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A EXCELENTE MARÍLIA PÊRA

Manhã de domingo e está sendo preparado um gin-tônica aqui em casa, para ser bebido antes do almoço que iria tardar um pouco. Lembrei então do último trabalho feito pela atriz Marília Pera, que nos deixou em 2015. Bastante debilitada pela doença que a acometera, representou quase a totalidade das cenas sentada. Sua personagem vivia bêbada de tanto tomar gin. Foi na série Pé na Cova, levada ao ar pela Globo entre 2013 e 2016. A atriz dava vida à impagável ex-esposa do protagonista, papel de Miguel Falabella – que também escrevia e era o produtor –, dono da Funerária Unidos do Irajá, de sigla F.U.I., mais do que perfeita para o ramo de negócio.

Marília Pêra era filha de artistas: o português Manuel Pêra e a atriz de ascendência italiana Dinorah Marzullo. Com isso, foi criada praticamente sobre palcos, tendo com apenas quatro anos contracenado com eles, que integravam a conhecida companhia de Henriette Morineau, em uma peça. Dos 14 aos 21 foi bailarina e chegou a trabalhar com Bibi Ferreira. Mas seu primeiro grande feito foi derrotar Elis Regina em um teste para trabalhar no musical Como Vencer na Vida sem Fazer Força, em 1964, quando também buscava espaço como cantora. Numa carreira exemplar, ela conquistou nada menos do que 80 prêmios, tendo feito 20 filmes, 29 novelas e 49 peças teatrais. Ela foi a atriz brasileira que mais vezes atuou sozinha, sendo verdadeira mestre em monólogos. Nos anos 1960, foi presa duas vezes: a primeira em plena apresentação da peça Roda Viva, de Chico Buarque de Holanda; a segunda, quando policiais invadiram sua casa, deixando em pânico o filho de sete anos que foi acordado no momento. Em ambas as ocasiões, a vaga acusação de ser “comunista”. Tudo isso ela superou, menos o câncer de pulmão que a acometeu.

Apesar dos mais afamados do mundo serem os ingleses, na verdade o gin nasceu na Holanda. E surgiu para ser um remédio. Foi em 1650 que o médico e professor Francisco de la Boie estava buscando fórmula para amenizar dores e problemas renais. Juntou a um destilado de cereais o zimbro, uma pequena fruta vinda principalmente da Toscana, criando algo parecido com a vodca. O seu teor alcoólico varia entre 37,5 e 50%, o que não é nada baixo. Mas o sabor é marcante e ele tem a vantagem, em relação ao whisky, por exemplo, de não precisar de envelhecimento. Esse composto passou a ser muito usado por soldados ingleses em missões onde era fácil contrair malária. Era adicionado ao tratamento, para disfarçar o sabor amargo do quinino. Que, aliás, é base para a fabricação da tônica que hoje se bebe com ele. Mas há quem prefira consumir gin puro, apesar do seu uso maior ser realmente em drinques. O negroni e o dry-martini, esse último uma das bebidas prediletas de James Bond, o agente 007, são outros que podem ser feitos com ele.

O seriado Pé na Cova tinha direção geral de Cininha de Paula. Mesmo com a morte de certa forma sendo o tempo todo a temática central, ele conseguia tratar disso com leveza. A família dona da empresa quase falida, pela má administração, tem personagens que beiram o realismo fantástico, flertam com o absurdo. Ruço, o proprietário, namora Abigail (Lorena Comparato), que é órfã e tem 30 anos menos do que ele; tem a filha Odete (Luma Costa), que faz strip-tease num site erótico e namora Tamanco (Martinália), que trabalha como mecânica de automóveis; o filho Alessanderson (Daniel Torres) quer ser político e exercita habilidades manipulando moradores do bairro; o motorista Juscelino (Alexandre Zacchia) é atrapalhado a tal ponto que vive perdendo corpos pelo caminho; a empregada Adenóide (Sabrina Korgut) está sempre contando histórias de pobreza e tragédia; Ba é uma idosa desmemoriada que foi babá de Ruço e que agora, sem ter mais ninguém, mora com ele; e Luz Divina (Eliane Rocha) fecha o grupo como uma vizinha vigarista e esquizofrênica.

Em meio a essa verdadeira “fauna”, brilhavam Miguel Falabella e Marília Pêra, na ficção um ex-casal que mesmo desfeito não se abandona. Uma relação de profunda amizade, de permanente troca de impressões sobre a vida e o mundo. Os diálogos entre Ruço e Darlene davam todo o tom para as histórias contadas. Havia admiração, tanto entre personagens como entre intérpretes. E o respeito de toda a equipe pelo talento e a história pessoal da atriz era tamanho que, com sua morte, se reuniram com a família dela para perguntar o que deveria ser feito. Foi consenso que o trabalho precisava continuar, até como um reconhecimento, porque na certa seria isso que ela gostaria que acontecesse. Agora só se pode apreciar o seu talento em gravações, que merecem ser vistas enquanto se brinda com um gin-tônica refrescante.

03.02.2021

Marília Pêra, uma das mais destacadas atrizes brasileiras

O bônus musical de hoje é duplo. Primeiro teremos a abertura oficial de Pé na Cova, com a cantora Martinália, que também trabalhava como atriz na série. Depois, já que se falou de saudade, Roberta Tiepo com Fico Assim Sem Você, uma canção brasileira de funk melody, composta por Adbullah e Cacá Moraes. Depois ela ganhou roupagem de MPB, numa gravação da gaúcha Adriana Calcanhotto.

“V” DE VERDE E DE VITÓRIA

Quando eu era um menino – por generosidade, nem me pergunte quantos anos atrás –, muitas das minhas tardes de domingo passei sentado no barranco que existia atrás da goleira dos fundos do Estádio Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul, vendo jogos do Juventude. Não havia ainda arquibancadas naquele setor. Era na grama mesmo que se acompanhava o desenrolar das partidas, fosse torrando no sol ou se defendendo da chuva como fosse possível. Pagando uma merreca ou mesmo entrando de graça, que o pessoal da portaria às vezes permitia para a meninada do bairro, fazendo oportuna vistas grossas – nessas ocasiões sobrava grana para comprar amendoim –, fui testemunha de muitas glórias e fracassos. Mas dava ali continuidade ao amor que surgira anos antes, em outra cidade, com o mesmo nome e as mesmas cores. Em Bom Jesus, meu pai fora diretor de outro Juventude, clube social e esportivo, que ostentava como esse o verde e o branco.

Morei na cidade serrana até o ano em que uma fusão uniu os rivais Juventude e Flamengo, suspendendo os acirrados clássicos Fla-Ju e dando origem ao Caxias, preto e branco. Isso não durou muito tempo e voltaram os dois clubes a ter equipes distintas nas competições. Só que o Flamengo retomou seu endereço e suas cores grená, azul e branco, mas não o nome, tendo preferido herdar o novo. Hoje em dia acontece comigo algo impensável para a imensa maioria dos torcedores locais. Consigo gostar de ambos com a mesma intensidade, como se não tivesse sido comunicado para meu coração e meu cérebro que a fusão fora desfeita. Quero que sempre saiam vencedores, menos quando eles enfrentam o Grêmio, lógico. Num Gauchão imaginado como perfeito, seriam os dois fiéis escudeiros de um invencível tricolor da Capital. Nas pelejas entre eles, que vencesse o que estivesse mais necessitando da vitória e dos pontos ganhos com ela.

Adulto, vi o Juventude chegar e permanecer na Série A do futebol nacional por 13 felizes anos. Depois da queda lamentada, igualmente por 13 agora longos anos ele ficou longe dela. Retornou na noite da última sexta-feira. Acompanhei o jogo decisivo e a necessária vitória contra o Guarani, em Campinas, como torcedor dos velhos tempos. Na verdade, no conforto do sofá da minha sala, mas com a mesma emoção da época na qual as acomodações não tinham maciez alguma. O gol único da partida veio ainda na primeira etapa, mas depois vivi um dos lados do tempo que, no futebol, não passa igual para todos. Para o time gaúcho, se arrastava; do lado dos últimos dois postulantes à vaga, CSA e Avaí, os ponteiros corriam – o que é apenas uma imagem, porque ponteiros não têm pernas e as estruturas que marcam o passar das horas são praticamente todas digitais hoje em dia. Mas o jogo chegou ao fim, terminando também a longa espera.

Essa não foi a única partida do Juventude que eu assisti: acompanhei várias outras e algumas do Brasil, de Pelotas. Até a Série C eu vejo, quando posso. Torci muito para o Ypiranga e para o São José. Sendo sincero, pouco me importa qual seja a divisão, pois eu gosto mesmo é do futebol. Ao contrário do Neymar, que acredita ser uma espécie de Houdini, um dos maiores mágicos de todos os tempos, eu penso que a magia do jogo não ocorre necessariamente pela presença de craques e em gramados impecáveis como no Parc des Princes, em Paris, ou no Santiago Bernabéu, em Madri. Muitas vezes ela surge mais pura nos campos ralos da várzea, como uma flor rara brotando no meio do areal. O que não invalida a percepção estética que os grandes espetáculos oferecem. Evidente que também aprecio isso e muito, muito mesmo.

Enfim, essa narrativa é motivada pela comemoração da conquista relatada acima. Uma alegria infantil que me tomou a alma, apenas menor do que aquelas que a Arena tem me proporcionado, nos últimos anos. Para completar, ressalto a curiosa coincidência de terem as outras três equipes que, como o Juventude, chegam à elite do futebol nacional esse ano, também o verde como cor predominante. São elas a Chapecoense (SC), o América (MG) e o Cuiabá (MT). Não bastasse isso, menos de 24 horas depois o Palmeiras (SP), o quinto esmeraldino na sequência, derrota o Santos (SP) e conquista sua segunda Libertadores da América. Aliás, o único gol da partida foi marcado por atleta que participou de boa parte da campanha do acesso juventudista, antes de reforçar o time do Allianz Parque.

Uma sexta-feira e um sábado onde o “v”, letra inicial tanto de verde quanto de vitória, foi presença marcante. Que em breve chegue ela até todos nós como sendo o “v” de vacina. Única forma de podermos voltar aos estádios, para convivermos mais de perto com as emoções que o futebol sempre proporciona.

01.02.2021

Mascote do Esporte Clube Juventude

Considerado que a postagem de hoje está centrada em vitórias, o bônus destaca a música de Vangelis, Conquest Of Paradise (A Conquista do Paraíso). O violinista e regente holandês André Rieu, com a Orquestra Johann Strauss, são aqui mostrados em apresentação feita ao vivo na cidade de Maastricht. A gravação integra o DVD Magic of the Movies.