Eu estudava no Henrique Emílio Meyer, em Caxias do Sul, onde minha família morava. Mas não lembro em que série estava. Sabendo que haveria uma Feira de Ciências no colégio, resolvi participar, tendo me preparado com uma boa antecedência. Meu trabalho demandou pesquisa anterior e um tanto de habilidades manuais, que na época eu tinha. Consegui um vidro bem grande, com boca larga e tampa de rosca, que perfurei trocando o metal por tecido, para permitir passagem de ar. Coloquei outro menor dentro dele, bem no centro, tendo colado ao fundo. O objetivo era forçar o seu futuro conteúdo a ficar ao redor. Depois, tive que percorrer o bairro para achar um formigueiro em algum terreno baldio – eu morava em um apartamento, na Av. Júlio de Castilhos. Com uma pá e correndo o risco de ser recebido com bom número de picadas, apanhei o maior volume possível da terra que o compunha e coloquei no vidro, fechando a tampa imediatamente. Depois fui levar meu experimento para casa, colocando na área de serviço e bem longe de onde minha mãe lavava e pendurava roupas, para segurança tanto das formigas quanto minha.

Ao redor do vidro, coloquei algumas voltas de papel preto. O objetivo era escurecer o interior, para que ficasse mais próximo do ambiente natural. Nos dias seguintes, fornecia folhas picadas que retirei do mesmo lugar onde elas antes buscavam e alguma água. Isso além de alguns agrados, como açúcar. Elas passaram a poupar as perninhas, não tendo que ir tão longe buscar o que precisavam para viver. E tiveram muito mais tempo para reconstruir o formigueiro original, agora em ambiente controlado. Enquanto isso, eu aprofundava meus conhecimentos sobre esse inseto e preparava cartazes que iriam complementar minha exposição futura. Aprendi, por exemplo, que as formigas são insetos altamente organizados – o que eu já suspeitava, obviamente –, vivendo aquilo que se passou a conhecer como “eusocialidade”, do mesmo modo que as abelhas e as vespas, por exemplo.

Agora fui atualizar meus conhecimentos sobre o assunto, depois de tantos e tantos anos, e acabei descobrindo que existe o cálculo de que formem quase 20% de toda a biomassa animal vivente. A estimativa é que haja pelo menos dez quatrilhões desses insetos na Terra, superando o peso de toda a humanidade reunida. E olha que estamos em época onde a obesidade é quase moda, graças ao desastroso hábito alimentar que adotamos. São 13.500 espécies diferentes de formigas em todo o planeta, que são distribuídas em 334 gêneros e 17 subfamílias. Só não são encontradas nos polos norte e sul. Os cientistas acreditam que as formigas tenham surgido cerca de 140 milhões de anos atrás, em período chamado Cretáceo. Depois disso, no Jurássico, teriam se desenvolvido fortemente, na mesma época em que surgiram plantas com flores.

Existe até um estudo específico sobre as formigas, que é chamado de mirmecologia. Nessa área o Brasil tem grande relevância internacional. Aliás, somos tão ligados a elas que já tivemos até uma frase famosa proferida sobre o assunto, pelo botânico francês August de Saint’Hilaire, que realizava estudos em nosso território, na época em que ainda éramos oficialmente uma colônia: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou as saúvas acabam com o Brasil”. Saúva é uma das espécies de formigas existentes, e o cientista subestimou nossa capacidade de sobreviver, convivendo com pragas muito piores.

O que eu já sabia quando da feira é que as formigas-rainhas geram até 300 novas formigas a cada semana. Que elas nascem a partir de ovos e passam por fases de larvas e pupas, até chegarem na fase adulta. Tudo isso pode ser visto, quando o papel preto foi retirado e se teve acesso ao conteúdo, ao lado interno e antes oculto do formigueiro. Seus túneis e corredores de percurso e comunicação haviam sido refeitos em grande parte, assim como as câmaras, junto ao vidro. Era possível perceber detalhes, como os ambientes onde estavam sendo geradas e desenvolvidas as novas componentes daquela sociedade. E também acompanhar seu deslocamento e trabalho. Isso tornou a minha participação um sucesso e fiquei grato e quase amigo destes seres pequenos, que me permitiram uma breve notoriedade. Relação que admito não é mais a mesma, há muito tempo. E se agrava agora, quando algumas delas ousam atacar os potes de mel que compro na Feira Ecológica do Bom Fim.

06.12.2020

O bônus de hoje é uma música instrumental de autoria de João Gabriel Rosa, catarinense de São Joaquim, cidade muito próxima da minha terra natal, Bom Jesus. Tem o sugestivo nome de Formiga Ruiva.

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