A participação política não se resume ou não deveria se resumir ao ato de votar. Também não precisa exigir presença ativa em estruturas partidárias. Mas somos seres sociais e a sociedade é regida por regras que são, em tese, estabelecidas pelos representantes do povo – mesmo sendo nossa democracia relativa. Como essas normas depois precisam ser seguidas por todos, sem exceção, torna-se essencial que se diga presente às urnas, nas oportunidades que temos. Porque esse é o modo de nos apoderarmos de mecanismos institucionais para garantir seu uso para atendimento da maioria.

É muito lugar comum dizer que não votar significa abrir mão da parcela do poder decisório que é posta nas mãos de cada pessoa, de dois em dois anos. Que essa omissão significa transferir para terceiros, decisões que vão impactar sobre nossas vidas, queiramos ou não. E que pior do que isso, só mesmo o votar errado. Mas, mesmo assim, se torna difícil fugir dessas afirmações, diante da recorrência do que se vê depois dos resultados, em muitos governos que se sucedem. Se é inegável que os tempos andam mais complicados do que nunca, do ponto de vista político, ao menos quando essa expressão se refere ao que é partidário e ao sistema participativo como um todo, vamos sistematicamente recebendo novas oportunidades de alterar isso. Amanhã será uma delas. Um dia que pode ser radiante de sol, mesmo com a chuva anunciada para todo o Rio Grande do Sul.

No Brasil as decisões eleitorais sempre estiveram historicamente de um lado, enquanto a demografia permaneceu de outro. Um país de maioria negra e parda, que vota maciçamente em brancos. Onde as mulheres não têm nem de perto representatividade proporcional ao seu número. Onde uma imensa maioria de pobres e remediados elege filhos da classe dominante. E esses absurdos étnicos, de gênero e de classe social se dão porque as pessoas não se reconhecem enquanto integrantes desses grupos majoritários e oprimidos. Existe uma crise de identidade, que vem sendo agravada pela falta de educação formal e política, além de uma série de intervenções nada acidentais. Como o orquestrado descrédito do sistema, plantado pelos meios de comunicação; a religião se imiscuindo nos partidos; milícias criando novos currais eleitorais em zonas de grandes cidades, a exemplo dos antigos coronéis no interior; e a violência dos meios digitais, fabricando e destruindo reputações conforme interesses específicos. Essa situação toda forma um campo minado, mas não podemos nos permitir jogar a toalha. Ou, acreditem, tudo ainda pode piorar.

Paulo Freire, o educador genial que a mediocridade recente se esforça inutilmente em reduzir ao seu próprio nível, foi muito claro ao conceituar os dois tipos de esperança que se pode ter. Segundo ele, “é preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar. Porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é uma esperança verdadeira: é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir!” Portanto, nesse domingo, vamos todos depositar esperança ativa nas urnas. Vamos todos esperançar, para que esse primeiro encontro democrático depois do desastre de 2018, seja o passo inaugural para se devolver nosso país para um caminho de entendimento, no qual não se comemore doença e morte, mas sim saúde e vida. No qual se acredite muito mais no poder do livro do que na força das armas. No qual empatia e generosidade superem malquerença e egoísmo. Um país onde se possa pensar no desenvolvimento econômico, sem abrir mão do combate sistemático e sério às desigualdades sociais. E que amanhã todos aqueles que votaram no ódio no pleito anterior tenham agora seus olhos e corações abertos nesta nova oportunidade, diante das urnas.

14.11.2020

No bônus musical de hoje, Dias Melhores, com a banda mineira Jota Quest.

2 Comentários

    1. Brasil e Estados Unidos precisam e merecem mudanças. Sorte de vocês que já estão alcançando esse processo. Aqui ainda sofreremos dois anos, pois as eleições de hoje não são presidenciais. Mas claro que podem os resultados de agora melhorar nossas perspectivas. Obrigado pela leitura e comentário. Abraço!

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