Há certos talentos que parecem inatos nas pessoas. Lembro e posso citar, por exemplo, de uma vizinha minha em apartamento no andar acima. Com certeza ela poderia ter uma empresa de demolição, mas jamais uma de mudança. Pelo menos se de fato quisesse primar pela integridade dos móveis e dos objetos pessoais dos eventuais clientes. Não é sempre que acontecia, mas vez por outra eu tinha a impressão que ela estava brigando com as cadeiras. Ou que a mesa dela era uma destas apoiadas sobre cavaletes, com a tábua insistindo em cair por alguma razão misteriosa. Que eu saiba, morava sozinha. E nas poucas vezes que a vi, não estava machucada. O que se revelava um assombro.

Mas existem predisposições, assim como precocidades, que são muito mais interessantes. Amadeus Mozart, por exemplo, compunha com cinco anos. Eu nem lembro de mim, com essa mesma idade. Outros exemplos de genialidades são Leonardo da Vinci, Isaac Newton, Beethoven e Thomas Edison, ficando apenas em alguns dos mais conhecidos. Mas é muito importante salientar que esse termo não é aplicado apenas quando se considera a idade, que aliás é um fator que pouco importa para tanto. Gênios são os que deram ou dão contribuições originais, em seu campo de conhecimento, que terminam tendo valor excepcional para toda a humanidade. Não precisa para isso nem mesmo ser precoce, especialmente talentoso, prodígio ou superdotado. Apesar desses fatores terem o seu peso, em geral é a criatividade que possui maior relevância.

Um psicólogo da Universidade de Stanford, chamado Lewis Terman, o mesmo que ajudou a criar o teste de Quociente de Inteligência (QI), liderou uma grande pesquisa, na década de 1920, para a busca de um modo de identificar a genialidade. Para tanto, ele e sua equipe fizeram o acompanhamento de 1.500 crianças californianas em idade escolar, que tinham atingido QI igual ou superior a 140, em testes prévios. O objetivo era verificar, no final do trabalho, as diferenças em suas vidas quando comparadas com outras crianças, ditas mais “normais”. Quatro décadas depois havia a documentação de centenas de estudos acadêmicos que essas “cobaias” realizaram; 350 patentes de inventos que criaram; e mais de 400 contos e novelas que foram escritas por elas. Mas nem só de sucessos essa parcela era composta. E a conclusão foi de que mesmo uma inteligência monumental não é garantia de que a pessoa que a possua possa realizar proezas também monumentais. Ao contrário: muitas vezes ela vem acompanhada de dificuldades de “ajuste” ao mundo. Não foram poucos os que abandonaram os estudos, por exemplo. Enquanto isso, vários dos estudantes não selecionados no início, por não terem o índice determinado, tornaram-se figuras com distinção nas suas áreas e muitos atingiram grande popularidade.

Voltando a conceituações, o superdotado em geral é uma criança ou um adolescente que tem habilidade superior em uma área mais ampla do conhecimento. O prodígio também se refere a crianças ou adolescentes, que apresentam desempenho de um profissional adulto, mas em algum campo cognitivo determinado. Simplificando, o superdotado é um generalista e o prodígio é um especialista. A precocidade designa apenas o momento em que aflora alguma capacidade incomum. Talento especial pode se referir, por exemplo, a uma memória muito acima da média.

Lembro que quando eu era pequeno, lá pelo que então chamavam de Curso Primário, quando um colega ia mal em alguma disciplina seus pais costumavam contratar professores particulares para reforço naquilo em que ele não estava tão bem. Adulto, ouvi certa feita alguém defender uma postura contrária. A pessoa dizia que pais zelosos deveriam dar reforço justo naquilo em que os filhos se destacavam. Na primeira alternativa apenas garantiam o seu nivelamento, tornando a criança comum. Na segunda, estariam abrindo a possibilidade de ela vir a se destacar, superando com maior facilidade a mesmice. Algo a ser pensado, admito. Eu, enquanto pai, preferi apostar em meios de assegurar liberdade de escolhas e apoio para desenvolver segurança e autoconfiança. Porque considero mais importante o encontro da felicidade, antes de quaisquer outros destaques. Algo mais simples e, paradoxalmente, mais difícil de ser atingido.

15.03.2021

Wolfgang Amadeus Mozart, compositor austríaco

No bônus musical de hoje, como criatividade foi uma qualidade realçada no texto, uma performance incomum reunindo música clássica e metal, num casamento perfeito. Chris e Phil associam a Symphony Nº 40, de Mozart, com Enter Sandman, do Metallica. O resultado é surpreendente.

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