi uma produção incentivada pela ONU.

Hoje trago duas sugestões distintas de leitura. No primeiro livro é abordado o desenvolvimento da solidariedade sob o olhar de um dos maiores pensadores da pedagogia em todo o mundo, que é Paulo Freire. O segundo narra experiências da psicóloga gaúcha Debora Noal, formada pela UNISC, trabalhando com o grupo humanitário Médicos Sem Fronteiras. Como sempre, basta clicar sobre qualquer uma das imagens acima para ser redirecionado. Se um ou ambos os itens forem adquiridos usando esses links para acesso, o blog será comissionado.

  1. Em Pedagogia da Solidariedade, Paulo Freire expõe não só suas ideias e seus ideais, como também nos leva a refletir que sem uma pedagogia crítica, voltada para o aperfeiçoamento dessa virtude em cada um de nós, não podemos construir um mundo mais bonito e verdadeiramente democrático, no qual a solidariedade possa ter um lugar privilegiado. Lembremos que Paulo Freire foi nomeado Patrono da Educação Brasileira, em 2012. Essa é uma nova edição ampliada, revista e com novo projeto gráfico.
  2. Débora Noal percebeu, ainda muito cedo, que a vida pode ser muitas coisas, entre elas, incoerente. Há pessoas que têm muito. E há pessoas que não têm nada ou quase nada. Como os haitianos, após os terremotos. Como os congoleses, que vivem na miséria e sobrevivem a uma guerra civil sem prazo de validade. Como as milhares de pessoas “presas” nos campos de refugiados da Líbia. Ou como as mulheres: violentadas em qualquer região do planeta, em qualquer época e em qualquer idade. Por isso a psicóloga decidiu dedicar sua vida, sua escuta e seu afeto àqueles que necessitam. Ela trabalha na organização Médicos Sem Fronteiras e, desde então, já participou de 15 missões. Em O Humano do Mundo ela compartilha seu diário – um companheiro de todas as viagens e um amigo nos momentos de dor, conquistas e alegrias.

4 Comentários

  1. Compartilho de tua visão sobre a sociedade americana. Por isso mesmo fico contente ao saber o que acontece por lá que arranha esta visão. Um texto que ajuda a lembrar que todos somos parte da mesma humanidade.

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