Tão logo fui alfabetizado, comecei a ler gibis. Mesmo antes disso eu gostava de ver as tirinhas publicadas nos jornais e pedia que lessem para mim os diálogos. Algumas das histórias eu entendia mesmo sem o auxílio das palavras, mas depois que fui decifrando o mistério das letrinhas, ficou ainda melhor. Então passei a pedir as revistinhas e meus pais, para minha sorte, nunca foram contrários. Isso porque na época da minha infância surgiu a hipótese, que muitos defendiam sem argumentar, que tal hábito imbecilizava. A televisão ainda não era popular o suficiente para assumir esse papel. E meios digitais só existiam na ficção.

Claro que tinha meus prediletos, mas lia de tudo. Na verdade, fugia um pouco da obviedade da família Disney, sem ser de modo algum contra seus personagens. Gostava de Tintim, Fantasma, Mandrake e Tarzan. Conheci Brucutu, Dick Tracy e Os Sobrinhos do Capitão – por favor, não relacionar com aquela família atual. Depois veio a fase dos super-heróis, com ênfase no grupo adolescente da Turma Titã. Daí tive um tempo bastante breve lendo Flash Gordon, Capitão Marvel e Tex. De Homem-Aranha e Batman, com seus traumas e angústias, gosto até hoje. Então eu fui crescendo e conheci a fina ironia de Rango, Mafalda e Asterix, o Gaulês. Desses três últimos devorei todos os volumes lançados, muitas vezes tendo que retirar em bibliotecas. Na mesma linha, acho Calvin e Haroldo, assim como Hagar, o Horrível, simplesmente fantásticos. Nunca neguei ou abandonei de fato nenhum desses personagens, que afinal ajudaram a me constituir. Permaneci fiel mesmo tendo a oportunidade de conhecer bem depois quadrinhos que qualificam como “adultos”, tipo os trabalhos incríveis produzidos por Manara, Serpieri e Crepax.

A primeira história em quadrinhos que surgiu, segundo defendem alguns estudiosos, foi The Yellow Kid, nos EUA, no ano de 1895. Esse era o nome pelo qual conheciam o principal personagem das historietas criadas por Richard Fanton Outcault. Era um garoto careca que vestia uma espécie de camisolão que tinha essa cor e ia até seus calcanhares. As falas vinham impressas na roupa, não em balões uma vez que esses foram adotados mais tarde. A publicação saía no suplemento dominical que era destinado ao público infantil, rodado em cores pelo jornal New York Sunday World, na ocasião dirigido por Joseph Pulitzer. Esse imigrante de origem húngara viria a ganhar muito destaque no jornalismo daquele país, com seu nome sendo dado a um importante prêmio que existe até hoje.

Apesar desse quase consenso internacional, aqui no Brasil já circulara, no ano de 1869, a revista Vida Fluminense. Nela, com o sugestivo nome de As Aventuras de Nhô Quim, eram publicados desenhos feitos pelo italiano Ângelo Agostini, radicado em nosso país. As histórias contavam experiências de um caipira na cidade grande, sendo as primeiras que adotaram um personagem fixo: o que dava título para as narrativas. Em 1905 surgiu O Tico Tico, a primeira publicação que se dedicava com exclusividade ao gênero quadrinhos. Mas sua grande popularização ocorreu em 1934, com encartes em O Globo e em A Nação, dois jornais com grande tiragem e muito maior abrangência de público em função disso. Nos dias em que traziam tais suplementos, a venda avulsa aumentava muito. Em 1937, outra revolução: surgiu a revista Mirim, criada por Adolfo Aizen, depois fundador da muito famosa EBAL – uma editora especializada. Esta foi a primeira onde as histórias passaram a ser contadas completas e não mais seriadas, em capítulos, como antes. E em 1939, na esteira desse sucesso, apareceu mais um grande nome: a revista Gibi, lançada por Roberto Marinho.

O termo gibi é usado apenas no Brasil. Por aqui essa palavra era no início sinônimo de moleque, menino pequeno, como os que vendiam nas ruas jornais e revistas. Tornou-se com o tempo sinônimo de revista de histórias em quadrinhos e perdeu seu significado anterior. Entretanto, mudança muito maior ocorreu com esse tipo de arte. Da quase ingênua origem, como meio alternativo de se contar histórias, as HQs ganharam notoriedade e passaram a ser consideradas também um poderoso veículo de comunicação de massa. As mutações posteriores foram além do aprimoramento das técnicas de produção, distribuição e vendagem: viraram desenho animado, ocupando espaço no cinema e na televisão, geraram milhares de outros produtos e se fazem presente como elemento ativo na educação e no estabelecimento de alguns padrões para nosso relacionamento social, no mundo todo.

18.11.2020

Capa de exemplar da pioneira revista The Yellow Kid

No bônus musical de hoje, a banda irlandesa de rock alternativo, The Script, com Superheroes. Esse foi o primeiro single do álbum No Sound Without Silence, lançado em setembro de 2014.

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