Quando minha mãe me dizia “vai num pé e volta no outro”, eu sabia que era simplesmente recomendação para ir e voltar rápido. Mas na minha imaginação infantil – que pena não continuarmos tendo a mesma, depois de adultos – eu ficava me imaginando como um saci, pulando primeiro na direita e depois na esquerda, rua afora. Na certa seria bem complicado e cansativo, se fosse exatamente dessa forma. E demandaria uma senhora coordenação motora, ainda mais se o “logo ali” fosse longe. Claro que naquela época eu não tinha a menor noção de que existiam os sentidos conotativo e denotativo; algo literal e algo figurado. Isso ainda não era conteúdo nas minhas aulas. Mas percebia, intuitivamente, quando uma coisa não poderia de modo algum ser feita ou interpretada do modo falado. Assim como no exemplo que acabei de dar.

Ao longo da vida da gente, muita coisa vai acontecendo e esclarecendo essas diferenças, para além dos bancos escolares. No terreno da minha casa, durante a infância em Bom Jesus, lembro que uma vez apareceu uma cobra. Uma chefe minha em Porto Alegre, quando iniciava a minha vida profissional, também era uma cobra. Aliás, creio que muito mais venenosa do que aquela anterior. A ambiguidade é mesmo uma situação de adultos. O que é um paradoxo: na época em que mais nós sonhamos, somos mais sinceros, diretos e objetivos ao falar. E quando a sociedade nos exige outras posturas e a concretude pesa no dia-a-dia, na luta pela sobrevivência, aprendemos a usar palavras não necessariamente para descrever a realidade, mas muitas vezes para nos protegermos dela. Ou apenas para que fique mais claro aquilo que pretendemos dizer, mesmo que isso dependa também da capacidade do nosso interlocutor, que precisa decodificar o dito e alinhar significados com a nossa intenção.

O tempo, que sempre foi e sempre será apenas o tempo, ganha com uma certa frequência o adjetivo “difícil”. Tem quem chame de “vida fácil” uma das ocupações mais sofridas que existem. Enfrentamos momentos de “escuridão”, mesmo não havendo nenhum eclipse no céu. E quando se vislumbra solução para algum problema, surge uma “luz”, que não é nem elétrica, nem do sol. Há sites que são “quentes”, pessoas que são “frias”, jogos de futebol que se mostram “mornos”. Tudo é “azul” quando está bem, mas muitas vezes ficamos “vermelhos” de raiva. Quem tem pressa, pede tudo “para ontem”. E quem se atrapalha, perdendo uma boa oportunidade, “dorme no ponto”.

Se alguém nos adverte sobre algo que termina acontecendo, “cantou a pedra”. Quem teve sorte ou alcançou sucesso, “nasceu virado para a lua”. Se o medo é muito grande, ficamos com “o cu na mão”. Tendo algo a lamentar, “choramos as pitangas”. Mas quando a penúria é mesmo imensa, estamos “matando cachorro a grito”. E no momento em que toda a situação se altera, “mudou da água para o vinho”. Se ganhamos um presente sem utilidade, ele é um “elefante branco”. Um “chato de galocha” é pessoa insuportável. Quem está atento, está “ligado”. Quando alguma coisa dá muito errado, não é incomum que se busque alguém para “pagar o pato”. E aqui no Sul, o desatento é um “moscão” – mas claro que ninguém sai por aí vomitando sobre alimento, para depois engolir o líquido e poder digerir.

Na linguagem literária esse recurso, a aplicação de palavras com um sentido diverso ao seu original, tem utilização intensa. E muitas vezes se apresenta até de modo mais sutil. A língua portuguesa permite isso com uma simples inversão na ordem de colocação de adjetivo e substantivo, numa frase. Se tomarmos como exemplo o título de um livro de Lima Barreto, “Triste Fim” é totalmente diferente de “Fim Triste”, e o Policarpo Quaresma já não seria o mesmo. Extrapolando para o governo brasileiro, um “triste fim” seria a narrativa dele sair antes da hora, depois de uma escolha democrática mas totalmente equivocada; um “fim triste” será o rastro de destruição que irá deixar na sociedade ao seu término, seja ele quando for. Mas, evidente que em ambos os casos os brasileiros de fato preocupados com o nosso país estarão extremamente alegres. E terão que se preparar para o árduo trabalho de reconstrução do tecido social.

16.12.2020

No bônus musical de hoje, uma canção cuja letra usa com qualidade a figura de linguagem chamada prosopopeia (personificação): De repente, Califórnia, de Lulu Santos e Nelson Motta. “O vento beija meus cabelos/ As ondas lambem minhas pernas/ O sol abraça o meu corpo/ Meu coração canta feliz”. Violão e voz do cover Leandro Hartmann.

4 Comentários

  1. Fin text du beskriver i dina ord. Musiken var fin men jag förstår inte texten… Idolbilden bakom som lyser upp gör mig glad 🙂 .

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