Até pouco tempo atrás eu sequer sabia que esta fruta existia. Até que fui apresentado, numa manhã de sábado, quando um dos feirantes da Feira Ecológica do Bom Fim, em Porto Alegre, me ofereceu um pedaço para provar. Foi amor à primeira mordida. O gosto é excelente. Levadas para casa, quando se conserva em geladeira por algum tempo antes do seu consumo, ficam ainda melhores. A Pitaya – também conhecida como Fruta do Dragão – possui uma consistência bem interessante. Carnuda e com boa quantidade de água, ela tem sabor adocicado, sendo rica em nutrientes e cheia de minúsculas sementes, que a gente come junto. Nunca vi antes tanta semente numa única fruta. Acho que se todas elas fossem plantadas iriam cobrir o planeta inteiro. Ou ao menos todas as regiões cuja clima fosse mais apropriado para o seu desenvolvimento. O que também não seria bom, porque a variedade dos sabores faz a vida e a existência mais interessantes. Vale para a alimentação o que vale para as ideias, a arte, a política, a moda, os esportes e o convívio em geral. Diversidade é a palavra certa, a palavra mágica.

O bairro do Bom Fim surgiu oficialmente em 1959. Antes disso o local era conhecido como Campo da Várzea, servindo a área de acampamento para carreteiros e para reserva do gado que servia para o abastecimento da cidade. Entre 1867 e 1872 foi construída a Capela do Nosso Senhor do Bom Fim, com o nome sendo gradualmente adotado pela população. Uma segunda denominação, Campos da Redenção, chegou a se confundir com a primeira devido ao fato de que após a alforria coletiva muitos libertos foram morar lá, sem outro lugar que os acolhesse. Por volta de 1910 foi a vez da comunidade judaica começar a se instalar nas proximidades. Consta que a União Israelita de Porto Alegre, uma das sinagogas construídas, é a quarta de todas as Américas em tempo de atividade ininterrupta. A gradual instalação de oficinas e casas de comércio foram alterando as feições do bairro, até chegar-se ao seu perfil atual, de comércio forte nos dias úteis e de imensa zona de convívio, aos sábados, domingos e feriados, algo quase bucólico.

A pitaya não é a única fruta exótica que se encontra por aqui. Na Ceasa vendem muitas outras, que são trazidas de fora do Estado e de fora do país. Noni, seriguela, physalis, kino, atemoia, canistel, sapoti, lichia, figo da índia e mangostim, por exemplo. Essa minha nova paixão é natural do México e do Caribe, sendo que o Brasil a importa principalmente da Colômbia. Mas já temos produção nacional aqui pertinho, em municípios do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. E são três as variedades, existindo pitayas rosa com polpa branca, rosa com polpa vermelha e amarela com polpa branca.

O Bom Fim é onde temos a Lancheria do Parque e o Bar Ocidente. Onde tivemos o Cine Baltimore e o Bar João, a Palavraria e a Espaço Vídeo. Nele existem a Sociedade Italiana, o brechó Maria Sem-Vergonha, o Teatro Araújo Viana e o Coletivo Bonobo, que é restaurante e espaço cultural libertário. Esses e vários outros locais, como cafés e livrarias, são pontos onde se encontram intelectuais, gente de todas as idades, integrantes de variados movimentos alternativos, artistas e boêmios em geral. Na Rua José Bonifácio temos aos sábados a Feira Ecológica – na verdade são dois grupos distintos, que dividem a área entre si, cada um ocupando parte das quadras. Nos domingos, o mesmo espaço recebe o Bric da Redenção. Mas é importante citar que tecnicamente nem é no Bom Fim, mas na divisa com o Bairro Farroupilha que esses dois eventos acontecem: a rua pertence a esse último.

Pode ser que a maioria das pessoas já saibam disso tudo. Mas há algo que talvez desconheçam e me deixou muito surpreso quando descobri: durante o período em que a rua fica interrompida, nas manhãs de sábado, os feirantes têm que pagar para a Prefeitura o valor que essa deixa de arrecadar com o estacionamento rotativo. Ou seja, é como se todas as vagas estivessem ocupadas sem interrupção, sendo isso rateado entre eles. Essa “Área Azul”, como é chamada, naquele ponto foi instituída durante o governo de José Fortunati (PTB), mantida depois no de Nelson Marchezan (PSDB) e continua agora, com Sebastião Mello (PMDB). Interessante é que quando um hipermercado quer se estabelecer pede e ganha um sem número de isenções. Aqueles que trazem produtos orgânicos para vender por preço justo saúde aos porto-alegrenses, esses são penalizados. Ninguém alivia para eles, então o negócio é ajudar no pagamento, de forma indireta, comprando umas pitayas a mais.

21.02.2021

No bônus musical de hoje, Ramilonga, de Vitor Ramil. É quase um hino, falando de Porto Alegre. Cita o bairro Bom Fim, mas faz muito mais do que isso. A gravação foi feita em estúdio, para programa  do Canal Encuentro, do Ministerio de Educación de la Nación, na Argentina.

8 Comentários

  1. Foi bom passear pelo Bom Fim neste domingo, mesmo que virtualmente. E ouvir Vitor Ramil foi um presente. Pena que o poder público não faça justiça aos produtores da Feira Ecológica.

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  2. Amo Pitaya e seriguela! A minha região (Montes Claros/MG) tem muito pé de seriguela, cresci debaixo de um. Quando não era período da fruta eu comia as folhas da árvore rs… Agora já a pitaya, fui apresentada para ela no mercado municipal daqui, assim como você senti amor a primeira mordida. Belo texto!

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