O nome dessa escritora é difícil de ser lembrado e quase impossível de ser pronunciado por pessoas que tenham o português como sua língua nativa, assim como eu. Mas sua habilidade para criar e contar histórias é clara, universal e muito forte. Undinè Radzevičiūtè nasceu na Lituânia, país que pertencia ao antigo bloco soviético, fazendo divisa com Polônia, Letônia e Belarus. Graduada em História da Arte, Teoria e Crítica, pela Academia de Artes de Vilnius – a capital do seu país –, deixou um doutorado inacabado. Trabalhou por uma década em agências de publicidade internacionais, onde ocupou cargo de diretora criativa. E publicou, nos últimos 18 anos, um total de sete livros elogiadíssimos. Todos eles já foram traduzidos para 11 idiomas. Infelizmente, para o meu ainda não. Mas se pode dar boa espiada em espanhol, italiano ou inglês.

Ela iniciou sua carreira com a novela Strekaza, de 2003, cujo título os limitados tradutores automáticos que se encontram na internet asseguram ser uma palavra em esperanto. Mas não a convertem para o português. Uma segunda novela, chamada Frankburgas, veio apenas sete anos depois. E o terceiro Baden Baden Nebus (Não Haverá Baden-Baden), em 2011, era uma coleção de contos que a própria autora entende serem uma mistura improvável de humor ácido com zen. Interessante é que os mesmos personagens aparecem em várias das histórias, compartilhando motivações. Os indivíduos são apresentados como sendo resultados da pressão social, que os obriga a fingir, assumindo o que não são apenas para atender demandas da sociedade. O que acaba sendo fator que os empurra no rumo da destruição.

Em 2013 Undinè voltou a publicar e desta vez foi um romance: Žuvys ir Drakonai (Peixes e Dragões), com o qual ganhou o Prêmio Literário da União Europeia, dois anos depois. Este livro foi considerado um dos mais importantes lançamentos da década. Ele aborda o choque da civilização chinesa com o mundo cristão ocidental. Faz isso entrelaçando duas histórias distintas, que acontecem em diferentes reinos, distantes entre si tanto no tempo quanto no espaço. Uma das narrativas conta a trajetória de um jesuíta italiano chamado Castiglione, que vai para a China quando ela está sendo governada pela dinastia Qing. A outra tem o percurso inverso, contando as vidas de três gerações de mulheres chinesas vivendo em uma grande cidade do Ocidente. São elas uma escritora de romances de temática erótica, suas duas filhas e sua mãe.

Depois disso ela escreveu um thriller intelectual que foi titulado apenas com o número 180, no ano de 2015; e o romance histórico Kraujas Mèlynas (Sangue Azul), em 2017. Mais recentemente, publicou sua sétima obra: Grožio ir Blogio Biblioteka (Biblioteca da Beleza e do Mal), que chegou às livrarias em 2020. Sua produção se mostra coerente, minimalista, cortante e de extrema inteligência. Ela é econômica com as palavras, evitando ao máximo o que seria desnecessário ao texto. O fio condutor de tudo é o absurdo e a fragilidade dos laços de humanidade nas pessoas. E o seu foco são experiências existenciais, sempre as abordando em contextos culturais amplos. Nos resta arriscar a leitura nos idiomas nos quais ela está disponível. E torcer para que alguma editora brasileira abra logo os olhos para essa oportunidade de negócio. Talento ela tem de sobra, o que permite a conquista fácil de mais e mais leitores.

10.11.2021

Undinè Radzevičiūtè

No bônus de hoje, um grupo de cantores lituanos – Linas, Marijus, Gidon e Zareckas – nos dão uma pequena mostra da música contemporânea de seu país: Ne Kažką, que numa tradução livre seria Algo Não.

Depois temos uma reportagem de A Bola TV, de Portugal, mostrando um pouco da capital da Lituânia, Vilnius. Ela foi gravada em 2019, quando a seleção portuguesa de futebol se preparava para enfrentar o selecionado local. Informações adicionais: esse ano o país sediou a primeira Copa do Mundo de Futsal, com a seleção brasileira ficando em terceiro lugar. E a bandeira lituana tem as mesmas cores da bandeira do Rio Grande do Sul, que são verde, vermelho e amarelo.

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