Não exatamente na minha janela, mas bem pertinho dela, todos os dias um sabiá-laranjeira vem cantar. Aliás, nem sei se é sempre o mesmo. Mas sendo mais de um, estão se revezando com perfeição invejável, pois nunca falha. O que é ótimo. Seu canto me agrada, me acalma, me lembra que a natureza e a vida seguem seu curso, que nas coisas singelas há uma beleza que ainda não destruímos.

O sabiá é um pássaro bastante comum em todo o Brasil, desde o Rio Grande do Sul até o Maranhão. Existem algumas variedades e em alguns países vizinhos também são encontrados. Vive em campos e florestas – curiosamente, menos na Amazônica –, mas habita também as áreas urbanas. Há grandes populações em várias capitais, como Cuiabá, Campo Grande, Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte. Nesses casos, em geral é o sabiá-laranjeira. Ele se alimenta de insetos, vermes, frutas e sementes; pesa em torno de 75 gramas, sendo que não há diferenças físicas entre machos e fêmeas, ao contrário do que acontece em várias outras espécies. Seu nome vem da língua tupi e significa “aquele que reza muito”.

O casal costuma construir junto um ninho em forma de taça que, quando pronto, recebe de dois a três ovos, que eclodem depois de 14 dias. Os filhotes ficam sob os cuidados da mãe por cerca de um mês. Claro que isso tudo, a “vida familiar”, acontece depois da época do acasalamento, que ocorre geralmente entre setembro e novembro. E essa é a razão dos machos cantarem no início da manhã – muitas vezes desde a madrugada – e no final da tarde: estão buscando atrair as fêmeas e demarcar o seu território. Ou seja, tão logo meu visitante encontre sua “namorada” não terei mais esse canto tão peculiar e agradável, próximo da minha janela. Importante lembrar que capturá-los da natureza e aprisioná-los em gaiolas é algo hoje em dia proibido por lei.

A cantora e compositora Roberta Miranda é autora de uma música inspirada nesse pássaro. E a história dessa obra é bastante interessante. Ela estava passando por enormes dificuldades financeiras e chegou a ser despejada. Acolhida na casa de Wanda Alves Sobrinho, viveu naquele endereço uma fase de profícua criatividade. Afirma ter escrito dezenas de músicas em pouco tempo, mas nenhuma tão rápida quanto essa, que a tornou afinal conhecida do público, marcando para sempre e positivamente sua carreira. Roberta chegou a dizer que talvez a obra tenha sido simplesmente psicografada, pois levou apenas cinco minutos para ser concluída.

Foi após ela ter recebido um sabiá de presente de Wanda, dando a ele o nome de Merlin. Dias depois, estava dedilhando seu violão e o pássaro passou a acompanhar a melodia. Isso lhe rendeu o refrão, com o restante da letra saindo na sequência praticamente pronta. Apenas duas correções, trocando palavras, foram feitas depois. Majestade, o Sabiá foi gravada em 1985 por Jair Rodrigues, tendo vendido quase um milhão de cópias. Isso permitiu que logo após a cantora pudesse finalmente gravar seu primeiro LP. Mas apenas no disco Vida, de 1997, ela própria cantou a música que a consagrou como compositora.

Numa outra época da minha vida, alguns dias depois de uma grande perda, outro pássaro me visitava com tamanha frequência que parecia ter um ponto para registrar. E foi assim por um bom tempo. Um bem-te-vi pousava na porta que dava para o pátio interno da casa onde eu morava, todos os dias sem falta, fazendo com que o meu olhar, que por uma muito boa razão estava ao longe, perdido, se fixasse nele. E ficava por ali, sem medo algum, saltitando pela entrada da varanda. Até que ia embora, acho que tentando levar junto os meus pensamentos e a minha tristeza. Não tinha sucesso absoluto, mas sempre voltava para tentar outra vez. O que me ajudou muito.

09.09.2021

Sabiá-Laranjeira

No bônus musical de hoje temos Majestade, o Sabiá, como violão e voz de Marina Aquino.

2 Comentários

  1. ” O que é ótimo. Seu canto me agrada, me acalma, me lembra que a natureza e a vida seguem seu curso, que nas coisas singelas há uma beleza que ainda não destruímos.” -por muitos anos, as próprias pessoas se autodenominam vândalos da natureza e assim por diante. É verdade? Tudo o que é usado é destruído em algum momento, cada coisa pequena e grande, cada estrada pavimentada ou uma ponte fortemente construída sobre um rio ou rodovia. Isso é normal e então temos que comprar ou construir um novo. Caso contrário, não haveria rotação das necessidades e empregos das pessoas. Porém, a própria natureza renasce, às vezes mais fraca, e mais uma vez fica mais forte, vai se recuperar. Além disso, ajudamos constantemente, plantamos milhares de árvores, limpamos rios, acumulamos peixes, etc. O homem como usuário deste mundo não pode ser chamado de vândalo da natureza, mas de usuário cotidiano, e as consequências sempre o serão. A imagem do pássaro é linda e o canto dos pássaros debaixo da janela também é maravilhoso, eu também o conheço do meu jardim, cumprimentos

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